Onde Flávio Bolsonaro e Lula têm aliados capazes de vencer eleição de governador?

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Por Juliana Aparecida Sousa CarvalhoJOTA

A disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os dois candidatos mais bem posicionados na disputa pela Presidência,  não se limita à corrida nacional. Nos estados, os candidatos também construíram redes de alianças para governador.

Em busca de seu quarto mandato, Lula aparece associado a 26 candidatos aos governos estaduais, contra 25 palanques de Flávio. A diferença, porém, está menos no número de alianças do que na forma como elas são construídas. O atual presidente chega à campanha com 12 candidaturas do próprio PT e 14 de aliados de partidos como PSD, MDB, PSB e PDT, siglas que integram ou integraram a base de apoio do governo federal e que tiveram representantes em ministérios.

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Flávio, por sua vez, concentra sua rede em candidaturas de partidos de direita e em nomes diretamente identificados com o bolsonarismo: 13 candidatos são do PL, seis de outros partidos com apoio recíproco como o PP e o Republicanos, e seis situações de aliança parcial, indefinida ou sem apoio efetivo do candidato ao governo ao presidenciável [1] .

É preciso ressaltar que a existência formal de uma aliança na qual um partido apoia um candidato a governador não significa necessariamente que o candidato ao governo esteja disposto a dar, reciprocamente,  o apoio ao mesmo partido na eleição presidencial.

A Bahia é um bom exemplo. O PL participa da coligação de ACM Neto, mas o candidato ao governo declara apoio pessoal a Ronaldo Caiado, do PSD, para a Presidência. Situação semelhante ocorre no Ceará, onde o PL apoia Ciro Gomes, enquanto o candidato ao governo mantém distância de manifestações mais explícitas em favor de Flávio.

Da quantidade à força dos palanques

Uma segunda dimensão a ser analisada nas disputas estaduais diz respeito à competitividade eleitoral dos candidatos aos governos [2] .

Fonte: TSE (2022) e pesquisas de opinião que divulgaram intenção de voto para os cargos de governador (2026)

Embora Lula tenha uma rede mais ampla de candidatos associados à sua candidatura, os palanques de Flávio Bolsonaro aparecem com maior frequência nas primeiras posições das pesquisas disponíveis. A partir das pesquisas estaduais disponíveis, baseadas em dados coletados ao longo da campanha, 12 candidatos associados a Flávio apareciam na liderança [3] , contra seis candidatos ligados a Lula.

Entre os palanques de Flávio que aparecem na primeira colocação estão JHC, em Alagoas; Dr. Furlan, no Amapá; Celina Leão, no Distrito Federal; Wellington Fagundes, em Mato Grosso; Eduardo Riedel, em Mato Grosso do Sul; Sérgio Moro, no Paraná; Jorginho Mello, em Santa Catarina; Marcos Rogério, em Rondônia; Zucco, no Rio Grande do Sul; e Tarcísio de Freitas, em São Paulo.

Além disso, aparecem também ACM Neto, na Bahia, e Ciro Gomes, no Ceará. Entretanto, como mencionado anteriormente, ambos os candidatos não declararam apoio ao candidato do PL, de modo que é preciso levar em conta que, a despeito dos partidos serem alinhados, os candidatos não são. Do lado de Lula, lideram as pesquisas os candidatos associados ao presidente em seis estados: Amazonas, Pará, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro e Sergipe.

Duas ressalvas são importantes. A primeira delas é que, em alguns estados, há uma série maior de levantamentos recentes, enquanto em outros, o número de pesquisas disponíveis é pequeno. Os resultados, portanto, são um retrato da disputa no momento da coleta, e não uma previsão de outubro.

Além disso, o levantamento considera como líder o candidato que aparece em primeiro lugar na pesquisa disponível e os demais são classificados de acordo com sua distância em relação ao primeiro colocado.

Um palanque competitivo em São Paulo, por exemplo, representa um eleitorado muito maior do que um palanque competitivo em um estado de menor população. Isso não significa, contudo, que Flávio tenha vantagem equivalente na eleição presidencial. Primeiro, porque um candidato pode ser competitivo na eleição para governador sem ser um cabo eleitoral relevante para a disputa nacional. Segundo, porque parte dos palanques de Flávio envolve alianças partidárias ou candidaturas cujo apoio presidencial é parcial ou indefinido.

O peso eleitoral de um estado, portanto, pode não resolver sozinho a questão da transferência de votos: é preciso saber também quão efetivamente alinhado está o candidato ao governo ao presidenciável.

Uma nova geografia em relação a 2022?

A distribuição dos palanques de 2026 também pode ser comparada com a geografia da eleição presidencial anterior. No primeiro turno de 2022, Jair Bolsonaro (PL) foi o candidato mais votado em 12 estados e no Distrito Federal, enquanto Lula foi o mais votado em 14 estados.

Lula venceu nos nove estados do Nordeste, em quatro dos sete estados do Norte e em Minas Gerais. Bolsonaro, por sua vez, foi o mais votado nos três estados restantes do Norte, em três dos quatro estados do Sudeste, em todos os estados do Sul, nos três estados do Centro-Oeste e no Distrito Federal.

