Por Ana Luiza BasilioCarta Capital

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Mostra em São Paulo reúne mais de cem fotografias para homenagear o trabalho do Padre Júlio Lancellotti com a população que vive nas ruas

“Eu gosto bastante dessa”, diz Júlio Lancellotti ao apontar para uma imagem em que está de pé, diante de um homem vulnerável em uma calçada de São Paulo, com a mão em sua testa. “Ele não estava bem, eu lembro… mas o que mais me marcou foi ele ter dito que só a mãe dele colocava a mão em sua face.” O registro – de um dos incontáveis momentos em que o padre se fez presente nas ruas – acabou eternizado pelas lentes do fotógrafo Daniel Camargo Kfouri. A tela faz parte da mostra A Alfabetização do Olhar – Um Ato de Amor e Responsabilidade, que expõe a partir deste mês mais de cem fotos de Lancellotti, além de textos, instalações e vídeos, na Lacerdine Galeria de Arte, na região central de São Paulo.

Sob curadoria de Geraldo Lacerdine, artista plástico e fundador da galeria, a mostra homenageia os quase 50 anos de Lancellotti dedicados ao serviço social, especialmente àqueles vulneráveis, em situação de rua. Além de Kfouri, os fotógrafos Fernando Jensen, Tr3ze e Victor Angelo Caldini também apresentam seus trabalhos. Cerca de 50 prêmios e reconhecimentos recebidos pelo pároco ao longo de sua trajetória também estarão à disposição do público. “A ideia surgiu de uma declaração do próprio padre Júlio, em que ele diz que é preciso alfabetizar o olhar”, explica Lacerdine. “Aprender a ver no olho do outro aquilo que ele mais precisa, e vice-versa.” “Quando passamos pelas pessoas em situação de rua, a maioria de nós não olha, desvia o olhar. É uma população que foi privada de olhar e ser olhada. É de fato nos reeducar para perceber que nenhum ser humano merece ser ignorado na sua existência, rejeitado no seu processo vital”, completa o curador.

A percepção também calibrou o olhar do fotógrafo Tr3ze, que há dois anos largou a área da engenharia e passou a acompanhar Lancellotti em busca de valor social à sua atuação. “O padre Júlio nos mostra, cotidianamente, a partir de seu trabalho, como simplificamos, de maneira cruel, a questão das ruas. Ele não entrega somente uma ‘quentinha’, ele convive com essas pessoas, escuta, abraça, aperta a mão.”

“É como um atendimento de emergência, você vê uma hemorragia todo dia, mas nem sempre é capaz de estancar”, lamenta o religioso

A homenagem encontra Lancellotti ainda aguerrido diante de uma dura realidade que se impõe: nos últimos anos, a população de rua segue crescendo de forma contínua e expressiva na cidade de São Paulo. A capital tem mais de 100 mil cidadãos vivendo nas ruas, segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua) da UFMG, baseados no CadÚnico. O número representa um aumento de 2.528%, se comparado a 2012, quando se contabilizavam 3.842 nessa situação na capital. Os censos físicos realizados pela prefeitura de São Paulo, que contam as pessoas diretamente nas ruas e abrigos, também confirmam a tendência de alta: agravado pela pandemia, o censo de 2021 mapeou 31.884 moradores em situação de rua, um crescimento de 31% se comparado ao de 2019, que contabilizou 24.344 pessoas.

Nesse contexto, o padre dedica-se diariamente a entregar alimentos e itens de higiene no entorno da Igreja São Miguel Arcanjo, localizada no bairro da Mooca, onde atua como pároco desde 1986. Os cafés da manhã solidários chegam a alimentar 300 bocas todos os dias. Recentemente, também inaugurou, na mesma região, uma academia de ginástica gratuita e exclusiva para moradores em situação de rua, numa parceria que envolveu o Sesi, a Fiesp e a Associação Beneficente Nossa Senhora das Mercês. “Essas ações resolvem tudo? Não. Mas dão um sentido, alguma direção”, afirma Lancellotti, que dimensiona o desafio de tentar trazer dignidade aos seres humanos condenados a viver à margem da sociedade. “É como um atendimento de emergência”, ilustra. “Você vê uma hemorragia todos os dias, mas nem sempre é capaz de estancar.” A análise de Lancellotti é que a fratura social exposta pelos cidadãos em situação de rua revela as imposições de um projeto político neoliberal em curso, bem como suas próprias contradições. “Estamos diante de um sistema que atua a partir da lógica do descarte permanente e que situa a mobilidade social a partir da competitividade, da meritocracia e do individualismo.” O contrassenso, avalia o pároco, mora no fato de que o desenvolvimento econômico e tecnológico, em franca ascensão, se mostra incapaz de resolver uma questão basilar para a vida em comunhão. “A sociedade se considera tão capaz, tão rápida, mas não dispõe de tecnologias para reparar a dor humana”, avalia, ao classificar as tentativas de resposta por parte do Poder Público como “frágeis e autoritárias”. Justamente por isso, Lancellotti se reconhece cansado. O padre tem sido alvo de críticas e acusações, sobretudo, de membros da extrema-direita, que, a seu ver, trazem um elemento novo ao tabuleiro da disputa política e social: a criminalização. “Eles têm uma boa pontaria. Eu estou ferido. Seria impossível encampar essa luta e não se ver assim”, assume. “Tenho a clareza de que quem está do lado dos rejeitados também vai ser rejeitado. Não posso ter a ingenuidade de achar que não vou causar incômodo.”

“Tenho a clareza de que quem está do lado dos rejeitados também vai ser rejeitado. Não posso ter a ingenuidade de achar que não vou causar incômodo”

Incômodo, inclusive, dentro da própria instituição: o pároco, que é coordenador da Pastoral Povo da Rua, está há oito meses sem fazer publicações ou transmissões ao vivo nas redes sociais depois de uma imposição feita pela arquidiocese de São Paulo, por meio da figura do cardeal Dom Odilo Pedro Scherer. O processo, segundo a arquidiocese, deu-se no contexto de apurações internas para analisar denúncias contra Lancellotti.

Ainda assim, aos 77 anos, quando poderia estar pensando em parar, afirma que desistir não é uma opção. “Esta luta não começa nem acaba em mim. Outro dia me perguntaram se eu estava preparando um sucessor… eu não fundei uma dinastia. Somos muitos os envolvidos na luta das mulheres, do povo negro, dos quilombolas, dos indígenas, dos grupos LGBTs. O que posso dizer é que não luto para vencer. Eu sei que vou perder. Eu luto para ser fiel a Deus”, conclui. •

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Olhos nos olhos’


Ana Luiza Basilio

Repórter do site de CartaCapital

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Fonte: Carta Capital

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