Por Washington AraújoBrasil 247

Durante muito tempo, terras raras foram, para mim, uma expressão do noticiário cujo significado conhecia apenas pela superfície. Como muitos brasileiros — e uma parcela considerável de nós, jornalistas — sabia que estavam presentes em celulares, carros elétricos, turbinas e equipamentos militares. Sabia também que o Brasil possuía reservas gigantescas. Entre uma informação e outra existia um território científico, industrial e geopolítico que conhecia muito pouco.

Nos últimos dois anos, tenho procurado diminuir parte dessa ignorância. Li relatórios geológicos, estudos sobre processamento, trabalhos técnicos e acompanhei com mais atenção o noticiário internacional. A investigação acabou levando a uma constatação impressionante: o Brasil detém hoje a segunda maior reserva conhecida de terras raras do planeta. Segundo o USGS, são cerca de 21 milhões de toneladas, atrás somente das 44 milhões da China.

Essa posição, por si, deveria colocar o tema entre as prioridades estratégicas brasileiras. Mas as leituras foram me conduzindo a uma pergunta menos triunfalista. 

De que maneira uma riqueza enterrada se transforma em indústria, pesquisa, empregos de alta qualificação, patentes e capacidade de decisão? A resposta começa muitos quilômetros depois da escavadeira.

Da jazida à fábrica

Terras raras formam um grupo de 17 elementos. Entre eles estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, fundamentais para ímãs de altíssimo desempenho. A dificuldade começa pela própria química: esses elementos costumam aparecer misturados e possuem características tão semelhantes que sua separação exige processos complexos.

Primeiro vêm levantamento geológico, perfuração, lavra, britagem, moagem e concentração. O material segue para craqueamento e lixiviação, usando reagentes capazes de colocar os elementos em solução. 

Depois começa a etapa delicada da separação química. Surgem os óxidos individualizados; estes seguem para refino, transformação em metais, produção de ligas e pós magnéticos. O pó é prensado e submetido a aquecimento controlado até adquirir estrutura sólida, recebe tratamento térmico, usinagem e revestimento. A cadeia termina nos ímãs permanentes que vão parar em motores, robôs, turbinas, satélites, equipamentos médicos e centros de dados.

Aprender esse percurso modificou minha maneira de enxergar a mineração. Durante muito tempo, acostumamo-nos a celebrar a descoberta da jazida. 

Nas terras raras, a jazida representa a primeira estação de uma viagem muito mais longa. A prosperidade industrial depende do número de etapas que o país consegue realizar dentro de suas fronteiras.

O custo do domínio

Também comecei a prestar mais atenção ao dinheiro. Estudos de viabilidade registram custos operacionais entre US$ 20 e US$ 50 por quilo de terras raras em projetos avançados, com enorme variação conforme teor, mineralogia, reagentes, energia, água, escala industrial e tratamento de resíduos.

A cifra mais reveladora, porém, vem da Agência Internacional de Energia. Para criar cadeias diversificadas capazes de atender à demanda de terras raras magnéticas fora do produtor dominante até 2035, seriam necessários aproximadamente US$ 60 bilhões em investimentos. Quase metade iria para refino; cerca de um terço, para fabricação de ímãs. 

A distribuição desse dinheiro deveria interessar especialmente ao Brasil. O capital se concentra justamente nas etapas em que ciência e indústria passam a comandar o valor.

Um exemplo ajuda. Em 3 de setembro, o óxido combinado de praseodímio e neodímio — chamado PrNd pela indústria — era negociado na China perto de US$ 108 mil por tonelada. A liga metálica de PrNd, obtida numa etapa industrial posterior, rondava US$ 131 mil. O óxido de PrNd e a liga metálica de PrNd são produtos diferentes, com composições, rendimentos e custos próprios; os cerca de US$ 23 mil entre as cotações jamais poderiam ser tratados simplesmente como margem de lucro. 

Servem, contudo, para visualizar o valor que química, energia, equipamentos e tecnologia acrescentam ao material.

O método chinês

A China compreendeu essa cadeia durante décadas. Bayan Obo, na Mongólia Interior, transformou-se em seu gigantesco centro de terras raras leves. Maoniuping, em Sichuan, ganhou posição semelhante. No sul chinês, especialmente em áreas de Jiangxi, depósitos de argilas de adsorção iônica tornaram-se importantes fontes de elementos pesados.

O que mais chama minha atenção, porém, fica além das minas. Pequim conectou mineração, separação, refino, metalurgia, universidades, laboratórios, fabricantes de equipamentos, produtores de ligas e indústrias de ímãs. Criou escala, formou especialistas e acumulou conhecimento durante gerações de engenheiros e químicos.

Os números permitem enxergar o resultado quase como uma radiografia. Em 2024, a China respondeu por cerca de 60% da mineração mundial das terras raras magnéticas. Sua participação avançava para 91% na separação e no refino e chegava a 94% na fabricação de ímãs permanentes sinterizados. Duas décadas antes, produzia aproximadamente metade desses ímãs.

Essa distância entre 60% e 94% me parece uma das informações mais importantes de toda essa história. Quanto mais o mineral se aproxima do produto tecnológico sofisticado, maior se torna a presença chinesa. A vantagem foi construída dentro das fábricas, dos laboratórios e das universidades, além das minas. Recursos naturais forneceram a matéria-prima; conhecimento acumulado multiplicou sua importância econômica.

Mapa incompleto

Volto então ao Brasil e aos nossos 21 milhões de toneladas. Existe nesse número outra razão para cautela: conhecemos apenas parte do território com o grau de detalhe necessário para avaliar seu potencial mineral.

