Partidos promovem candidaturas de ‘celebridades’ para ganhar visibilidade nas eleições do DF
Por Victor Silva — Brasil de Fato
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O ex-jogador de futebol Marcelinho Carioca é um dos candidatos a deputado distrital do Republicanos que mais recebe recursos de campanha, entre os 23 nomes que concorrem pela legenda a uma vaga na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
Famoso pela carreira no futebol, Marcelo Pereira Surcin concorreu em todas as eleições entre 2010 e 2026. Neste período, lançou-se a cargos variados, como vereador, prefeito, vice-prefeito, deputado federal, estadual e, agora, distrital, mas nunca foi eleito.
Sem atuação política no DF, o ex-atleta acumula, até o momento, mais de R$ 570 mil de verba do Fundo Eleitoral, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A aposta em ex-atletas e influenciadores é uma estratégia dos partidos para ganhar visibilidade e, por consequência, favorecer demais as candidaturas.
É o que avalia Deniza Gurgel, doutoranda em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB). “Eles podem gerar repercussão midiática que outros candidatos com uma construção histórica não conseguem alcançar. Quando se traz um personagem fora do mundo político, as pessoas passam a falar dele e dos outros nomes do partido”, afirma.
A pesquisadora também avalia que os partidos sofrem com uma “crise da representação democrática”. Nesse cenário, as pessoas são levadas por critérios de conexão afetiva ou emocional, sem considerar as propostas e a legenda dos candidatos.
“Antigamente, [os partidos] eram os grandes intermediadores entre os eleitores e a política. Hoje, observamos outros elementos funcionando como mediação com o eleitor, em vez do partido em si”, argumenta.
Nas redes sociais, Marcelinho Carioca possui duas contas. Uma é destinada a comentários de futebol e à propaganda de bets, com mais de 1 milhão de seguidores. A outra, destinada à campanha no DF, foi criada em abril deste ano e tem 62,5 mil seguidores.
Em vídeo publicado na segunda conta, o candidato buscou reforçar sua identificação com o Distrito Federal ao dizer que mora na região há dois anos e cursou jornalismo na Universidade Católica de Brasília (UCB), além de ter jogado pelo Brasiliense em 2005.
“Ando pelo Brasil inteiro levando o esporte como meio de inclusão social e, na área do terceiro setor, com o Instituto Marcelinho Carioca, promovendo empreendedorismo, qualificação e capacitação dos jovens e oportunidade de emprego”, afirma na gravação.
Em 16 anos, sua única atuação ocorreu em janeiro de 2015, quando assumiu o mandato de Márcio França (PSB-SP), que renunciou para tomar posse como vice-governador de São Paulo. Marcelinho ficou como suplente de França entre 2011 e 2015, mas exerceu o cargo por apenas 29 dias.
Marcelinho também transitou, ao todo, por 7 partidos de linhas ideológicas diferentes, como o Partido Socialista Brasileiro (PSB) entre 2010 e 2012; o Partido dos Trabalhadores (PT) em 2014; o Partido Republicano Brasileiro (PRB) em 2016; o Podemos (PODE) em 2018, o Partido Social Liberal (PSL) em 2020; o Partido Renovação Democrática (PRD) em 2024 e o Republicanos em 2026.
Em seu registro de candidatura a deputado distrital, Marcelinho declarou um patrimônio de R$ 45,370 milhões. A maior parte dos bens está concentrada em um empreendimento no setor de hotelaria no valor de R$ 40 milhões, o Atibaia Seven Resort, além de cinco flats avaliados em R$ 2,25 milhões, um apartamento de R$ 2,5 milhões, uma Mercedes CLA de R$ 400 mil e um Corolla Cross de R$ 220 mil.
No caso de ex-jogadores, os candidatos podem se beneficiar da memória afetiva construída durante a carreira. A identificação com o clube e a lembrança de momentos marcantes, portanto, podem favorecer a conquista de votos mesmo sem uma trajetória política consolidada. Segundo Gurgel, essas figuras se beneficiam justamente por não serem vistas como políticos “tradicionais”.
Essas candidaturas, por sua vez, têm a vantagem de já serem conhecidas do público. De acordo com a pesquisadora, “tudo que causa surpresa gera burburinho e faz as pessoas comentarem”, o que aumenta o engajamento em torno desses nomes. “Na hora de votar, o eleitor pode lembrar: ‘tem esse cara de quem eu gostava quando ele jogava bola’, ‘tem esse ex-BBB’, ‘tem essa influenciadora’”, explifica.
A cientista política destaca que a fragmentação do sistema partidário também dificulta o entendimento da população sobre as diferenças entre esquerda, direita e centro. Nesse cenário, as candidaturas de celebridades surgem como alternativa para eleitores “apáticos”, que acompanham pouco o cenário eleitoral.
Gurgel também alerta para um possível risco que os partidos correm ao depositar confiança em candidatos com histórico de passar por várias legendas, porque eles “dificilmente” constroem um vínculo político entre os eleitores e a instituição. “Como esse candidato não possui formação partidária e não veio das bases, ele apresenta uma mobilidade maior para trocar de legenda. Com isso, pode levar seu capital político para outro lugar”, observa.
Em nota, a assessoria do Republicanos informou que a candidatura de Marcelinho segue critérios que levam em conta a sua “trajetória, projeção pública e potencial eleitoral”.
“A distribuição dos recursos eleitorais entre as candidaturas do Republicanos aqui no Distrito Federal segue critérios políticos, técnicos e estratégicos, considerando fatores como potencial eleitoral, representatividade, histórico político, alcance e capacidade de contribuir para o fortalecimento da nominata proporcional”, acrescenta o texto.
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Fonte: Brasil de Fato