Os ETFs estão fazendo com os fundos o que os fundos fizeram com as ações há mais de 20 anos
Por Monique Lima — Seu Dinheiro

Antes da popularização dos fundos de investimento tradicionais, o investidor pessoa física que queria investir em ações precisava fazer o chamado stock picking, escolhendo os papéis individualmente na bolsa de valores. Não era uma tarefa simples. Exigia conhecimento, acompanhamento constante do mercado e, muitas vezes, um volume maior de recursos para construir uma carteira diversificada.
Os fundos tradicionais representaram um avanço significativo desse modelo. Eles permitiram que o investidor comprasse uma única cota e, instantaneamente, passasse a ter uma cesta diversificada de dezenas de ações gerenciadas por um profissional. Tudo isso por um custo muito menor.
Mas os números mais recentes sugerem que uma nova mudança está em curso na escolha dos investidores brasileiros: a popularização dos fundos de índice negociados em bolsa (ETFs).
Levantamento da XP mostra que os ETFs foram a categoria que mais cresceu na indústria de investimentos desde dezembro de 2022.
O patrimônio desses produtos avançou 228% no período, muito acima do observado em outras classes. Os fundos de ações, por exemplo, registraram crescimento de 31,4%. Mesmo os fundos de renda fixa, classe mais popular entre os investidores brasileiros, ficaram bastante aquém, com 72% de avanço.
Uma cesta pronta e barata
Essa pode ser uma novidade no mercado brasileiro, mas em mercados mais maduros, especialmente o norte-americano, os ETFs ocupam um espaço muito significativo.
Nos EUA, os fundos de índice representavam mais de 30% da indústria de fundos ao final de 2025 — somando US$ 13,4 trilhões em ativos líquidos, conforme dados do Investment Company Institute (ICI).
E essa adesão tem um motivo: a proposta dos ETFs é simples.
Em vez de tentar descobrir quais serão as melhores ações, títulos de renda fixa ou os ativos da vez, o investidor compra a cota de um fundo que replica um índice inteiro de mercado.
Com uma única aplicação, pode investir em dezenas ou até centenas de ativos.
Além da diversificação instantânea, os ETFs também oferecem um custo-benefício melhor.
Suas taxas de administração são menores que as praticadas pela maior parte dos fundos tradicionais, justamente porque não exigem uma equipe dedicada a selecionar ativos e rever a carteira diariamente.
Muitos fundos de gestão ativa cobram taxas na faixa de 1% a 2% ao ano — além de uma possível taxa a mais de performance também —, enquanto diversos ETFs operam com taxas inferiores a 0,5% ao ano.
Os fundos de índice também têm a vantagem de não ter a cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e come-cotas (antecipação de imposto dos fundos de renda fixa e multimercados, cobrada duas vezes no ano).
O investidor mais independente
A popularização das corretoras digitais também ajuda a explicar o avanço dos ETFs.
Nos últimos anos, investir diretamente na bolsa deixou de ser uma atividade restrita a investidores experientes. O acesso ficou mais simples, os custos caíram e a oferta de produtos aumentou.
Nesse ambiente, os ETFs passaram a ocupar um espaço intermediário entre a gestão passiva dos fundos e a seleção de ativos pela pessoa física.
Para muitos investidores, esses fundos funcionam como uma forma de terceirizar apenas a execução da estratégia — que é a criação do índice de referência —, sem abrir mão do controle sobre a alocação.
Hoje há ETFs que permitem investir em renda fixa, mercados internacionais, ações, commodities, criptomoedas e diversos outros temas por meio de uma única aplicação.
Em vez de escolher uma ação específica ou delegar todas as decisões a um fundo tradicional, o investidor decide quais mercados deseja acessar e utiliza ETFs para construir essa exposição.
Segundo dados da B3, os ETFs já se aproximam da marca de 1 milhão de investidores pessoas físicas. Ao fim do primeiro semestre, eram 862 mil CPFs posicionados nesses produtos. Esse número coloca os fundos de índice na posição de investimento que mais cresceu entre os investidores pessoas físicas em 2026.
Espaço para crescer
Apesar da aceleração, o mercado brasileiro ainda está longe do estágio observado nos Estados Unidos.
Os ETFs ainda representam uma parcela pequena da indústria local de fundos.
O patrimônio líquido dos ETFs supera R$ 100 bilhões, enquanto a indústria de fundos soma quase R$ 11 trilhões. Isso equivale a menos de 1% do total.
Participantes do mercado acreditam no crescimento dessa classe nos próximos anos, impulsionado justamente pela busca dos investidores por custos menores, diversificação e praticidade.
Entretanto, eles ponderam sobre avanços regulatórios que são importantes para que o investimento tenha mais adesão. Os dois principais tópicos são: tributação e gestão ativa.
Os fundos de índice de renda variável têm uma alíquota fixa de 15%, enquanto os de renda fixa possuem três faixas de imposto de renda: 15%, 20% e 25%, que variam de acordo com o prazo médio da carteira do fundo. Isso é visto como um entrave para a categoria de renda fixa.
Em relação à gestão ativa de ETFs, é o modelo que mais cresce nos EUA, mas ainda é proibido no Brasil.
Esse modelo é visto como “o melhor dois mundos”.
Nos ETFs passivos, a carteira segue regras previamente definidas por um índice de mercado. Já nos ETFs ativos, a composição é decidida por uma equipe de gestão, que busca superar um referencial, mas mantém o custo menor da administração do fundo.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já está atuando no estudo e na viabilidade da liberação dos fundos ativos. Atualmente, recibos de ações (BDRs) de ETFs ativos estrangeiros já são negociados na bolsa brasileira.
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Fonte: Seu Dinheiro