ONU alerta para El Niño sem precedentes e já indica quando será seu pico

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Por Laís Gouveia — Brasil 247

247 – A Organização das Nações Unidas (ONU) emitiu um alerta sobre a possibilidade de o El Niño alcançar uma intensidade sem precedentes no final de 2026, com consequências climáticas e humanitárias que poderão se prolongar por 2027. As projeções indicam que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico tropical poderá atingir níveis históricos entre novembro deste ano e janeiro do próximo, ampliando o risco de secas, inundações e ondas de calor em diferentes partes do mundo.

As informações são de representantes da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), durante uma coletiva de imprensa realizada na quarta-feira (21), em Genebra, na Suíça. Segundo a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, o fenômeno deverá atingir sua intensidade máxima nos últimos meses de 2026, mas seus efeitos poderão permanecer por um período muito mais longo.

A avaliação da organização é que os eventos extremos observados atualmente tendem a “se multiplicar e se espalhar” à medida que o El Niño se intensificar. O alerta considera tanto os efeitos diretos das alterações nos padrões de chuva e temperatura quanto as consequências para populações que já enfrentam dificuldades relacionadas à segurança alimentar, ao abastecimento de água e à ocorrência de desastres naturais.

De acordo com a mais recente Atualização Global do Clima Sazonal da OMM, a temperatura da superfície do mar no Pacífico tropical poderá ficar até 3,8°C acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Caso a projeção se confirme, o aquecimento representará um episódio excepcionalmente intenso do fenômeno climático, caracterizado por alterações na circulação atmosférica e na distribuição das chuvas em escala global.

ONU prevê consequências humanitárias de grande escala

O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, apresentou uma avaliação sobre a dimensão dos impactos esperados. Durante a coletiva, ele classificou o fenômeno como “colossal, com uma força destrutiva avassaladora” e advertiu para a possibilidade de “consequências humanitárias de grande escala”.

Entre os principais riscos apontados estão o agravamento de estiagens, a ocorrência de enchentes e a intensificação de temperaturas extremas. Essas condições poderão comprometer a produção agrícola, dificultar o acesso a alimentos e água potável e ampliar a vulnerabilidade de comunidades que dependem diretamente das condições climáticas para sua subsistência.

Fletcher também chamou a atenção para o contexto internacional em que o fenômeno deverá atingir seu auge. Conflitos armados, deslocamentos populacionais, encarecimento de combustíveis, fertilizantes e alimentos, além de restrições ao financiamento da assistência humanitária, já dificultam o atendimento de milhões de pessoas.

A preocupação das Nações Unidas vai além das regiões diretamente afetadas pelas mudanças climáticas. A combinação de perdas agrícolas, interrupções nas cadeias de abastecimento e aumento das necessidades humanitárias poderá produzir repercussões econômicas internacionais, além de intensificar pressões migratórias e instabilidades em áreas marcadas por conflitos.

Diante desse cenário, a ONU defende a ampliação das medidas preventivas e o uso de tecnologias de monitoramento climático para reduzir a exposição das populações mais vulneráveis. Fletcher destacou a importância dos avanços tecnológicos registrados desde o último episódio de El Niño para aperfeiçoar a capacidade de antecipação e resposta a emergências.

O Ocha já destinou mais de US$ 50 milhões do Fundo Central de Resposta a Emergências para apoiar ações em 11 países considerados particularmente expostos aos efeitos do fenômeno. Entre os beneficiados estão Chade, El Salvador, Etiópia, Somália e Sudão do Sul.

Celeste Saulo ressaltou que a ocorrência de condições meteorológicas extremas não precisa resultar necessariamente em tragédias humanitárias. Para a secretária-geral da OMM, informações científicas confiáveis e sistemas de alerta antecipado são fundamentais para orientar governos e organizações internacionais na preparação de operações emergenciais e na proteção das comunidades ameaçadas.

Américas enfrentam riscos de secas e chuvas intensas

As projeções da ONU indicam que os efeitos do El Niño deverão variar consideravelmente entre as regiões do continente americano. Enquanto algumas áreas poderão registrar volumes elevados de precipitação, outras enfrentarão redução das chuvas e maior risco de estiagens prolongadas.

No noroeste dos Estados Unidos e no sudoeste da América do Sul, os modelos climáticos apontam possibilidade de aumento das precipitações. Também há previsão de chuvas acima dos padrões habituais em outras áreas da América do Norte e na porção norte do Caribe.

Em contrapartida, partes da América Central, do sul do Caribe e da Amazônia poderão sofrer com condições mais secas. A alteração do regime de chuvas nessas regiões representa uma preocupação especial devido à dependência dos recursos hídricos para abastecimento, agricultura e manutenção dos ecossistemas.

Amazônia já enfrenta estiagem e emergência em dezenas de municípios

No Brasil, o alerta internacional ocorre em meio a uma situação preocupante no Amazonas, onde a estiagem e as queimadas já provocam impactos sobre a população. Segundo boletim divulgado pelo governo estadual na terça-feira (20), pelo menos 41 municípios estão em situação de emergência, outros 16 permanecem em alerta e cinco estão classificados em estado de atenção.

O levantamento aponta que 102.445 famílias já foram atingidas pelos efeitos da estiagem no estado. A redução da disponibilidade de água compromete especialmente comunidades que dependem dos rios para deslocamento, transporte de mercadorias e acesso a serviços essenciais.

Além das dificuldades provocadas pela seca, as queimadas vêm agravando as condições ambientais na região. Em Manaus, a fumaça dos incêndios florestais tem prejudicado a qualidade do ar e elevado a concentração de partículas poluentes.

No domingo (18), às 9h30, a concentração de partículas finas na capital amazonense alcançou 94,4 microgramas por metro cúbico, patamar considerado “muito ruim” pela Defesa Civil municipal. A exposição a esse tipo de poluente representa risco especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.

Diante do agravamento da situação, o governo federal informou que intensificará as operações de combate aos incêndios florestais e as ações destinadas a enfrentar os efeitos da estiagem no Amazonas.

A possibilidade de um El Niño excepcionalmente intenso amplia a preocupação com a evolução das condições climáticas nos próximos meses, sobretudo em regiões onde a escassez de chuvas, a degradação ambiental e a vulnerabilidade social já dificultam a resposta das autoridades.

Fonte: Brasil 247

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