Pepe Escobar aponta cerco do Eixo da Resistência e alerta para colapso saudita

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Em uma densa conversa com o professor e cientista político norueguês Glenn Diesen, o jornalista e analista internacional Pepe Escobar traçou um quadro dramático sobre as transformações no tabuleiro militar e geopolítico da Eurásia e do Oriente Médio. Para Escobar, a incapacidade dos Estados Unidos de ditar o ritmo das tensões e os erros de cálculo da monarquia saudita abriram caminho para uma crise sem precedentes na região, marcada pela mudança de postura militar de Teerã e pelo avanço fulminante das forças iemenitas do Ansar Allah.

Logo no início do diálogo, Escobar e Diesen examinaram as tentativas recentes de encontrar uma saída diplomática (off-ramp) para o confronto direto com o Irã. O analista detalhou que tanto Pequim quanto Teerã esgotaram as vias negociadoras nos últimos meses — desde articulações diretas durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York até propostas formais de mediação levadas pela liderança chinesa a Washington.

A recusa da Casa Branca em aceitar compromissos multilaterais e a dependência de ultimatos levaram o Irã a abandonar ilusões diplomáticas de curto prazo:

“O Irã tentou de tudo com o auxílio chinês. Houve propostas e planos estruturados na mesa, mas a resposta de Washington foi o rechaço. Teerã agora corre contra o relógio do adversário: sabe que a política interna norte-americana está em desespero e que os persas não têm pressa, porque construíram sua resiliência ao longo de décadas”, explicou Escobar.

Teerã muda sua doutrina: do modelo defensivo ao ataque preventivo

Um dos pontos centrais abordados na análise foi a virada tática nas diretrizes militares iranianas. Segundo Escobar, o modelo histórico de defesa dispersa e dissuasão convencional foi formalmente substituído por uma postura ofensiva com capacidade de antecipação:

  • Prontidão para o primeiro golpe: Caso detectem qualquer movimentação indicando ataques coordenados dos EUA ou de Israel, as forças iranianas acionarão ataques preventivos contra bases regionais e ativos navais no Oceano Índico e no Golfo Pérsico.
  • Consenso nas instâncias decisórias: Figuras experientes como Mohsen Rezaei articulam diretamente as deliberações do Conselho Supremo de Segurança Nacional, alinhando as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária (IRGC) e o parlamento em torno de uma linha dura e unificada.
  • Debate sobre a doutrina nuclear: A reformulação das diretrizes estratégicas já está em discussão nos círculos de poder em Teerã, adaptando a resposta iraniana ao ambiente de guerra existencial imposto pelas potências ocidentais.
  • Resistência às sanções econômicas: Escobar apontou que as transações de escambo (barter trade), redes de suprimento integradas à Ásia Central, China e Paquistão e mecanismos alternativos de liquidação garantem a sustentação material do país diante de pressões financeiras externas.

O front iemenita e a asfixia da monarquia em Riad

Se Teerã opera como a âncora estratégica, é no Iêmen que se desenrola o golpe mais severo contra a hegemonia pró-ocidental na Península Arábica. Escobar sublinhou que Irã e Iêmen compõem uma frente inseparável no “Eixo da Resistência”, e o Ansar Allah assumiu a dianteira operacional em etapas meticulosamente planejadas:

“Os iemenitas sabiam que uma ofensiva massiva estava sendo planejada contra o eixo e decidiram tomar a iniciativa preventiva. Agora eles têm a vantagem. Sua campanha foi pensada em fases: primeiro a consolidação do controle em toda a costa do Mar Vermelho, depois o domínio das rotas estratégicas e petrolíferas no interior e, finalmente, a mira nas províncias do sul saudita, terras historicamente iemenitas.”

O impacto dessa manobra sobre a Arábia Saudita, governada de fato pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS), é devastador. Segundo Escobar, a política de retaliação simétrica aplicada pelo Iêmen — bloqueio por bloqueio, aeroporto por aeroporto — paralisou eixos cruciais da economia saudita:

  • Incapacidade de escoar hidrocarbonetos: Ataques repetidos contra o gasoduto e oleoduto Leste-Oeste e o fechamento de rotas marítimas estrangulam as exportações sauditas.
  • Explosão do endividamento e fuga de capitais: As agressões que Riad iniciou contra o povo iemenita em 2015 agora retornam em formato de bumerangue econômico contra a própria infraestrutura saudita.
  • Fratura dinástica e descontentamento tribal: Riad enfrenta tensões internas agudas entre facções da realeza alijadas das decisões e tribos marginalizadas, criando o terreno propício para um desmoronamento estrutural do regime.

O colapso das alianças e a terceirização das guerras de Washington

Pepe Escobar chamou atenção para a armadilha em que parceiros regionais de Riad se encontram. Países como Turquia e Paquistão, apesar de signatários de acordos para salvaguarda dos locais sagrados do Islã em Meca e Medina, recusam-se enfaticamente a atuar como bucha de canhão saudita na linha de frente contra o Iêmen, cientes do custo popular e militar dessa empreitada.

No encerramento da conversa, Glenn Diesen e Pepe Escobar estabeleceram paralelos entre o impasse no Oriente Médio e o conflito no leste europeu. Diesen observou que, diante do declínio relativo de seu poder militar e econômico, Washington tenta a todo custo terceirizar os fardos de seus confrontos: joga o peso do conflito ucraniano no colo dos países europeus e tenta empurrar regimes do Golfo para o embate contra o Eixo da Resistência.

Para Escobar, no entanto, a margem de manobra do império encolheu:

“O que vemos agora é o resultado inevitável de anos de arrogância estratégica. Não há como restaurar o status quo anterior. Seja no Iêmen, no Golfo Pérsico ou no confronto de longo prazo com o Irã, o tabuleiro mudou irrevogavelmente — e o preço histórico do revés está sendo cobrado.”

Fonte: Brasil 247

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