“O rótulo de ‘país desenvolvido’ é, na verdade, uma armadilha”, diz editorial do Global Times
Por Leonardo Sobreira — Brasil 247
247 – As discussões internacionais sobre o estágio de desenvolvimento da China representam um reconhecimento das conquistas do país e de suas responsabilidades como grande potência. Entretanto, é necessário manter a vigilância diante de determinadas narrativas que deliberadamente obscurecem o atual estágio de desenvolvimento chinês, impõem obrigações superiores às correspondentes a essa etapa, restringem o espaço de desenvolvimento do país e criam divisões entre a China e outras nações em desenvolvimento, colocando-a, assim, em uma posição difícil, avalia o editorial do Global Times.
Em artigo recente, o Wall Street Journal destacou que a China está prestes a alcançar o status de país de alta renda, segundo os critérios do Banco Mundial. “A China não quer ingressar no grupo dos países desenvolvidos”, afirmou o artigo, argumentando que o país se beneficia de sua atual condição de “nação em desenvolvimento” nas organizações internacionais. Na realidade, ser um país de alta renda não é o mesmo que ser um país desenvolvido. Ao confundir os dois conceitos, o artigo do Wall Street Journal procura exercer pressão pública sobre a China para que assuma obrigações internacionais que ultrapassam seu atual nível de desenvolvimento.
Segundo estimativas do Banco Mundial, a Renda Nacional Bruta (RNB) per capita da China atingiu US$ 14.230 em 2025, ficando marginalmente abaixo do limite de US$ 14.375 exigido para o status de país de alta renda. Cabe ressaltar, contudo, que esse critério se baseia exclusivamente em valores financeiros, sem considerar uma avaliação mais ampla sobre o nível de modernização, o desenvolvimento industrial e a qualidade dos serviços públicos da nação. Nos últimos anos, países como Chile, Uruguai, Panamá e Costa Rica ultrapassaram o limite de alta renda estabelecido pelo Banco Mundial. Entretanto, continuam sendo amplamente considerados pela comunidade internacional como países em desenvolvimento ou economias emergentes, em vez de serem automaticamente classificados como países desenvolvidos simplesmente por terem alcançado esse patamar de renda.
À medida que a modernização chinesa avança de maneira constante, a China alcançou conquistas históricas no desenvolvimento econômico e social, consolidando seu Produto Interno Bruto (PIB) como o segundo maior do mundo. Entretanto, diversos indicadores demonstram que sua condição de país em desenvolvimento permanece inalterada. Por exemplo, ainda existe uma diferença significativa no PIB per capita em comparação com economias desenvolvidas, como as da Europa e dos Estados Unidos. Os desequilíbrios no desenvolvimento regional ainda não foram fundamentalmente superados, e persistem disparidades entre as áreas urbanas e rurais.
Em contrapartida, o processo de desenvolvimento dos países ocidentais desenvolvidos corresponde a uma condição abrangente, consolidada após a elevada maturidade dos processos de industrialização, urbanização e modernização. Isso se reflete não apenas na dimensão de suas economias, mas também em diversos aspectos, como a riqueza per capita, os sistemas de seguridade social, a capacidade de prestação de serviços públicos e os sistemas de inovação científica e tecnológica.
As discussões internacionais sobre a classificação do desenvolvimento chinês decorrem, em grande medida, do rápido ritmo de crescimento da China e de suas contribuições expressivas para a economia mundial, que há muito ultrapassaram os parâmetros convencionais utilizados para caracterizar os países em desenvolvimento tradicionais. Essas discussões representam um reconhecimento das conquistas chinesas e de suas responsabilidades como grande potência.
Entretanto, é preciso estar atento a determinadas narrativas que obscurecem deliberadamente o estágio de desenvolvimento da China, impõem obrigações superiores às correspondentes à sua atual etapa de desenvolvimento, restringem suas possibilidades de crescimento e provocam divisões entre a China e outros países em desenvolvimento, colocando o país em uma situação difícil.
Para a China, o status de país em desenvolvimento carrega um profundo significado político. A China sempre foi integrante do Sul Global. Esse “Sul” não é apenas um conceito geográfico ou econômico, mas uma identidade construída por países de mercados emergentes e nações em desenvolvimento com base em circunstâncias históricas semelhantes, estágios atuais de desenvolvimento, objetivos comuns de progresso e aspirações políticas compartilhadas.
A pressa de alguns em classificar a China como um “país desenvolvido” não reflete um interesse genuíno em sua “graduação”, mas sim em sua exclusão, com o claro propósito de isolá-la das demais nações do Sul Global. Nesse aspecto, a China possui plena clareza sobre a situação e não cairá nessa armadilha.
Para avaliar as responsabilidades internacionais de um país, não se deve considerar apenas se ele recebeu ou não o rótulo de “país desenvolvido”, mas se está efetivamente promovendo o desenvolvimento comum em escala global. A contribuição média anual da China para o crescimento econômico mundial tem se mantido, há muito tempo, em torno de 30%. A China é o país que mais fornece pessoal para operações de manutenção da paz entre os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e suas quatro iniciativas globais oferecem sabedoria, soluções e força chinesas para a governança mundial.
As contribuições da China para a construção de um mundo aberto, inclusivo, limpo e belo, caracterizado pela paz duradoura, pela segurança comum e pela prosperidade compartilhada, já superaram as de muitos países desenvolvidos. Entretanto, a China sempre será integrante do mundo em desenvolvimento. Isso não representa modéstia, mas uma demonstração de lucidez e senso de responsabilidade.
Fonte: Brasil 247