Fonte: TSE (2022) e pesquisas de opinião que divulgaram intenção de voto para os cargos de governador (2026)

Os dados de 2026 [4] mostram que os palanques estaduais dos dois grupos não reproduzem simplesmente essa divisão territorial. Há candidatos associados a Flávio em estados que deram a maior votação a Lula em 2022, como Alagoas, Amapá, Bahia e Ceará, enquanto Lula mantém palanques competitivos em estados que haviam dado a vitória a Bolsonaro, como o Rio de Janeiro. A disputa estadual, portanto, oferece aos dois presidenciáveis a possibilidade de avançar sobre novos territórios de maneira competitiva.

Esse movimento é especialmente importante no caso de Flávio. Parte de seus palanques mais competitivos está justamente em estados nos quais Lula foi o candidato presidencial mais votado em 2022. Alagoas, Amapá, Bahia e Ceará, por exemplo, aparecem entre os estados em que candidatos associados a Flávio lideram atualmente nas pesquisas para governador.

Isso não significa que esses candidatos necessariamente transfiram seus votos para o presidenciável, uma vez que, como vimos, Bahia e Ceará são exatamente os dois estados nos quais os candidatos se recusaram a apoiar Flávio Bolsonaro, a despeito dos partidos serem aliados.

Entretanto, os dados parecem sugerir que a rede estadual de Flávio não se limita ao mapa eleitoral de  Jair Bolsonaro em 2022. Em 2022, a associação entre Bolsonaro e seus candidatos estaduais estava mais diretamente vinculada à própria força eleitoral do então presidente. Em 2026, Flávio aparece associado também a candidatos cuja principal identidade eleitoral é estadual e que, em alguns casos, não assumem apoio explícito ao presidenciável.

Os dados coletados sobre a relação dos principais candidatos à Presidência com os candidatos aos governos estaduais mostram duas redes com características distintas. Lula tem candidatos ao governo em quase toda a federação e mantém uma rede mais distribuída entre diferentes partidos. Flávio, embora tenha um número ligeiramente menor de palanques, está em maior proporção ao lado de candidatos que hoje aparecem nas primeiras posições das disputas estaduais.

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A comparação com 2022 acrescenta uma terceira dimensão ao demonstrar que essas redes não são simplesmente a reprodução da divisão territorial entre Lula e Bolsonaro na eleição presidencial anterior.

Isso nos leva a questionar: o que significa, afinal, ter um palanque estadual em 2026? Há estados em que o candidato ao governo pertence ao partido do presidenciável e faz campanha explicitamente por ele. Em outros, a aliança envolve partidos diferentes, mas há apoio recíproco entre os candidatos.

E há ainda situações mais ambíguas, em que o partido está na aliança estadual, mas o candidato ao governo apoia outro presidenciável, ou prefere não declarar apoio. Na eleição de 2026, portanto, ter um palanque pode não significar necessariamente ter um aliado na disputa presidencial.

[1] Classificamos os palanques em quatro categorias de acordo com o posicionamento partidário e as declarações públicas de apoio efetuadas pelos candidatos: partido do presidenciável, quando o candidato ao governo pertence ao PT (Lula) ou ao PL (Flávio Bolsonaro); aliado, quando pertence a outro partido e há apoio entre o candidato presidencial e o candidato ao governo; aliado desalinhado, quando pertence a outro partido e o apoio não é recíproco ou permanece indefinido; e sem palanque, quando não há candidato estadual identificado como associado ao presidenciável naquele estado.

[2] Estimativas de 19/08/2026, retiradas do agregador:  https://planopolitico.com.br/agregador/governadores/

[3] Entre os candidatos associados a Flávio Bolsonaro que lideram as pesquisas, estão JHC (AL), com 45,1% e vantagem de 5 p.p. sobre Renan Filho; Dr. Furlan (AP), com 65,7% e 43 p.p. sobre Clécio Luís; ACM Neto (BA), com 46,1% e 7 p.p. sobre Jerônimo Rodrigues; Ciro Gomes (CE), com 47,4% e 10 p.p. sobre Elmano de Freitas; Celina Leão (DF), com 32,9%; Wellington Fagundes (MT), com 31,3%; Eduardo Riedel (MS), com 45,8% e 24 p.p. sobre Fábio Trad; Sérgio Moro (PR), com 40,7% e 19 p.p. sobre Requião Filho; Zucco (RS), com 29,2% e 3 p.p. sobre Juliana Brizola; Marcos Rogério (RO), com 34,9%; Jorginho Mello (SC), com 54,0%; e Tarcísio de Freitas (SP), com 49,4% e 17 p.p. sobre Fernando Haddad. Entre os candidatos associados a Lula, lideram Omar Aziz (AM), com 29,2%; Hana Ghassan (PA), com 30,9% e 2 p.p. sobre Daniel Santos; Lucas Ribeiro (PB), com 33,8%; Eduardo Paes (RJ), com 40,2% e 29 p.p. sobre Douglas Ruas; Fábio Mitidieri (SE), com 40,1%; e Rafael Fonteles (PI), com 58,5% e 39 p.p. sobre Joel Rodrigues. A base utilizada, com estimativas disponíveis em 19 de agosto de 2026, não registra o segundo colocado nos demais estados mencionados.

[4] A comparação não representa uma mudança de intenção de voto do mesmo eleitorado entre 2022 e 2026. Os valores de 2022 correspondem à votação presidencial no primeiro turno, enquanto os valores de 2026 correspondem à intenção de voto nas disputas para governador. A figura serve, portanto, para contrastar a força eleitoral presidencial observada em 2022 com a posição atual dos candidatos aos governos associados a cada presidenciável.

Fonte: JOTA

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