O torcedor já está pagando a conta das bets?

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Por NINJA Esporte ClubeMídia NINJA

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Clubes dizem que o torcedor pagará a conta sem as plataformas de apostas, mas parte dele já paga o preço

Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa

“O torcedor não pode pagar essa conta.”

A frase aparece no fim do manifesto divulgado por clubes e federações de futebol em reação às possíveis mudanças do governo federal no mercado de apostas. O documento, intitulado “O fim do futebol brasileiro”, afirma que uma eventual restrição ao mercado regulado reduziria receitas, ameaçaria contratos e poderia levar clubes à insolvência. A conclusão é categórica: se as apostas não acabarem, mas o mercado regulado for desmontado, “o futebol é quem acaba”.

Existe, porém, outra maneira de olhar para a mesma conta. Se o futebol brasileiro depende hoje de bilhões de reais movimentados pelas empresas de apostas, quem coloca dinheiro nesse mercado? E quanto essa conta já custa ao próprio torcedor?

A resposta passa por uma transformação que aconteceu em poucos anos. As bets deixaram de ser um mercado praticamente invisível no futebol brasileiro para ocupar espaços centrais nas camisas, nas transmissões e na publicidade dos clubes. Ao mesmo tempo, o poder público passou a criar mecanismos específicos para lidar com pessoas que perderam o controle sobre as apostas, contraíram dívidas ou passaram a precisar de atendimento de saúde.

A discussão, portanto, não é apenas sobre quanto o futebol perderia sem as bets. É também sobre quem paga para que esse dinheiro chegue ao futebol.

Primeiro, é preciso separar as coisas.

O governo não está simplesmente propondo acabar com todas as apostas esportivas. A discussão atual envolve principalmente uma possível medida para restringir ou proibir os jogos virtuais de cassino, como os chamados “jogos do Tigrinho”. A legislação atual coloca apostas esportivas e jogos on-line dentro da modalidade de apostas de quota fixa, mas em categorias diferentes.

Segundo o GE, o texto em análise revogaria o dispositivo que permitiu os jogos virtuais, sem proibir as apostas esportivas. A preocupação do governo está relacionada aos efeitos das apostas sobre a renda das famílias e ao crescimento de problemas associados ao jogo.

A Reuters também informou que a proposta em preparação excluiria as apostas esportivas e seus patrocínios, embora a mudança possa atingir fortemente as empresas que atuam nos dois segmentos, já que os cassinos on-line representam parcela significativa de suas receitas.

A distinção é importante porque a reação dos clubes apresenta a discussão de forma mais ampla: para eles, enfraquecer o mercado regulado significa ameaçar uma das principais fontes de financiamento do esporte.

O mercado de apostas esportivas foi legalizado no Brasil em 2018 e ganhou uma regulamentação mais ampla com a Lei 14.790, de 2023. Desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar nacionalmente.

A transformação no futebol foi rápida. As marcas de apostas passaram a ocupar camisas, placas de publicidade, programas esportivos, transmissões e redes sociais. Em 2025, empresas do setor estavam no espaço de patrocinador máster de 18 clubes da Série A. Em 2026, eram 13. A redução, entretanto, não significa desaparecimento: os investimentos passaram a se concentrar em menos equipes, enquanto clubes como Flamengo e Corinthians ampliaram seus contratos.

Segundo estimativas, as bets movimentam mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios apenas para os clubes da Série A. É dinheiro suficiente para alterar planejamentos, financiar estruturas e criar uma dependência que, hoje, aparece na reação dos próprios clubes.

O problema está justamente aí: como uma fonte de receita que se tornou relevante em poucos anos passou a ser apresentada como algo sem o qual o futebol brasileiro poderia acabar? O futebol, afinal, existia antes das bets.

Durante décadas, clubes brasileiros sobreviveram de uma combinação de televisão, bilheteria, patrocínios tradicionais, associação de torcedores, venda de jogadores, produtos licenciados e outras receitas. As apostas não inventaram o financiamento do futebol brasileiro. Elas apenas se tornaram uma nova — e muito poderosa — fonte de dinheiro.

Isso não significa que uma eventual perda das bets não produziria efeitos reais. Produziria, de fato. Clubes que construíram seus orçamentos contando com esses contratos precisariam encontrar substitutos para essas receitas. Mas dependência financeira não é a mesma coisa que necessidade histórica.

É aqui que aparece a segunda metade da conta. O dinheiro que uma empresa de apostas destina ao futebol vem de sua atividade econômica. E essa atividade depende dos apostadores.

A cadeia é simples: o torcedor deposita dinheiro na plataforma, a empresa movimenta esse dinheiro e parte de seus recursos retorna ao esporte na forma de publicidade e patrocínio.

