Pesquisa da Ufes revela transformações na imagem de Nossa Senhora Aparecida

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Publicado em 10 de Outubro de 2026 às 09:27

Redação de A Gazeta

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Uma pequena escultura de barro encontrada no Rio Paraíba do Sul, em 1717, passou por transformações ao longo de mais de três séculos e se tornou um dos principais símbolos religiosos do Brasil. 

Às vésperas do Dia de Nossa Senhora Aparecida, celebrado em 12 de outubro, uma pesquisa da professora do Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Isabela Frade analisa a história da imagem, suas restaurações e as mudanças na forma como é percebida pela população.

O estudo, publicado no artigo Política e religiosidade popular na cerâmica do Vale do Paraíba, SP: agência performativa da imagem Aparecida, acompanha a trajetória da escultura de 37 centímetros de altura, desde o período colonial até os dias atuais. A pesquisa aborda as relações entre arte, memória, religiosidade popular e pertencimento.

Segundo a tradição popular, a imagem foi encontrada por três pescadores no Rio Paraíba do Sul, em 1717. Primeiro, eles retiraram da água o corpo da escultura, sem a cabeça. Em uma nova tentativa de pesca, encontraram a parte que faltava. A peça foi reconhecida como uma representação de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

A escultura é uma obra anônima do século XVII. De acordo com Frade, ela provavelmente foi produzida por Frei Agostinho de Jesus ou por integrantes de sua escola artística. A delicadeza do rosto, as mãos em posição de oração, a tiara de rosas e o movimento das vestes estão entre as características que aproximam a peça da produção atribuída ao religioso.

Ao longo dos séculos, a escultura sofreu deteriorações e passou por intervenções e restaurações. Uma das mais marcantes ocorreu em 1978, quando a imagem caiu de seu nicho na Basílica e se quebrou em numerosos fragmentos.

Durante o trabalho de recuperação, algumas características foram modificadas. Os cabelos, por exemplo, foram alongados para facilitar a fixação da cabeça ao corpo.

Para a pesquisadora, a permanência da imagem no imaginário brasileiro está relacionada à combinação de suas dimensões artística, histórica e religiosa. A relação entre a escultura e as pessoas que a observam também permite que novos significados sejam atribuídos a ela de acordo com cada época e contexto social.

A tonalidade escura pela qual Nossa Senhora Aparecida é conhecida atualmente também faz parte da história da escultura. Segundo os registros analisados por Frade, a peça foi produzida em argila clara e originalmente tinha pintura. A cor escura teria surgido posteriormente, com a perda da policromia — conjunto de cores aplicado à superfície — e as condições às quais a imagem foi exposta ao longo do tempo.

A pesquisadora destaca que registros mais antigos não identificavam a santa como negra. A imagem era descrita como morena ou parda escura, em tonalidades que Frade relaciona à diversidade de tons e ao colorismo presentes na sociedade brasileira.

Atualmente, porém, a representação de Nossa Senhora Aparecida como negra é predominante e aparece também em suas inúmeras réplicas.

O estudo também acompanha a mudança de escala da devoção à imagem. Inicialmente mantida em um oratório na casa de um dos pescadores, a escultura passou a atrair vizinhos e peregrinos. Com o aumento do número de fiéis, uma capela foi construída à beira da estrada.  Hoje, a imagem original ocupa um nicho no Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo.

A pesquisa também destaca a função das imagens religiosas no período colonial. Segundo Frade, essas peças integravam uma espécie de pedagogia visual, utilizada para transmitir narrativas religiosas a populações que, em grande parte, não tinham acesso à escrita. Assim, as esculturas atuavam como mediadoras na difusão da fé católica.

O artigo foi publicado no livro Tramas do corpo: ressonâncias e resistências performativas, terceiro volume da coleção Trans_bordar horizontes, do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGArtes/UERJ).

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