Os 100 anos de Tom Jobim
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Entre o chope em Ipanema, a criação da bossa nova, o telefonema de Frank Sinatra e a invenção permanente, Tom Jobim completaria um século em janeiro
No fim de 1966, um garçom do bar Veloso, na esquina das ruas Prudente de Moraes e Montenegro, no coração de Ipanema, interrompeu a conversa de uma mesa para avisar Tom Jobim de que havia “um gringo” ao telefone. Jobim deixou o chope — dez copos por dia, nas contas de Arlindo Costa de Faria, que o serviu naqueles anos. Foi atender. Não acreditou quando do outro lado da linha a voz dizia que era Frank Sinatra. O cantor lhe perguntava se ele toparia gravar um disco.
Depois de instantes de incredulidade, acreditou que não podia ser uma pegadinha. Ele estava no radar de vários músicos do mundo, desde que a bossa nova tinha ganho espaço no início dos anos 1960. “Perfeitamente, é uma ordem”, respondeu o compositor, que embarcou para Miami, semanas depois, segundo o relato que Carlos Calado publicou na Folha de S. Paulo em 2007 , apoiado na biografia de Sérgio Cabral. Era mais um capítulo de sucesso em uma trajetória havia muito tempo internacional.
O sucesso veio antes. E por acaso. Jobim, que completaria 100 anos em 25 de janeiro do ano que vem e cujo centenário será celebrado por um punhado de eventos pelo Brasil e no exterior, fora apresentado a Vinicius de Moraes dez anos antes, também numa mesa de bar. Em 1956, na Casa Villarino, no centro do Rio, o jornalista Lúcio Rangel levou ao poeta e diplomata um jovem que ele achava capaz de musicar a peça Orfeu da Conceição . Era um jovem um pianista de 29 anos que tocava em boates de Copacabana para pagar o aluguel. Nas tardes daquela década, contou o jornalista Ivan Lessa, ele e Tom tomavam chope, jogavam porrinha e ouviam os discos de jazz que Lessa comprava na loja Murray.
Em 1958, a parceria de Tom e Vinicius chegou ao disco em Chega de Saudade. Vinicius penou para escrever a letra. “Nunca levei uma surra assim”, admitiu numa crônica de 1965. Quando terminou de escrever, a então mulher, Lila, zombou da rima de peixinhos com beijinhos. Elizeth Cardoso gravou a canção primeiro, em abril de 1958, acompanhada por um violonista baiano ainda desconhecido, João Gilberto, que tentou ensiná-la a cantar do jeito dele.
Ruy Castro, autor do clássico Chega de Saudade (Cia. das Letras, 1990), descreveu à BBC o impacto daquela gravação precursora como o equivalente a ver Charlton Heston descendo do Monte Sinai com os Dez Mandamentos sob o braço. As sessões não foram fáceis. O perfeccionismo de João Gilberto irritou muitos. O cantor baiano exigiu dois microfones, parou a orquestra a cada erro e, segundo Castro, sobrou até para o produtor musical: “Você é brasileiro, Tom, você é preguiçoso!”.
A lenda maior pertence à música brasileira mais gravada no exterior. No bar Veloso (rebatizado de Garota de Ipanema posteriormente) Jobim e Vinicius viram passar Helô Pinheiro, que ia ao bar comprar cigarros para os pais, registra Sérgio Cabral. A cena dos dois rabiscando Garota de Ipanema num guardanapo, Ruy Castro desmontou em Ela é carioca (Cia das Letras, 1999): “De uma vez por todas, Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes não compuseram Garota de Ipanema no bar Veloso. Sim, foi dali, com olhos compridos, que eles viram passar a jovem Heloísa Eneida, depois Helô Pinheiro, ‘a caminho do mar’. Mas só isso.”
Segundo Castro, Tom fez a melodia ao piano, na Rua Barão da Torre, e Vinicius escreveu a letra semanas depois, em Petrópolis. No bar, os dois só viam a moça passar; “tinham mais o que fazer nos bares além de trabalhar”. O Veloso, que virou Garota de Ipanema, ficou com o crédito e com os turistas.
A bossa nova e o sucesso de Garota de Ipanema levaram Tom a receber o telefonema de Frank Sinatra. O disco dos dois foi gravado em Hollywood entre 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 1967. Jobim, habituado a controlar as sessões, engoliu a aversão do cantor a ensaios. Ganhou uma queda de braço: Sinatra queria Nelson Riddle nos arranjos, e o brasileiro convenceu Sinatra a chamar Claus Ogerman. Perdeu outra: das dez faixas, três ficaram para compositores americanos.