Não significa que cada real pago por uma pessoa termine diretamente no clube. Mas significa que os contratos milionários das bets não existem separados do comportamento dos milhões de brasileiros que apostam.

E é justamente nesse ponto que o discurso sobre o torcedor ganha outro significado. O Ministério da Fazenda informou que, até agosto de 2026, 827.304 pessoas haviam sido impedidas de apostar após renegociarem dívidas. A mesma pasta registrou mais de 1,2 milhão de pedidos de autoexclusão da plataforma centralizada criada pelo governo para bloquear o acesso às casas autorizadas. Em 35,93% desses pedidos, o motivo informado foi “perda de controle sobre o jogo – saúde mental”.

O número não representa 1,2 milhão de pessoas diagnosticadas com transtorno do jogo. Autoexclusão é um mecanismo voluntário e pode ter diferentes razões. Mas ele mostra uma dimensão do problema: existe um contingente expressivo de pessoas que decidiu que continuar tendo acesso às plataformas representava um risco ou um problema.

O próprio Ministério da Saúde passou a tratar as apostas como uma questão de saúde pública. Em julho, lançou uma campanha nacional de prevenção aos danos das apostas on-line e passou a divulgar serviços do SUS destinados a apostadores e familiares afetados pelo uso problemático.

Segundo a pasta, o transtorno do jogo pode provocar prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais. O governo também passou a oferecer atendimento remoto em saúde mental específico para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas.

A existência desses mecanismos não significa que todo apostador esteja em situação problemática. A grande maioria das pessoas que aposta não pode ser automaticamente classificada como dependente.

Mas existe um dado que os clubes não conseguem ignorar: parte da receita que hoje sustenta o futebol está inserida em um mercado que também produz danos concretos para uma parcela dos seus consumidores.

É nesse ponto que a frase do manifesto ganha outra dimensão. Os clubes dizem que, sem as bets, “o torcedor pagará a conta”. Mas alguns torcedores já estão pagando uma conta.

Pagam quando acumulam dívidas. Pagam quando precisam bloquear voluntariamente o próprio acesso às plataformas. Pagam quando o jogo deixa de ser entretenimento e passa a comprometer a vida financeira, familiar e emocional.

Não é necessário concluir que todo dinheiro das bets seja “dinheiro de viciado”. Seria uma generalização que os dados não permitem. A questão é outra: o futebol contabiliza a receita das apostas, mas quem contabiliza o custo social que existe na origem de parte dessa receita?

O próprio manifesto dos clubes reconhece que a expansão das apostas traz impactos sociais e afirma que pessoas vulneráveis precisam de proteção. Os clubes defendem, entretanto, que a solução seja aperfeiçoar a regulamentação, combater o mercado ilegal e manter o mercado autorizado.

Esse argumento existe e precisa ser considerado. Uma eventual proibição ou restrição também pode provocar perda de arrecadação, redução de patrocínios e migração de apostadores para plataformas clandestinas — uma preocupação apresentada pelos clubes e pelo setor. A Reuters, por exemplo, aponta o risco de queda de receitas públicas e disputas jurídicas caso o mercado seja restringido. Mas ele não elimina a pergunta principal.

Se a regulamentação protege o apostador, por que o Estado precisou criar uma plataforma de autoexclusão? Por que centenas de milhares de pessoas precisaram ser bloqueadas depois de renegociar dívidas? Por que o SUS passou a estruturar atendimento específico para problemas relacionados às apostas?

Regular um mercado não significa que seus problemas desapareçam.

Provavelmente não é essa a pergunta mais útil. O futebol brasileiro existiu por mais de um século antes de as casas de apostas estamparem suas marcas nas camisas. O que mudou foi a estrutura econômica recente dos clubes e a velocidade com que esse dinheiro se tornou parte dos seus planejamentos.

A questão, então, talvez seja outra: quanto do futebol brasileiro se tornou dependente de uma fonte de receita que surgiu justamente de um mercado cujo crescimento também trouxe uma nova demanda por proteção social?

Se as bets deixarem de investir R$ 1 bilhão por ano na Série A, os clubes terão um problema real para resolver. Precisarão encontrar novos patrocinadores, aumentar outras receitas ou reduzir despesas.

Mas se parte dos torcedores já perdeu dinheiro suficiente para precisar renegociar dívidas ou pedir para ser impedida de apostar, também existe uma conta real do outro lado. Quando os clubes dizem que o torcedor não pode pagar a conta, portanto, talvez seja necessário perguntar qual conta está sendo considerada.

A dos clubes, que pode aparecer no balanço financeiro. Ou a dos torcedores, que pode aparecer na dívida, na família e até no sistema de saúde. Se o dinheiro que sustenta parte do futebol brasileiro depende de milhões de pessoas apostando, quem já está pagando a conta para que o futebol possa recebê-lo?

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Fonte: Mídia NINJA

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