O Século dos Imbecis, de Valter Hugo Mãe, exibe sociedade injusta que derrapa na avaliação de si própria
Por Redação — Jornal Opção

Marina Teixeira da Silva Canedo
Especial para o Jornal Opção
Honoré de Balzac nomeou sua extensa obra “La Comédie Humaine” (a edição brasileira tem 17 volumes) como um evidente contraponto à “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Em sua “Comédia”, Balzac oferece um panorama do homem burguês, em suas diversas facetas, dentro da sociedade em transformação, na qual estava inserido.
O livro “O Século dos Imbecis” (Biblioteca Azul, 339 páginas) do renomado escritor português Valter Hugo Mãe, lançado em julho de 2026, oferece aos leitores uma história burlesca e, ao mesmo tempo, tragicômica.
Valter Hugo Mãe se propõe, de modo mais parcimonioso e leve, diferentemente da profundidade e extensão da obra de Balzac, mas com o mesmo objetivo crítico, a uma leitura do mundo atual e suas inconsistências. É um romance contemporâneo, narrado na terceira pessoa, e passado em um lugar qualquer de Portugal, em uma vila sem nome, ao pé de uma montanha também sem nome. A época em que se passa fica em uma linha indefinida entre presente e passado, o que encaixa o romance em uma esfera mais ampla.
Trata-se de uma história fabular, construída como uma grande alegoria crítica à ignorância na sociedade contemporânea.
Sua linguagem é rica em neologismos. Outra peculiaridade é o fato de o autor, grande admirador do escritor Italo Calvino, utilizar-se de personagens de uma obra do escritor italiano, “O Cavaleiro Inexistente”
O escritor esclarece, no início, que não obedecerá ao Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa de 1995, e esmera na antiga grafia, nos termos regionais e em sua nomenclatura própria.
Sua linguagem é rica em neologismos; esta é uma de suas características. Outra peculiaridade é o fato de o autor, grande admirador do escritor Italo Calvino, a quem dedica o livro, utilizar-se de personagens de uma obra do escritor italiano, “O Cavaleiro Inexistente” (1959) para nominar vários de seus indivíduos literários. Assim, surgiram Paciasso, Martinbon, Omobom, Omobestia, Agilulfo, Bertrandino dos Guildiverni e Gurdulù.

Dos personagens, nem todos são mencionados pelo nome. O marquês de Malandrinha, Agilulfo, é um deles. Os demais são caracterizados pela função que ocupam: a Criada, a Marquesa, a Pessivista, o Presidentês, a Presidentesa, a Coveira, a Pasteleira, a Mulher Torta, etc…
O que importa são suas características e o papel que desempenham na sociedade.
Uma grande propriedade, centenária, detentora de um rico patrimônio artístico e nobiliárquico, a Malandrinha, domina a paisagem da vila e os interesses e expectativas dos habitantes do lugar. As relações de poder entre o povo e o marquês Agilulfo, dono da imensa casa, expõem as regras de subserviência dos vileiros ao nobre poderoso, mesmo sabendo de sua fragilidade mental, que é louvada publicamente e criticada na privacidade. No livro de Italo Calvino Agilulfo não tem corpo, é uma armadura vazia, que se move por forças externas.
Sarcasticamente, tudo é visto sob o olhar atento do narrador: as relações por interesse, o autoritarismo, o conservadorismo do marquês, a total ausência de senso crítico e de realidade obnubilado por deficiências cognitivas, e o fascínio dos moradores da vila pela riqueza e luxo do nobre casal.
Também, de forma sarcástica, é tratado o julgamento de Omobom e Omobestia. O bom tem uma condenação muito maior do que a do mau porque, sendo bom e conhecedor da verdade, merece pena maior. Já Omobestia, mau por natureza e costume, encontra a benevolência e compreensão por ser naturalmente mau. Isto significa que ao bom não é permitido errar e ao mau aceitam-se os erros, que são misericordiosamente julgados. A sociedade contemporânea certamente tem na memória casos assim.
As idiossincrasias da Igreja Católica estão presentes na vila. A pedido da população o padre canoniza a estátua da Justiça, transformando-a em Nossa Senhora da Justiça e é do conhecimento de todos o romance do padre com a Coveira.

A Criada, que tanto ansiava por ser desejada por algum homem, realiza-se com o estupro; torna-se senhora de si. Finalmente, provou o que lhe era negado pelas regras da sociedade machista e autocrática e da igreja; e o estuprador continua insatisfeito consigo e manipulador e senhor da vulnerabilidade feminina.
Malandrinha é referência à malandragem na obtenção do patrimônio da elite, passado de geração a geração, fazendo da riqueza um bem perpétuo da nobreza e da pobreza, uma luta constante contra o status quo
“Os nobres não podem reclamar essa inocência. A história inteira conta o que fizeram os seus familiares.”
O nome Malandrinha advém de um viés irônico. A origem da nobreza portuguesa e seu fausto, provindos da exploração das riquezas do Brasil e da escravidão, na época colonial, citadas pelo narrador, dão os argumentos para se considerar a pujança do Reino como consequência de desonestidades, de constantes ações exploratórias contra os subjugados no decorrer dos séculos.
Daí, Malandrinha ser uma referência à malandragem na obtenção do patrimônio da elite nobre portuguesa, que era passado de geração a geração, fazendo da riqueza um bem perpétuo da nobreza e fazendo da pobreza uma luta constante contra o status quo.
A história em questão, como em um conto de fadas, tem características que fogem à realidade e insere aspectos fabulares, tais como a inteligência do marquês, que aumenta quando ele sobe a montanha e vai se extinguindo à medida que desce.

O misterioso cofre e o desaparecimento da marquesa também se inserem na fábula e dão à narrativa um quê de mistério. Contudo, na contrapartida com a vigência da realidade, o governante que “sobe” em conhecimento terá uma visão tão ampla do mundo e das coisas como teve Agilulfo no pico da montanha, ao contemplar a vastidão de um mundo maravilhoso, que nunca é visto em sua totalidade, a não ser que se suba aos píncaros dos montes. E essa “montanha” pode ser escalada através do conhecimento.
O desaparecimento do nobre casal de marqueses enseja uma mudança de comando, e ela acontece por meio da Criada.
No final, um concerto entre as classes sociais dá uma destinação humanitária à Malandrinha e um fecho utópico à narrativa, uma idealização que corre paralela às ideias progressistas.
“O Século dos Imbecis” consegue sintetizar os equívocos de uma sociedade injusta e que derrapa na avaliação de si própria. Derrapa nas pedras, ao tentar subir a montanha, e desliza com facilidade ao descê-la. Uma verdadeira Comédia Humana, com a licença de Balzac.
Marina Teixeira da Silva Canedo, poeta e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.
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Fonte: Jornal Opção