Para buscar vitória de Pirro, cabe a Lula relembrar caos bolsonarista no poder
Por Vinicius Rodrigues Vieira — JOTA Jornalismo – Feed
Relembrar o descalabro bolsonarista no poder: essa é a única estratégia disponível para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sonhar em reverter, nas próximas três semanas, o resultado amargo que ele e os que ainda acreditavam num Brasil moderado receberam na noite deste domingo, 4 de outubro. Justamente no dia de São Francisco de Assis, o santo preocupado com os pobres e a natureza, o Brasil escolheu um projeto político que se afasta de ambos.
Aliás, não deixa de ser lógica a falta de preocupação com as mudanças climáticas e o ser humano enquanto se testemunham os primeiros efeitos incontestáveis do declínio do catolicismo no país e consequentes mudanças na identidade nacional. Mas, haja vista que a população não parece se importar com o próprio destino nem com questões de longo prazo — como os desdobramentos da submissão aos Estados Unidos e as tensões nacionalistas que esse debate implica —, Lula precisa mostrar, urgentemente, que escolher Flávio Bolsonaro (PL) representa o risco de voltarmos ao mapa da pobreza e da miséria.
Isso deve ocorrer com um adendo: a classe média passaria a comer carne de burro, como vem ocorrendo na Argentina. Nesse sentido, é inevitável lembrar que Daniella Marques, assessora econômica de Flávio e muito provável ministra da Casa Civil ou da Economia em seu eventual governo, disse que Javier Milei, atual ocupante da Casa Rosada, é uma inspiração para promover um ajuste no país.
A perspectiva de se alimentar com iguarias exóticas (contém ironia) talvez não baste para Lula sensibilizar alguns dos que não escolheram candidato algum no pleito, que teve maior abstenção desde 1998. Somados aos votos brancos e nulos, 39,4 milhões de eleitores se abstiveram de escolher um nome para a Presidência. Também é preciso recordar os 700 mil mortos na pandemia e a possibilidade de enfrentarmos, em breve, outras emergências sanitárias.
Mostrar apenas números frios e insistir na biografia do presidente, porém, não dará em nada. O Brasil é um país a-histórico — nada importa no passado; o futuro é apenas o imediato, uma piscadela no reel infinito das redes sociais que nos escravizam. Lula 1 e Lula 2 já são coisa antiga, em particular para o eleitor mais jovem, que enxerga no PT o establishment a ser derrotado. Ademais, o povo não se sente obrigado a reconhecer conquistas anteriores. Para alguns, isso é autonomia eleitoral, mas, levada ao extremo, a falta de memória conduz a coletividade a um harakiri existencial.
Lula pode, como é muito provável, perder a eleição. Nunca um candidato presidencial que saiu em desvantagem conseguiu revertê-la no segundo turno. Cabe lembrar, entretanto, as eleições de 2006, quando Lula, embora quase tivesse vencido no primeiro turno, conseguiu impor a seu adversário – o agora vice-presidente Geraldo Alckmin (então no PSDB, hoje no PSB), uma redução tanto no percentual quanto no número absoluto de votos no segundo turno.
Outras questões a serem exploradas podem ser as relativas à segurança pública. A população, contudo, parece não estar preocupada com isso de fato. Caso contrário, não teria quase eleito Douglas Ruas (PL) governador do Rio de Janeiro em primeiro turno, contra o favoritismo de Eduardo Paes (PSD). No quesito corrupção, insistir nas ligações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, é algo essencial.
Lula também precisa procurar nomes da mais uma vez fracassada terceira via, a qual deve hibernar pelas próximas duas décadas haja vista a radicalização do eleitorado de direita, que segundo estimativas deu ao PL 122 de 513 cadeiras na Câmara dos Deputados, além de mais de um terço do Senado — as bases de um verdadeiro Bolsonaristão.
Ronaldo Caiado (PSD) não deve querer conversa com o petista, mas o presidente do partido, Gilberto Kassab, histórica raposa centrista, tem seus interesses profundamente afetados pela ascensão da extrema-direita. Augusto Cury (Avante), por sua vez, também poderia ser sensibilizado por alguma questão, como a educação e as necessárias reformas na Justiça e no Supremo Tribunal Federal (STF).
Aliás, critica-se o PT e a esquerda por falhas de leitura do cenário político e um certo encastelamento do qual o STF teria feito parte, mas o centro-direitismo que vê seus interesses ameaçados pela hegemonia bolsonarista no conservadorismo tampouco soube se antecipar e se defender da avalanche de extrema-direita.
Tido como guru da política nacional, Kassab chegou a falar que Flávio Bolsonaro não tinha chances de ser eleito, argumento que esta coluna contestou anteriormente ao insistir no que já devia ser óbvio: o bolsonarismo não é um movimento político apenas, mas um fenômeno sociológico. Deu no que deu.
O movimento à direita no Brasil nos próximos 20 anos é inevitável, mas pode ser mitigado caso Lula realize aquilo que parece impossível e chegue a uma vitória de Pirro para si e para o PT, mas de grande valia para o país no longo prazo: destronar os Bolsonaro do iminente controle do Planalto. Isso permitiria que uma solução mais moderada, muito provavelmente na figura de Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito governador de São Paulo, se apresentasse em 2030. Esse é o equilíbrio possível para o país até o fim da primeira metade do século 21.
No mais, qualquer outra proposição, a meu ver, é reflexo das bolhas de esquerda, que foram furadas pela realidade gritante apresentada pelas urnas neste primeiro turno. Caíram por terra o triunfalismo no julgamento do 8 de janeiro e, antes, na definição da inelegibilidade de Bolsonaro, que agora se multiplicou em milhares de avatares que nos assombram.
Para ironizar a filosofia red pill que domina a machosfera do bolsonarismo e é derivada de uma interpretação distorcida da franquia cinematográfica Matrix, bem-vindes ao deserto do real!
Fonte: JOTA Jornalismo – Feed