O sofrimento como sintoma do individualismo neoliberal

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Por Tarcísio MouraEsquerda Diário

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Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015. O mês de setembro foi escolhido para a campanha porque, desde 2003, o dia 10 de setembro é o Dia Mundial de prevenção ao suicídio.

O suicídio é uma triste realidade que atinge o mundo todo. Dados de 2019 da OMS (Organização Mundial da Saúde), apontam que mais de 700 mil suicídios foram registrados em todo o mundo, sem contar com as subnotificações. O período da pandemia não foi considerado, pois trouxe fatores extraordinários para os estudos.

No Brasil, os registros se aproximam de 14 mil casos por ano (portal setembroamarelo.com), em média 38 pessoas por dia, com prevalência de 3,5 homens para cada mulher que atentam contra a própria vida, numa tendência de alta registrada na última década. Entre 2011 e 2022, o Brasil registrou mais de 147 mil suicídios.

Chama a atenção a alta taxa de suicídio entre a população indígena, que supera em quase três vezes a da população em geral.

Multifatorial, questões de gênero, étnicos, sócio econômicos, e de classe devem ser consideradas como fatores de desalento e desesperança na vida.

Contudo, precisamos ir além do aspecto quantitativo e, concentrar a analise, em termos qualitativos. Isso porque, antes da psicanálise, no nascimento da sociologia, o suicídio foi considerado como um fato social, resultante na análise de Durkheim da falha de coesão, quando as instituições falham em integrar o indivíduo no funcionamento da sociedade. O problema dessa abordagem positivista consiste no aspecto de que as mesmas instituições que promovem as normas e a regulação social, são as que promovem a desumanização, proveniente do regime econômico e a forma que ele é estruturado na família patriarcal. Por isso, ao propor a transformação radical da sociedade, Marx, enxerga o sufocamento do indivíduo, sobretudo, nessas convenções econômicas e sociais da propriedade privada.

Como há muito a ser dito sobre suicídio, vou me concentrar nos aspectos ideológicos do capitalismo tardio, e como a ideologia neoliberal afeta o tecido social e, sobretudo, a classe trabalhadora. Me apoiarei na teoria dos discursos de Lacan para tentar ilustrar a questão.

Lacan, em seu seminário de 1969-70, “O avesso da psicanálise”, elabora sua teoria dos discursos, que são o discurso do Mestre, o discurso da histérica, o discurso universitário (também entendido como discurso da ciência) e o discurso analítico.

Em 1972, como desdobramento dessa tese, Lacan propõe o discurso do capitalismo, que seria como uma interface, ou mesmo uma junção do discurso do mestre com o discurso da ciência. Nele, Lacan localiza na suposta neutralidade científica somada à demanda impositiva por consumo do capital (Discurso do mestre) que algo fica de fora desse discurso, o desejo.

Em psicanálise, desde Freud, há a concepção de que os humanos têm uma falta estrutural. Freud parte da idéia de que durante a gestação, o ser humano teria uma sensação de completude (numa gestação que poderíamos chamar de “normal”), sensação essa perdida ao nascer, já que passamos a sentir frio, fome, fotofobia e precisamos respirar por nós mesmos, no chamado trauma do nascimento.

Essa falta primordial opera também a abertura do campo do desejo. Para haver desejo, é necessário a falta que o impulsione. E esse é o ponto onde pretende atuar o discurso capitalista. No discurso capitalista a falta é excluída, tamponada com os diversos produtos, experiências, redes sociais com seu feed infinito para que a falta não apareça, numa lógica de consumo incessante, nos ocupando perpetuamente, esvaindo nossas capacidades desejantes, obturadas pela mera reprodução de consumo e do excesso. Para que os lucros dos capitalistas não parem de crescer, é necessário o ciclo perpétuo de produção e consumo, extraindo mais-valia do trabalhador, mais-valia essa que passa a ser internalizada pelos indivíduos, num processo de auto-servidão em que exigimos cada vez mais desempenho de nós mesmos. E não só desempenho com relação ao trabalho, mas também em outros campos da vida como os estudos, o divertimento e o lazer, e até mesmo com medidas de bem estar, como na busca por um corpo perfeito, etc, no que Lacan, apoiado na teoria da mais-valia de Marx, conceitua como “mais-de-gozar”.

A ideologia neoliberal, variação do discurso capitalista, traz para o campo da cultura e para a subjetividade o discurso de gestão empresarial. Margaret Thatcher, em sua definição que se tornou um clássico da ideologia Neoliberal, disse em 1987 que: “não existe essa coisa de sociedade. Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem famílias”. E é isso que as classes dominantes nos impões sutilmente pela ideologia: a fragmentação, a atomização individualista, a privatização inclusive do sofrimento psíquico, num discurso cínico que tenta nos vender liberdade e autonomia, como se esses ideais não fossem atravessados por um recorte de classe.

