Por Washington AraújoBrasil 247

A quinta-feira chegou chegando. Antes de o país terminar o café, a Polícia Federal ampliou o perímetro do Banco Master e levou a crise para dentro das instituições encarregadas de impedir exatamente esse tipo de desastre. Gabriel Galípolo, Roberto Campos Neto, André Esteves e Ailton de Aquino foram intimados como testemunhas. A investigação quer saber como o Banco Central fiscalizou o Master enquanto dois de seus servidores são investigados por possível favorecimento a Daniel Vorcaro. A pergunta agora atravessa o Estado: quem sabia, quem agiu, quem facilitou e quem deixou correr?

Aos 10 ou 11 anos aprendemos que dízima periódica é aquele decimal em que determinados algarismos continuam se repetindo depois da vírgula. Era uma extravagância divertida da matemática: 0,3333…, e o três seguia mesmo depois de encerrada a aula. O Master deu ao conceito uma versão brasileira. Repetem-se cifras, comissões, favores, contratos, intermediários e suspeitas. Vorcaro foi preso, o banco foi liquidado, mas a sequência prosseguiu. Mudaram os algarismos; permaneceu a repetição.

Dízimo costuma ser 10%. Alguns pastores transformaram essa conta em jatinhos e fortuna. No Master, a matemática ficou ainda mais sofisticada: dízima periódica, comissões recorrentes e uma devoção quase religiosa ao dinheiro dos outros.

Fiscalização capturada

O chamado “jogo duplo” dentro do Banco Central é um dos capítulos mais graves porque alcança quem estava justamente encarregado de vigiar o banco. Bellini Santana e Paulo Sérgio de Souza mantinham contato com Vorcaro durante a fiscalização do Master. A PF investiga suspeitas de repasse de informações privilegiadas, inclusive movimentações sob análise e nomes de investigadores. Os dois foram afastados.

A investigação procura também saber se informação privilegiada teve preço. Há registros relacionados a um projeto que teria remuneração mensal de R$ 500 mil a Bellini. Paulo Sérgio vendeu um sítio por quase R$ 5 milhões a pessoa apontada na investigação como possível laranja ligado a Vorcaro. Não estamos mais falando apenas de eventual fiscalização frouxa. A pergunta se tornou muito mais pesada: quem fiscalizava quem — e a serviço de quais interesses?

Daniel Vorcaro afirmou, em proposta de delação, que ACM Neto e Antônio Rueda atuavam para levar recursos de institutos de previdência ao Master mediante comissões de 10%. Segundo seu relato, as operações poderiam alcançar R$ 2 bilhões, criando uma obrigação de até R$ 200 milhões. Vorcaro não informou quanto teria sido efetivamente pago. ACM Neto e Rueda negam irregularidades. Mas uma cifra dessa dimensão exige rastreamento até o último centavo: origem, caminho, destinatário e eventual contrapartida.

Dinheiro recorrente

A Polícia Federal apura suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a licitações e contratos. Nesta manhã, a Operação Make Up abriu outro flanco sobre recursos públicos e o filme Dark Horse. Foram cumpridos 49 mandados contra 29 pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão o deputado Mário Frias e Karina Gama. A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino.

Flávio Bolsonaro, é importante registrar, não aparece entre os alvos divulgados da operação desta manhã. Mas o financiamento de Dark Horse já integra outra frente de investigação relacionada aos recursos solicitados a Vorcaro para o filme. O roteiro político pode até tentar mudar de gênero; os investigadores continuam seguindo o dinheiro.

O escândalo ultrapassou há muito as portas do Master. Entrou no Banco Central, atravessou fundos, contratos públicos, gabinetes políticos e chegou ao Supremo Tribunal Federal. Cada documento novo reduz o espaço disponível para a explicação dos “casos isolados”. A esta altura, tanta coincidência começa a exigir uma engenharia própria para continuar sendo chamada de coincidência.

E às 11 horas entra Alexandre de Moraes. O ministro anunciou pronunciamento público em plena crise do Supremo e deverá enfrentar, entre outras questões, as mensagens e supostas ligações com Daniel Vorcaro mencionadas em relatório da Polícia Federal. Já não basta uma nota escrita para consumo rápido. O país espera saber o que houve, qual era a natureza dessas relações e por que o banqueiro preso aparece tantas vezes perto de personagens situados no centro do poder.

Na matemática, a dízima periódica continua depois da vírgula porque nasceu para repetir. No Master, cada casa decimal traz mais dinheiro, mais influência, mais suspeitas e alguém convocado a explicar sua proximidade com Vorcaro. A diferença é que, nessa conta brasileira, ninguém ainda conseguiu descobrir onde termina o número. E sabemos também que nunca descobriremos. Existem segredos que atravessam anos, décadas e até séculos. 

Fonte: Brasil 247

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