‘Para a conta não ficar para o povo do DF, tem que salvar o BRB’, diz presidente do Sindicato dos Bancários

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Por Flavia Quirino — Brasil de Fato

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As incertezas sobre o futuro do Banco de Brasília (BRB) não envolvem apenas a situação financeira da instituição. Para o Sindicato dos Bancários de Brasília, os desdobramentos também podem atingir serviços públicos que passam pelo banco, trabalhadores e empresas que prestam serviços à instituição.

“No primeiro momento, você tem um colapso no sistema do Distrito Federal, que praticamente tudo funciona a partir do BRB, desde mobilidade urbana, pagamento de programas sociais e medicamentos. Então, para as pessoas que mais precisam, tudo é via BRB”, explica Rodrigo Britto, presidente do sindicato.

O banco passou a enfrentar dificuldades depois das operações realizadas com o Banco Master, que estão no centro de investigações da Polícia Federal. A apuração identificou um fluxo de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master nos primeiros meses de 2025. Documentos da investigação registram uma estimativa de prejuízo de aproximadamente R$ 17 bilhões, considerando operações realizadas desde 2024.

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, citando deterioração da situação econômico-financeira, problemas de liquidez e violações das normas do sistema financeiro.

Desde então, o BRB passou a buscar formas de recompor seu patrimônio. Em março, a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) aprovou um projeto que autorizou medidas de capitalização, incluindo a contratação de até R$ 6,6 bilhões em operações de crédito e a utilização de imóveis públicos.

Em abril, o próprio BRB aprovou uma proposta de aumento de capital que pode chegar a R$ 8,817 bilhões. No entanto, para os bancários, a discussão sobre a instituição começou antes de o caso Master ganhar as dimensões atuais.

Diretor do Sindicato dos Bancários, Ivan Amarante afirma que a organização acompanha a administração do BRB desde 2019. Segundo ele, os primeiros questionamentos surgiram a partir do modelo de expansão adotado pelo banco e da forma como alguns resultados eram obtidos.

“Começamos a estudar os números do BRB mais a fundo e percebemos que alguns dos lucros recordes anunciados tinham sido muito calcados na venda de ativos. No caso de 2021, foi quando vendeu a Seguros BRB. Dá para perceber que não é uma estratégia de longo prazo, não é uma estratégia sustentada”, avalia Amarante.

Na avaliação do diretor, a expansão foi acompanhada por negócios e patrocínios que não tinham relação clara com a atividade principal da instituição. “O BRB começa a ser o posto de escape do GDF. Ou seja, tudo, de alguma forma, o governo jogava para o BRB fazer, criava uma forma de o BRB fazer. O BRB virou uma válvula de escape para tudo”, afirma Amarante.

O sindicato também passou a acompanhar operações envolvendo compra de carteiras de crédito e movimentações acionárias. De acordo com Amarante, foi nesse período que começaram a chegar informações sobre negócios do BRB com o Banco Master.

“Começamos a perceber que os números do BRB só se deterioravam. Tinha uma carteira grande, maior que a de boa parte dos bancos estaduais, mas, mesmo com uma carteira desse tamanho, a gente não estava lucrando como deveria. Aí eu falei: está errada essa administração, tem alguma coisa de errado”, relata Amarantes.

Os questionamentos não ficaram restritos ao debate interno do sindicato. A organização afirma ter apresentado denúncias à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ao Banco Central, ao Ministério Público (MP), ao Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) e à Polícia Federal.

Em 2025, o sindicato também se posicionou contra a tentativa de aquisição do Master pelo BRB. A operação chegou a ser autorizada pela Câmara Legislativa, mas acabou rejeitada pelo Banco Central em setembro daquele ano. Dois meses depois, o Master foi colocado em liquidação extrajudicial. A venda de carteiras do Master ao BRB continuou, posteriormente, no centro das investigações sobre as operações entre os dois bancos.

O tamanho exato das perdas ainda é discutido. Para Amarante, não é possível tratar todos os valores associados às carteiras negociadas como prejuízo efetivo sem considerar a qualidade, a existência e a possibilidade de recuperação desses ativos.

Para Rodrigo Britto, a discussão sobre o futuro do banco também precisa considerar quem será afetado caso o BRB deixe de cumprir as funções que exerce hoje. “Não são apenas os empregados do BRB, os bancários, mas também os trabalhadores terceirizados e outros prestadores de serviços. Há toda uma cadeia produtiva que gira em torno do banco. Você fala aí de mais de 10 mil famílias afetadas diretamente”, afirma Rodrigo Britto.

