O rastro das águas no Rio Grande do Sul: quando o colapso climático expõe o abismo social
Por Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
O Observatório das Metrópoles é um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) que trabalha de forma sistemática e articulada sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional, tendo como referência a compreensão das mudanças das relações entre sociedade, economia, Estado e os territórios conformados pelas grandes aglomerações urbanas brasileiras. A rede nacional é formada por 16 núcleos situados nas principais metrópoles brasileiras. O Núcleo Porto Alegre é um dos núcleos originais da rede e congrega pesquisadores e pesquisadoras de diferentes áreas e instituições de ensino e pesquisa do estado.
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Moisés Waismann, Rute Henrique da Silva Ferreira, Lucimar Fátima Siqueira e Paula Pinhal de Carlos*
O mês de maio de 2024 não passará como mais uma página de chuva no calendário do Rio Grande do Sul. Ele ficou gravado na carne e na memória coletiva como o momento em que a crise climática deixou de ser uma ameaça abstrata e se revelou em toda a sua violência socioambiental. Dados recentes da Pesquisa Especial sobre as Enchentes (PEERS/IBGE), sistematizados pelo Observatório Unilasalle, traçam o raio-X da devastação na Região Intermediária de Porto Alegre: dos 1,38 milhão de domicílios ali existentes, 92,7% (1.280.502 residências) sofreram algum impacto direto ou indireto da tragédia.
A leitura observação dos números expõe o caráter sistêmico do desastre. A água não apenas invadiu casas; ela paralisou a infraestrutura, desmantelou serviços públicos e escancarou a vulnerabilidade a que a população está submetida. Mais de um milhão de lares viram sumir das torneiras a água potável e das tomadas a energia elétrica. As redes de comunicação caíram e o transporte público entrou em colapso.
Entretanto, o desastre caiu sobre todos, a dor e a capacidade de resposta não foram distribuídas de forma igual. É preciso dar nome àquilo que os dados revelam: o trauma tem classe, cor e gênero.
Com uma população atingida de mais de 3,7 milhões de pessoas no recorte da análise, o levantamento mostra que as mulheres representam a maioria dos afetados (1,94 milhão). Historicamente encarregadas da gestão do cuidado familiar e comunitário, foram elas as primeiras a reorganizar a vida em abrigos improvisados e a articular redes de solidariedade no caos. O desastre também atingiu com força as crianças e adolescentes (733 mil) e os idosos (712 mil) vivenciaram a perda repentina de seus territórios, rotinas e referências de segurança.
O rastro do evento socioclimático escancara, sobretudo, as falhas de governança e a lentidão do Estado. Pelo menos 538 mil famílias precisaram abandonar suas casas por ao menos uma noite para escapar da subida das águas, e mais de 610 mil pessoas mudaram de endereço durante a crise. No entanto, enquanto mais de 221 mil moradias necessitaram de reconstrução urgente ou reassentamento por terem sido destruídas ou severamente danificadas, a ajuda financeira emergencial do poder público chegou a apenas 362 mil domicílios. Significa dizer que cerca de 73,5% dos lares da região ficaram desassistidos do auxílio financeiro no período mais crítico.
Essa lacuna na proteção social reflete-se diretamente sobre o bem estar da classe trabalhadora. Quase 1,5 milhão de moradores relataram uma piora drástica na capacidade da renda familiar de cobrir as despesas básicas mensais — reflexo imediato do encarecimento do custo de vida, do trabalho informal paralisado e da reposição forçada de bens essenciais perdidos na lama.
O impacto se estendeu também para aquilo que não se pode mensurar em metros quadrados de alvenaria. Também existem as marcas psicológicas deixadas. O trauma do resgate, o medo do retorno da chuva e a incerteza do futuro geraram uma epidemia de sofrimento psíquico. Para agravar o cenário, a comunicação pública falhou: mais de 2,1 milhões de moradores declararam desconhecer qualquer medida preventiva adotada pelo Estado para evitar novas tragédias, e a maioria reprovou as obras de recuperação executadas nas áreas atingidas.
Essa realidade não serve apenas para documentar o passado; eles funcionam como um alerta urgente para o presente. A crise climática não é um “evento natural” imprevisível, mas um processo amplificado por escolhas políticas, falta de planejamento urbano e sucateamento das redes de proteção e escoamento.
Reconstruir o Rio Grande do Sul não pode significar erguer as mesmas estruturas frágeis nos mesmos lugares de risco, tampouco normalizar que a conta da adaptação climática seja paga pelos mais vulneráveis. Exige-se uma reconstrução orientada pela justiça climática, onde o direito à moradia digna, à saúde mental, ao saneamento e à informação transparente seja garantido como política central de Estado — e não como mera promessa de emergência que recua junto com o nível dos rios.
*Moisés Waismann, Rute Henrique da Silva Ferreira e Paula Pinhal de Carlos: professores e pesquisadores da Universidade La Salle.
**Lucimar Fátima Siqueira: pesquisadora da Universidade La Salle.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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Fonte: Brasil de Fato