Bem-humorado, Sinatra não escondeu a dificuldade que enfrentou para se adaptar ao estilo da bossa nova. “Não canto tão suave desde que tive laringite”, brincou Sinatra, ao interpretar a difícil melodia de Dindi . “Porra, que beleza de canção”, emendou. No jantar de encerramento, Jobim comentou que nas fotos o cantor parecia franzino, diferente do que ele era. Sinatra mandou que sentisse os músculos: praticava caratê todas as manhãs.
A capa trazia os dois nomes completos – Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim . e Sérgio Cabral lembra que era o primeiro disco do cantor dedicado a um único compositor. Eleito o melhor do ano pela crítica norte-americana, o disco de Sinatra e Jobim chegou ao segundo lugar entre os mais vendidos nos EUA, perdendo apenas para Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band , dos Beatles.
A parceria entre os dois não terminou no primeiro disco. No fim de 1968, Jobim voltou aos Estados Unidos para um segundo disco, mas se irritou com os adiamentos sucessivos de ensaios e gravações, que só aconteceram em fevereiro de 1969. O disco planejado chegou às lojas em 1971, como Sinatra & Company , com sete canções dele; outras gravadas ficaram de fora.
Circula entre as curiosidades sobre Jobim uma anedota de 1964: Gerry Mulligan o teria convidado para visitar Cole Porter, moribundo, no hospital Mount Sinai, em Nova York, e Jobim teria mandado parar o táxi para se embebedar, porque “com mito não se brinca”. Trinta anos depois, ele morreria no mesmo hospital.
Ivan Lessa, que se mudara para Londres e trabalhava na BBC, gravou um depoimento pouco depois da morte do amigo. Comparou a perda à de “os dois irmãos Gershwin, mais o Django Reinhardt, Bill Evans, a orquestra do Tommy Dorsey e um crooner” no mesmo dia. Lembrou o Tom que passava a conversa atrás da história de como a couve-flor viera parar no Brasil. E mediu a diferença entre os dois astros de 1967: “O Sinatra precisava colocar aqueles 16 capangas para impedir que as pessoas se aproximassem. E o Tom estava lá dando sopa — qualquer chato que chegasse podia chatear o Tom. E ele tirava de letra. É mais um vazio que ele deixa — um lugar na mesa também.”
A mesa mais frequenta foi a da Plataforma, churrascaria do Leblon de Alberico Campana. Ali Jobim mantinha rotina: chegava por volta das 13h, sentava-se junto à entrada, dava entrevistas, recebia recados telefônicos e tomava alguns chopes. A casa atribui a ele o nome, nos anos 1980, do prato chamado de frango atropelado, o galeto desossado e aberto na brasa. Em 22 de novembro de 1994, disse à repórter Marisa Adán Gil que deixara “aquele uísque e aquela cerveja” e agora tomava só um “copinho de vinho no almoço”.
Em 8 de dezembro, em Nova York, Tom Jobim morreu. O amigo e jornalista Jânio de Freitas escreveu na Folha de S. Paulo que “a disposição do Tom para o papo carioca, para o riso, para o chope servido como se fora o sumo íntimo de uma deusa, compunha uma aparência enganadora. Tão enganadora, que durou até sua primeira parada cardíaca às 5h da manhã de ontem em Nova York. Sob a aparência, Tom guardava três inimigos silenciosos: obstrução de coronária, obstrução da carótida e câncer incipiente na bexiga.”
Em 9 de dezembro de 1994, o caminhão dos bombeiros que levava o caixão de Jobim passou diante da Plataforma. O maître Raimundo Nonato, os garçons e os clientes saíram à calçada; a maioria chorou. Depois do enterro, amigos como os atores José Lewgoy e Hugo Carvana e o escritor Eric Nepomuceno sentaram-se na mesa ao lado da que era dele, a primeira à direita de quem entra. Nepomuceno disse que pediria a Campana uma placa de bronze sobre a mesa do Tom, como a que marca o lugar de Hemingway no Floridita, em Havana. Campana disse: “Preferia perder a Plataforma a perder o Tom. A Plataforma é apenas o meu sustento. O Tom é muito mais”. Levantou-se e foi embora. Nos treze anos em que o garçom Severino de Lucena o serviu, quem procurava Tom Jobim ligava para a Plataforma e deixava recado na mesa do Tom.
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Fonte: Carta Capital