O número inclui, segundo o dirigente, trabalhadores diretamente empregados pelo banco e pessoas que atuam em empresas prestadoras de serviços. Documentos do próprio GDF apontam que o BRB exerce funções relacionadas à execução de políticas públicas, financiamento, crédito habitacional e atendimento financeiro da população do Distrito Federal.

Britto também questiona o que aconteceria caso os ativos mais rentáveis da instituição fossem transferidos para empresas privadas, enquanto os custos permanecessem sob responsabilidade do governo.

“Se acontecer realmente uma situação dessa, a iniciativa privada fica com a parte boa do banco, e o problema fica no Distrito Federal, fica no GDF. De qualquer forma, a população paga a conta. E é um problema que ainda não tem tamanho definido”, avalia Britto.

Diante das diferentes estimativas sobre o impacto das operações com o Master, os bancários defendem que o BRB apresente de forma clara sua situação patrimonial e financeira antes de novas decisões sobre o futuro da instituição.

“A gente precisa ter uma situação de transparência total. Essa transparência passa muito por uma decisão política do governo do Distrito Federal. A gente precisa saber realmente a situação do banco para saber como atuar e como salvar. Tem que ter uma apuração séria e que todas as pessoas envolvidas sejam penalizadas”, defende Britto.

O presidente do sindicato também afirma que a investigação não deve se limitar aos executivos que aparecem diretamente ligados às operações. Para ele, é preciso esclarecer o papel de quem tinha poder de decisão sobre o banco durante o período investigado.

“Quem mandou de verdade? Quem orquestrou? Então, qual é a investigação que está sendo feita, de fato, em relação ao governo, Ibaneis [Ibaneis Rocha, ex-governador] e Celina [Celina Leão, atual governadora], que eram os responsáveis pela gestão do BRB?”, questiona Britto.

A cobrança ocorre em meio à disputa pelo Palácio do Buriti. No primeiro turno das eleições para o governo do Distrito Federal, realizado em 4 de outubro, Celina Leão (PP) terminou na primeira colocação, com 825.530 votos, o equivalente a 49,93%. Leandro Grass (PT) ficou em segundo, com 569.930 votos, ou 34,47%. Os dois disputam o segundo turno, marcado para o dia 25 de outubro.

Ao comentar o cenário eleitoral, Britto relacionou uma eventual vitória de Celina à possibilidade de não haver responsabilização pelas decisões tomadas na gestão do banco.

“Infelizmente, se a Celina Leão for eleita, vai ficar essa impunidade. E a gente corre o risco de não conseguir salvar esse importante patrimônio do povo de Brasília. A conta fica para a população do Distrito Federal, e isso é uma coisa que as pessoas têm que ter em mente. Para a conta não ficar para o povo do Distrito Federal, tem que salvar o BRB”, afirma Britto.

Com as dificuldades financeiras e as discussões sobre capitalização, também entrou no debate a possibilidade de mudança no controle do BRB. Entre as alternativas levantadas publicamente está uma eventual venda da instituição para um banco privado.

Para Ivan Amarante, uma operação desse tipo poderia priorizar os ativos considerados mais rentáveis, sem necessariamente preservar a estrutura do banco e seus postos de trabalho. “BTG Pactual [maior banco de investimentos da América Latina] não é um banco que atua no varejo, não é um banco que tem agência aberta. O que interessa para ele é a folha de pagamento do GDF, as carteiras boas do BRB, a carteira imobiliária e a carteira consignada. Interessa para ele manter funcionário?”, questiona.

O dirigente defende que, antes de uma eventual transferência para o setor privado, sejam consideradas alternativas que mantenham o banco dentro do sistema público. Entre elas está a possibilidade de federalização ou incorporação por outra instituição pública.

A proposta também aparece na avaliação de Rodrigo Britto como uma alternativa caso não seja possível recuperar o BRB em sua atual estrutura. “Para Brasília, como brasiliense, é melhor manter o BRB vivo. Mas, se não for possível manter o BRB vivo, que seja federalizado, que seja incorporado a outro banco público. O BRB faz um papel que mesmo os outros bancos públicos estão cada vez mais abandonando, que é o atendimento à população que mais precisa”, defende Britto.

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Fonte: Brasil de Fato

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