Por Washington Araújo — Brasil 247

Uma democracia pode realizar eleições impecavelmente regulares e, ainda assim, perder substância quando milhões deixam de encontrar sentido nas opções apresentadas. Com 99,13% das seções totalizadas, a abstenção no primeiro turno de 2026 chegava a 21,07%, cerca de 33,16 milhões de brasileiros. Somados aos 5,9 milhões que compareceram, mas votaram em branco ou anularam, eram quase 39 milhões sem voto válido em nenhum candidato.

A sequência preocupa. A abstenção foi de 19,39% em 2014, 20,33% em 2018, 20,95% em 2022 e chegou agora a 21,07%. Há doenças, viagens, distâncias e impedimentos pessoais nesse universo. Mas dezenas de milhões de ausências, eleição após eleição, impõem uma pergunta mais séria: quanto desse afastamento nasceu da frustração com aqueles que elegemos?

Durante décadas repetimos que o brasileiro precisa aprender a votar. A política também precisa aprender a merecer o voto. O eleitor é cortejado na campanha, cercado de promessas e procurado até a votação. Depois da posse, frequentemente descobre que prioridades, alianças e convicções mudaram. Quatro anos mais tarde, o representante reaparece pedindo renovação do mandato. Culpar apenas quem se afastou da urna é uma forma conveniente de absolver quem ajudou a afastá-lo.

A corrupção pesa brutalmente nessa descrença porque seu prejuízo ultrapassa o dinheiro roubado. Corrupção passiva ocorre quando o agente público solicita ou recebe vantagem indevida, ou aceita sua promessa, em razão da função; ativa, quando alguém oferece ou promete essa vantagem para influenciar um ato funcional. São crimes diferentes, mas socialmente se encontram no mesmo lugar: o interesse privado tentando comprar o poder que pertence à sociedade.

Cada escândalo envolvendo dinheiro público ensina uma lição devastadora. O cidadão paga impostos, acompanha denúncias, investigações e processos e começa a suspeitar que existe uma porta entre a urna e o mandato pela qual entra sua confiança e saem interesses que jamais autorizou. Generalizar seria injusto com representantes honestos. Ignorar o efeito corrosivo desses episódios seria fechar os olhos para uma das raízes da desilusão.

Platão advertiu, há cerca de 24 séculos, para o preço de abandonar o governo da cidade: quem se recusa a participar pode acabar governado por pessoas piores. A ideia permanece porque ninguém consegue aposentar-se das consequências da política. Pode desistir da escolha; continuará submetido a impostos, serviços públicos, leis e decisões tomadas por aqueles que outros escolheram.

Mas seria fácil demais usar Platão somente para repreender o ausente. Se a democracia exige que o cidadão não abandone a política, precisa exigir que o eleito não abandone o cidadão depois de receber seu voto. Responsabilidade democrática tem duas mãos.

Tocqueville percebeu que a democracia se fortalecia por hábitos de participação cultivados em associações, comunidades e decisões locais. A lição atinge uma deficiência brasileira: queremos eleitores conscientes sem formar cidadãos participantes. A escola deveria ensinar, sem catequese partidária, como funciona um orçamento público, o que fazem vereadores e parlamentares, de onde saem as emendas e como fiscalizar um mandato. Não basta ensinar a apertar teclas numa urna.

Norberto Bobbio acrescenta outra dimensão ao mostrar a importância das regras que permitem ao cidadão participar das decisões coletivas. Durante alguns segundos, a urna produz uma igualdade extraordinária: o voto do bilionário vale exatamente o mesmo que o daquele que chegou à seção preocupado com o preço do almoço. Desistir desse poder porque maus representantes decepcionaram significa entregar aos outros uma parcela maior da decisão.

A fila dos que reclamam dobra quarteirões; a dos que se dispõem a ajudar na construção da sociedade desejada continua pequena demais. Existe, porém, uma terceira fila que Brasília deveria enxergar: cidadãos esperando razões para acreditar que participar ainda vale a pena.

Reduzir a abstenção exige, portanto, muito mais que propaganda pedindo “voto consciente”. Exige educação para a democracia, transparência sobre o dinheiro público, fiscalização permanente dos mandatos, punição efetiva da corrupção e representantes que prestem contas durante quatro anos, não apenas reapareçam sorridentes quando precisam novamente do eleitor.

Brancos e nulos merecem leitura diferente. Podem expressar protesto consciente contra as alternativas apresentadas, mas ficam fora dos votos válidos. A mensagem existe; a escolha do governante será feita pelos outros.

Não me preocupa que alguém vote diferente de mim. Preocupa-me que milhões concluam que escolher deixou de valer a pena. A responsabilidade atravessa os dois lados da urna: o cidadão que se afasta entrega aos outros sua parcela de poder; o representante que trai a confiança recebida ajuda a fabricar a abstenção seguinte.

O voto dura segundos. O mandato dura quatro anos. Nesse enorme intervalo mora a responsabilidade de ambos: quem recebeu o direito de escolher não deveria desprezá-lo; quem recebeu poder emprestado não deveria precisar de outra eleição para lembrar de quem o recebeu.

Fonte: Brasil 247

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