Observadores de pássaros identificam 87 espécies em Goiânia durante maior mobilização mundial de avistamento
Por Raunner Vinícius Soares — Jornal Opção

Goiânia registrou 87 espécies de aves durante o evento Global Big Day, realizado neste sábado, 10. A mobilização faz parte de um esforço mundial de ciência cidadã que incentiva a observação de aves e a produção de dados científicos sobre a biodiversidade.
Ao Jornal Opção, a bióloga e doutora em Ecologia e Evolução pela UFG, Letícia Martins Rabelo, vice-coordenadora do projeto ÓIA Passarinhar, e a analista ambiental do CETAS do IBAMA Goiás, Ana Carolina Dias Oliveira, destacaram a importância da iniciativa para a conservação ambiental e alertaram para os desafios enfrentados pelas aves do Cerrado.

Segundo Letícia, a iniciativa buscou aproximar a população da biodiversidade local por meio da observação de aves e da participação em um dos maiores eventos de ciência cidadã do mundo. “O principal objetivo da passarinhada do IBAMA com o ÓIA Passarinhar durante o Global Big Day foi aproximar as pessoas da biodiversidade local”, disse.
“O Global Big Day é um grande mutirão mundial de observação de aves, organizado pelo Laboratório de Cornell e pelo aplicativo eBird. A proposta é sair, observar quais aves aparecem, quantas são e registrar tudo no eBird”, explicou.

A pesquisadora explicou que a atividade integra ações voltadas à educação ambiental e à conservação da biodiversidade. “Essa ação faz parte da parceria entre o IBAMA e o ÓIA Passarinhar por meio do Programa Caminhos da Biodiversidade, que une ciência cidadã, educação ambiental e conservação do Cerrado. O ÓIA já participa há anos, ensinando a população a usar o aplicativo e mostrando a riqueza de aves da nossa cidade, com núcleos em Goiânia, Anápolis, Alto Paraíso de Goiás, Terra Ronca e Brasília”, apontou.
Na atividade realizada em Goiânia, os participantes registraram 87 espécies de aves, incluindo espécies comuns, aquáticas e migratórias. “Na passarinhada de Goiânia, foram registradas aves mais comuns como o bem-te-vi, anu-branco, fim-fim, beija-flor-tesoura. Outras que sempre aparecem nas passarinhadas são martim-pescador-grande, ferreirinho-relógio, japacanim, além de espécies que dependem de água, como garça-branca-grande, jaçanã, freirinha, tuiuiú, marrecas e também, os migratórios como o maçarico-solitário e pernilongo”, explicou.

A observação reuniu participantes de diferentes idades e níveis de experiência, desde iniciantes até observadores mais frequentes. “Estiveram presentes 26 pessoas, dentre crianças, adultos que nunca observaram aves, integrantes do projeto ÓIA Passarinhar e alguns filiados ao projeto, que já frequentam as passarinhadas, além de servidores do IBAMA. O evento é gratuito e não é necessário conhecimento sobre as aves ou a utilização de super equipamentos. Todos são bem vindos”, disse.
Para Ana Carolina Dias Oliveira, a mobilização internacional demonstra a importância da ciência cidadã para a produção de informações utilizadas em pesquisas e ações de conservação. “O Global Big Day é o maior evento de ciência cidadã do mundo focado em aves. O Global Big Day prova que conservação não se faz só com satélite e laboratório. Se faz com gente no campo, com binóculo na mão. Cada lista enviada é um dado científico que nenhum cientista conseguiria coletar sozinho, e que nos ajuda a proteger as aves do Cerrado aqui e no mundo todo”, apontou.

As especialistas afirmam que a observação de aves também contribui para despertar a consciência ambiental da população. “Só conservamos aquilo que conhecemos. Observar aves é mais do que saber o nome delas. É reparar o que ela come, onde ela vive, como ela canta e como se comporta. Quando a gente percebe isso, se sente parte da natureza e entende que divide a cidade e o Cerrado com muitas outras vidas. Esse olhar mais atento é o que cria a consciência de que todos os seres são importantes”, disse Letícia.
Ao abordar o cenário da conservação das aves no Cerrado, as entrevistadas destacaram o avanço do desmatamento e a perda de habitat como alguns dos principais desafios enfrentados pelas espécies. “O Cerrado tem quase metade das aves do Brasil, mas é o bioma que mais desmatamos. O cenário é preocupante. O maior desafio é a perda de habitat pela expansão agropecuária e pelos incêndios descontrolados, pois isso impacta diretamente as aves, especialmente as espécies que dependem de áreas grandes e conservadas para se alimentar e reproduzir. Sem Cerrado em pé essas espécies não se sustentam na natureza”, apontou Ana.

Letícia também abordou o papel dos criadouros científicos, dos centros de triagem e dos zoológicos na proteção da fauna brasileira. “Todos objetivam a conservação, mas com estratégias diferentes. Os criadores conservacionistas, hoje denominados criadores científicos, podem ser para fins de pesquisa ou para a conservação”, disse.
“Os centros de triagem possibilitam uma nova chance a animais silvestres que necessitam de intervenção humana para sua sobrevivência, uma vez que eles dão entrada vítimas do tráfico de animais silvestres, desmatamento e da ocupação urbana, por exemplo. E os zoológicos já existem baseado em um tripé de educação ambiental, conservação e extensão, sendo um dos empreendimentos mais conhecidos pela sociedade”, completou.
Na avaliação das especialistas, iniciativas como o Global Big Day ajudam a ampliar o conhecimento da população sobre a biodiversidade local e reforçam a importância da participação da sociedade na conservação das aves e dos ambientes naturais do Cerrado.

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Fonte: Jornal Opção