Além da privatização dos ativos do estado e do próprio sofrimento, outros pilares da ideologia Neoliberal são a competição, a meritocracia, a flexibilidade, sobretudo na legislação, mas também como habilidade individual de adaptação, além de metas, muitas metas. Subjetivamente, esse ideário desloca toda a responsabilidade de sua situação na vida para o próprio indivíduo, uma vez que se omite as condições históricas e de classe, como se o mercado regulasse de forma neutra e científica a competição entre os indivíduos, criando escalas de avaliação e mensuração que daria uma suposta lisura à competição, e se o indivíduo não consegue “vencer” nessa competição, é porque lhe faltou esforço, e não possui os méritos para desfrutar de uma condição melhor de vida.

Com tantas métricas de avaliação (estrelas da Uber ou Ifood, Likes) o trabalhador, sobretudo os de plataformas, mas não só eles, se torna seu próprio auditor, internalizando as avaliações que fazemos a cada compra ou utilização de serviço, se auto exigindo aperfeiçoamento constante, pois não deve ficar na ”zona de conforto”. Num regime de trabalho e de vida com metas e auto-vigilância permanentes, também é imposto ao trabalhador, mas com a aparência de que é uma escolha própria, o prolongamento das jornadas de trabalho, às vezes, para além de 12 horas e a auto imposição de escalas extenuantes de trabalho que podem chegar à escala 7 por 0, sendo a 6 por 1 a mais comum entre trabalhadores por aplicativo. Como não colapsar mental e fisicamente num regime de trabalho e de vida tão severo?

Um dos sintomas mais comuns que vemos generalizar-se socialmente é a ansiedade. A ansiedade pode ser compreendida como um distúrbio do indivíduo em sua relação com o tempo. O ansioso, por excelência, se ocupa mais com o futuro, em estar preparado para o que virá, às metas e boletos que deve cumprir e pagar.

E, fatalmente, chega-se ao momento em que nos damos conta que nossos esforços são insuficientes, que sozinhos não damos conta de meramente reproduzir a vida cotidiana, que o salário não chega ao fim do mês, e o que era ansiedade desemboca em depressão.

A culpa recai sobre o próprio indivíduo, tomado por ansiedade e depressão, mas o capitalismo não nos deixa órfãos: as Big Pharmas, oligopólios da indústria farmacêutica, trabalham 24/7 em pesquisas para desenvolver psicotrópicos para nos fazer funcionais, para nos livrar da insônia que nos tira o ânimo, para nos injetar dopamina e serotonina que nos devolvem nossa “produtividade” e alegria. Longe de mim afirmar que essas medicações não são importantíssimas para a saúde mental de muitas pessoas que sofrem de transtornos psíquicos, mas o que está em jogo aqui é uma generalização dos transtornos e diagnósticos (quem nunca se perguntou qual o seu CID), onde a angústia, afeto inerente à condição humana justamente por termos uma falta estrutural, é varrida da discussão, tamponada por uma medicação que nos traga alívio. E nessa generalização de transtornos e medicalização, as Big Pharmas lucram, e muito, com nosso sofrimento.

Como reconstruir a subjetividade da classe trabalhadora num tempo de fragmentação social, em que a prevalência do discurso de gestão empresarial de si mesmo nos convence que podemos tudo, que basta o esforço individual, discurso este que omite nossas condições sociais e seu caráter de classe, que apaga a história e o passado, numa sedução narcísica de que temos total controle dos nossos destinos, mesmo sem saber para onde queremos ir? Como podemos sair do individualismo e da competitividade e nos vermos novamente como uma só classe, renovando a solidariedade entre nós?

Uma possibilidade é nos utilizarmos das próprias depressão e ansiedade como ponto de partida para questionarmos os modos de vida que nos são impostos, deixando o individualismo e, de forma coletiva, buscarmos inventar um futuro no qual a depressão não seja considerada um estado de normalidade afetiva, que a vida e o trabalho possam ser plenos de sentido.

Compreender como o capitalismo nos afeta, que há toda uma estrutura ideológica que nos impõe um modo de viver e pensar sem nos darmos conta é o primeiro passo para cuidarmos da nossa saúde mental.

Se a angústia de viver está insuportável, não tome uma decisão fatal, procure ajuda: o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço de apoio emocional 24 horas, pode ser contatado pelo telefone 188 e é gratuito. A rede CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) oferece um serviço incrível e fundamental pelo nosso SUS. Ou procure um psicólogo particular, uma vez que o Brasil é o país com maior número absoluto na formação de psicólogos.

A busca de ajuda é um passo inicial para nos mantermos vivos. Mas a transformação social só acontecerá se nos unirmos.

Fonte: Esquerda Diário

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