Estudo do Serviço Geológico do Brasil mostrou que somente 27% do território estava coberto por mapeamento na escala 1:100.000 até 2022. Na escala 1:250.000, eram 48%. O próprio SGB avalia que o conhecimento geológico brasileiro permanece aquém das potencialidades minerais do país e mantém um plano decenal para ampliar a cobertura.

Sempre volto a esse número: 27%. Temos a segunda maior reserva conhecida do mundo enquanto grande parte do nosso território carece de mapeamento geológico detalhado. A fotografia atual pode revelar apenas uma fração da paisagem mineral brasileira.

Por isso, gostaria de ver outros indicadores ganharem manchetes. Quantos quilômetros quadrados mapeamos por ano? Quantos químicos, geoquímicos, metalurgistas e engenheiros estamos formando? Quantas plantas de separação somos capazes de operar? Quantas patentes brasileiras existem nessa cadeia? Quantas ligas produzimos? Quantos ímãs de alta performance saem de fábricas instaladas no país?

Essas respostas dirão mais sobre nosso futuro que qualquer celebração apressada de uma posição num ranking mundial.

Goiás pode negociar soberania?

Foi estudando essas questões que passei a acompanhar com atenção especial o que ocorre em Goiás. Em março de 2026, o governo estadual firmou acordo com o governo norte-americano voltado à cooperação em minerais críticos e terras raras. 

Segundo o próprio governo goiano, pretende-se atrair pesquisa, capacitação, separação, metalização, fabricação de ligas e produção de ímãs permanentes para o estado.

A ambição industrial é compreensível. O que me preocupa está na dimensão estratégica que o próprio avanço das terras raras adquiriu. Informação sobre o subsolo, domínio tecnológico, contratos de fornecimento e relações diretas com governos estrangeiros alcançam uma esfera que ultrapassa os limites administrativos de Goiás.

A Constituição oferece uma referência incontornável. Os recursos minerais, inclusive os do subsolo, pertencem à União. Cabe também à União manter relações com Estados estrangeiros. Pesquisa e lavra mineral dependem de autorização ou concessão federal e devem observar o interesse nacional, conforme os artigos 20, 21 e 176.

Daí a pergunta que considero legítima: o governo de Goiás dimensionou plenamente o significado de soberania nacional ao tratar diretamente com uma potência estrangeira de recursos cuja importância econômica, tecnológica e militar cresce rapidamente?

Os acontecimentos posteriores ampliaram a dimensão da pergunta. Em 11 de maio, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica abriu procedimento para examinar a combinação entre Serra Verde e USA Rare Earth e um acordo de fornecimento por quinze anos. Segundo o Cade, o contrato alcança 100% da produção da Fase I da Serra Verde e envolve uma empresa de propósito específico capitalizada por agências do governo norte-americano e investidores privados. O órgão ressalvou corretamente que a abertura do procedimento, por si, não significava a existência de problema concorrencial.

Em agosto, documentos apresentados à SEC registraram uma capitalização de US$ 1,55 bilhão dessa estrutura. O Departamento de Guerra dos Estados Unidos comprometeu US$ 750 milhões e celebrou contrato para comprar pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras durante cinco anos. Em 3 de setembro, a combinação empresarial entre USA Rare Earth e Serra Verde foi concluída. A operação anunciada em abril fora avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões.

Leio essa sequência e penso na extensão da palavra soberania. Ela envolve mapas geológicos, laboratórios, formação científica, contratos, plantas industriais, patentes e capacidade de negociar conhecendo exatamente o valor do que está em jogo. 

Uma jazida pode permanecer fisicamente em território brasileiro enquanto etapas fundamentais de sua cadeia tecnológica, financeira e industrial se organizam em outros países.

É esse ponto que merece vigilância pública. O Brasil precisa de investimento, tecnologia, parceiros e mercados. Precisa também saber quais capacidades estratégicas pretende manter e desenvolver dentro de suas fronteiras. Uma política de terras raras construída apenas em torno da extração deixaria para outros justamente as etapas que concentram tecnologia, conhecimento e poder de negociação.

O Brasil de 2040

Depois de dois anos lendo sobre terras raras, continuo muito distante da condição de especialista. Essa distância tem uma vantagem: preserva perguntas que especialistas, empresários e governos precisam responder ao restante da sociedade.

Em 2040, robôs industriais serão mais numerosos, turbinas maiores, veículos mais eletrificados, sistemas de defesa mais sofisticados, centros de dados mais poderosos e equipamentos médicos ainda mais dependentes de materiais magnéticos de alto desempenho. A Agência Internacional de Energia projeta forte expansão da procura por terras raras magnéticas e identifica refino e fabricação de ímãs como gargalos decisivos da próxima década.

Quero saber que lugar o Brasil pretende ocupar nessa paisagem. Interessa saber quanto do território estará mapeado, quantos elementos conseguiremos separar, quanto conhecimento tecnológico permanecerá aqui, quantos brasileiros serão formados nessa ciência e quantas fábricas conseguirão transformar nossos próprios minerais em componentes de altíssimo valor.

Comecei estudando terras raras para diminuir uma ignorância pessoal. Termino esta investigação provisória com uma preocupação nacional muito maior. Possuímos a segunda maior reserva conhecida do planeta e ainda estamos decidindo o que fazer com ela.

Daqui a vinte anos, o tamanho das jazidas continuará registrado nos mapas. A pergunta decisiva será outra: quanto da inteligência criada a partir delas terá ficado no Brasil?

Fonte: Brasil 247

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