O tema que ficou sem resposta no debate presidencial
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Publicado em 21 de Outubro de 2026 às 08:11
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O Brasil precisa discutir menos apenas como distribuir a riqueza e mais como ampliar sua capacidade de produzi-la. O debate presidencial do último domingo (18) ofereceu um momento particularmente importante para discutir o futuro da economia brasileira. Questionados diretamente sobre como aumentar a produtividade do país, os dois candidatos apresentaram iniciativas relacionadas à inovação, à tecnologia, à capacitação e ao empreendedorismo. Entretanto, faltou algo essencial: uma estratégia clara para enfrentar um dos principais obstáculos ao crescimento sustentado da renda no Brasil.
Lula mencionou a Nova Indústria Brasil, a atração de data centers, a economia verde e criativa e a formação de profissionais em áreas tecnológicas. Flávio Bolsonaro destacou a expansão da conectividade, a aproximação entre trabalhadores e empresas, a qualificação profissional e o acesso ao crédito para pequenos empreendedores. São propostas que podem contribuir para o desenvolvimento econômico, mas a pergunta fundamental permaneceu sem uma resposta suficientemente concreta: como transformar essas iniciativas em ganhos persistentes de produtividade para o conjunto da economia?
Essa ausência é especialmente preocupante porque a produtividade deveria ocupar posição central em qualquer projeto nacional de desenvolvimento. Afinal, não basta discutir como distribuir a riqueza produzida. Precisamos discutir, com a mesma intensidade, como ampliar nossa capacidade de gerá-la.
Produtividade não significa trabalhar mais horas ou exigir maior esforço dos funcionários. Significa produzir mais valor com os recursos disponíveis, por meio de melhores tecnologias, qualificação profissional, organização produtiva, infraestrutura e eficiência institucional. É esse processo que permite sustentar salários mais elevados, ampliar a competitividade das empresas e melhorar o padrão de vida da população.
O desempenho brasileiro revela a dimensão do desafio. Segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da Fundação Getulio Vargas, a produtividade agregada do trabalho cresceu apenas 0,4% em 2025. Mesmo com avanços expressivos em segmentos como a agropecuária, o país continua enfrentando dificuldades para disseminar ganhos de eficiência pelo conjunto da economia.
O problema não é apenas tecnológico. Uma empresa pode investir em equipamentos modernos e continuar pouco competitiva se enfrentar infraestrutura deficiente, insegurança jurídica, complexidade tributária, escassez de profissionais qualificados e custos elevados para cumprir exigências regulatórias. A produtividade de uma economia depende tanto da eficiência interna das empresas quanto da qualidade do ambiente em que operam.
Por isso, uma agenda consistente precisa combinar diferentes frentes. A educação básica deve melhorar a formação dos futuros trabalhadores, enquanto a qualificação profissional precisa responder às transformações do mercado. A infraestrutura deve reduzir custos de transporte, energia e comunicação. O ambiente regulatório precisa estimular investimentos, concorrência e inovação. E as políticas de financiamento devem favorecer projetos capazes de ampliar efetivamente a capacidade produtiva.
Existe ainda uma dimensão frequentemente negligenciada: a produtividade das pequenas e médias empresas. Grande parte dos ganhos potenciais não depende necessariamente de tecnologias revolucionárias, mas da disseminação de ferramentas de gestão, digitalização, automação e melhores processos produtivos. Muitas soluções já estão disponíveis, mas ainda não alcançaram uma parcela significativa dos negócios brasileiros.
Também precisamos superar a ideia de que políticas industriais, por si só, garantem maior produtividade. Incentivos públicos podem desempenhar papel relevante, especialmente diante de falhas de mercado, mas precisam estar associados a metas verificáveis, avaliação de resultados e mecanismos de correção. Financiar investimentos é diferente de assegurar que eles produzirão ganhos de eficiência. O mesmo raciocínio vale para o crédito, a conectividade e o empreendedorismo. São instrumentos importantes, mas seus efeitos dependem de como são implementados, de quem conseguem alcançar e dos incentivos que estabelecem.
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Talvez exista uma explicação política para a dificuldade de aprofundar esse debate. Os resultados de uma agenda de produtividade costumam aparecer gradualmente, muitas vezes ultrapassando o horizonte de um mandato presidencial. Seus benefícios são amplos, mas nem sempre imediatamente perceptíveis. Já medidas de transferência de renda, ampliação de crédito e concessão de benefícios produzem efeitos mais visíveis no curto prazo. Isso não significa que essas políticas sejam desnecessárias. Significa reconhecer que elas não substituem a construção das condições para ampliar permanentemente a renda nacional.
O Brasil precisa abandonar a falsa oposição entre crescimento e distribuição. Uma economia mais produtiva amplia as possibilidades de elevar salários, financiar serviços públicos, sustentar políticas sociais e melhorar as condições de vida. Sem ganhos consistentes de eficiência, essas demandas passam a disputar recursos de uma economia que cresce lentamente.
O debate de domingo poderia ter avançado justamente nessa direção. Mais do que anunciar programas, seria importante conhecer prioridades, instrumentos, metas e compromissos de avaliação. Quanto se pretende elevar a produtividade brasileira? Quais obstáculos serão enfrentados primeiro? Como medir os resultados? E como garantir continuidade às políticas que dependem de muitos anos para produzir efeitos?
O próximo presidente encontrará um país que precisa crescer mais, mas, sobretudo, crescer melhor. Isso exige transformar produtividade em prioridade permanente de política econômica, e não apenas em uma expressão mencionada durante campanhas eleitorais. A pergunta feita pelos mediadores merece continuar sendo repetida. Não porque faltem iniciativas relacionadas ao tema, mas porque ainda precisamos de respostas capazes de conectar essas iniciativas a uma estratégia nacional de desenvolvimento. Enquanto não colocarmos a produtividade no centro das decisões econômicas, continuaremos discutindo intensamente como dividir a riqueza, sem enfrentar com a mesma determinação o desafio de aumentá-la.
Leia mais na coluna de Felipe Storch
Felipe Storch
Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria
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