Ofuscado por crises no STF, Lula tenta retomar as rédeas da agenda com medidas populares

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Por Fabio MuraKawa — JOTA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao primeiro turno da eleição, neste domingo (4/10), em um cenário de disputa mais apertada do que o imaginado pelo campo da esquerda antes do início oficial da campanha. Ele mantém vantagem numérica sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no consenso das pesquisas, mas aparece tecnicamente empatado com o rival nas projeções de segundo turno. Agora, a preocupação é sair das urnas com uma diferença suficiente para mantê-lo em posição de favoritismo nas próximas três semanas.

Com diferentes institutos apontando direções distintas, o quadro é de uma eleição ainda mais incerta do que a de 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro por apenas 2 milhões de votos. O clima na campanha, que até meados de agosto era de grande otimismo, agora mistura apreensão e esperança.

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Da expectativa de poder trazida pelo resultado das urnas dependerá boa parte da estratégia de Lula para o segundo turno, como a votação do fim da escala 6×1 no Senado. Fontes no governo acreditam que, quanto mais confortável for a diferença em favor de Lula, maior a probabilidade de o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), cumprir a promessa de levar a proposta ao plenário. Se os números forem mais favoráveis a Flávio, por outro lado, a tendência é que não haja sequer o esforço concentrado que havia sido acertado em agosto.

Engolido por crises

No início do período eleitoral, a campanha havia planejado “desmontar Flávio”. A ideia era, além de fazer uma comparação de biografias e exaltar o legado de Lula, explorar os muitos telhados de vidro do adversário. Mas vazamentos relacionando Lulinha a personagens envolvidos nas fraudes do INSS, o crescimento do escândalo do Banco Master e a guerra deflagrada no Supremo Tribunal Federal (STF) atropelaram os planos petistas.

A eleição passou a dividir espaço com uma crise institucional que dominou o noticiário político. Nesse ambiente, a campanha de Lula passou semanas sem conseguir reagir. Para manter distância do ministro Alexandre de Moraes, o presidente cobrou punição genericamente, enquanto Flávio fez do STF sua bandeira, acusando Lula de transformar a Corte em comitê eleitoral.

Lula evitou os principais confrontos e optou por não participar de nenhum dos debates. A campanha justificou a decisão pelo risco de transformá-lo no principal alvo dos adversários, a maioria alinhada à direita. No último e mais importante debate, o da Globo, o petista foi beneficiado por decisões judiciais, seguidas da desistência de Flávio e, em última instância, do cancelamento do programa.

Outros fatores também agravaram o cenário para Lula. A campanha não conseguiu alavancar a popularidade do presidente, que chega ao fim do período com aprovação de cerca de 45%, segundo o agregador de pesquisas do JOTA , ante reprovação de 50%.

Os números ainda deixam Lula em posição competitiva, um favoritismo com margem estreita. Eles refletem a insatisfação do eleitor com o custo de vida e o mal-estar causado pelos escândalos, como o do INSS e o do caso Master, que alimentam o desejo por mudanças e acabam sendo prejudiciais a quem está no cargo tentando se reeleger.

Na outra ponta, Flávio conseguiu construir uma comunicação centrada em segurança, impostos e mudança, além de explorar episódios negativos para o governo e para as instituições.

Bolsa Família, Desenrola e bets

Com o acirramento da disputa, a reação do governo foi acelerar a entrega de medidas com potencial de impacto direto no eleitor. Em setembro, Lula assinou o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 a partir da folha de outubro. Na semana seguinte, anunciou para o final do ano o Desenrola Brasil 3.0, que prevê a compra, pela União, de carteiras de dívidas de até R$ 10 mil, com descontos de pelo menos 90% no processo de aquisição.

Na reta final, a nove dias do primeiro turno, veio também a decisão de proibir as apostas on-line. A medida provisória assinada em 25 de setembro interrompeu a operação, a publicidade e as transações financeiras das bets. A decisão não foi uma unanimidade dentro do próprio governo, que vinha regulamentando o setor. Nos bastidores da campanha, a avaliação é de que a proibição oferece uma mensagem simples e direta, além de forte impacto no noticiário.

Se ainda é incerta a conversão dessas medidas em votos em favor de Lula, a força da caneta presidencial conseguiu ao menos ajudá-lo a retomar as rédeas da pauta da campanha. Com notícias e postagens críticas ou elogiosas, fato é que as políticas de governo voltaram ao centro do debate.

Nossa Senhora

As últimas duas semanas de campanha mostraram uma ligeira reação de Lula. Enquanto suas intenções de voto cresciam a conta-gotas, ele passou a associar Flávio às bets e aos cassinos. Explorou também a polêmica envolvendo uma suposta intenção do adversário de tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O episódio ganhou forte dimensão nas redes sociais, e Flávio mordeu a isca. Ao acusar integrantes da CNBB de disseminar a informação, aumentou o risco de se indispor com os católicos, que ainda são a maior fatia do eleitorado brasileiro.

A “guerra santa” chegou à televisão em um momento em que as duas campanhas tentavam consolidar seus eleitorados e buscar os votos dos candidatos menores. A propaganda de Lula passou a defender a CNBB e a Igreja Católica e, na sequência, exibiu imagens de Flávio defendendo resorts com cassinos.

Abstenção preocupa

A estratégia nesta reta final também mira a abstenção. A campanha concentra esforços entre eleitores mais velhos, especialmente os com mais de 70 anos, grupo no qual historicamente há maior índice de não comparecimento às urnas e que tende a votar mais em Lula. O PT também reforçou a mobilização nas periferias e no interior do Nordeste, com apoio de candidatos locais. Nas últimas semanas de campanha, Lula repetiu a viagem à Bahia, onde já havia passado em agosto, e foi a Pernambuco, seu estado natal.

É nesse ambiente que Lula chega ao domingo. O presidente ainda dispõe da exposição própria de quem ocupa o Palácio do Planalto e conseguiu recolocar na agenda temas de forte apelo popular. Ao mesmo tempo, a campanha encerra o primeiro turno sem ter conseguido transformar a vantagem construída durante boa parte do ano em uma distância confortável — o que mantém em aberto a disputa pelo quarto mandato.

Fonte: JOTA

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