O que o miriti pode ensinar sobre bioeconomia na Amazônia
Por Carlos Durigan — JOTA Jornalismo – Feed
Todo segundo domingo de outubro, quando Belém recebe milhões de pessoas para o Círio de Nazaré, uma parte da Amazônia também chega à capital paraense representada na forma de barcos, pássaros, cobras e personagens coloridos da cultura paraense. São brinquedos de miriti, produzidos sobretudo por artesãos de Abaetetuba, município do nordeste do Pará.
Leves, coloridos e há décadas associados ao Círio, eles contam uma história que começa bem antes da procissão.
O miriti ou buriti (Mauritia flexuosa) é uma palmeira nativa das áreas úmidas e florestas de várzea da Amazônia e do Cerrado. Conhecida em algumas regiões como “Sentinela das Águas”, a espécie funciona como uma excelente bioindicadora de recursos hídricos, já que a sua presença sinaliza a existência de nascentes, lagos e charcos.
Seus frutos nutritivos são utilizados na alimentação de várias formas, enquanto folhas, fibras e pecíolos (haste que sustenta a folha da palmeira) têm distintas aplicações. Em Abaetetuba, porém, a relação com a espécie ganhou uma expressão particular: o artesanato. Técnicas de extração, beneficiamento e transformação foram desenvolvidas e transmitidas entre gerações, fazendo da palmeira parte da economia, da cultura e da identidade local.
A Feira do Círio está entre os principais espaços de comercialização de artesãos e artesãs, que concentram parte significativa do trabalho e das vendas no período da festividade religiosa.
O percurso do miriti até Belém mostra como a sociobioeconomia articula geração de renda, conservação ambiental e valorização dos saberes tradicionais na Amazônia. O conceito une a economia ecológica à identidade regional, associando os recursos naturais e seus modos de produção aos conhecimentos, práticas e saberes tradicionais dos povos da floresta.
Para que seu talo se transforme em brinquedo, há um conjunto de conhecimentos sobre escolha da matéria-prima, extração, secagem, corte, habilidades na preparação e transformação do material.
Transmitidos pelo acúmulo de experiências e pela convivência comunitária, esses saberes contribuem para a preservação cultural e a autonomia financeira das comunidades, transformando práticas ancestrais em oportunidades de geração de renda sustentável.
As economias baseadas na sociobiodiversidade vão além de transformar recursos naturais em produtos e levá-los ao mercado. Envolvem também reconhecer os conhecimentos de quem vive e trabalha na floresta, entender como a renda gerada é distribuída e garantir condições para que a biodiversidade e os saberes tradicionais sejam preservados.
Conhecimentos e práticas relacionados a esta cadeia produtiva, quando respeitados e valorizados, podem ainda contribuir com o desenvolvimento de novos produtos. É o que uma pesquisa realizada em Abaetetuba abordou, ao testar o uso do talo do miriti como fonte de matéria-prima para a indústria, na produção potencial de um isolante térmico.
O caso demonstra que inovar no desenvolvimento da economia amazônica não significa partir do zero, mas reconhecer, valorizar e respeitar os conhecimentos, as práticas culturais e os modos de vida historicamente associados à sociobiodiversidade.
O desafio está em construir caminhos que integrem esses saberes à ciência, à tecnologia e às novas oportunidades econômicas, assegurando o protagonismo dos povos e comunidades que os desenvolveram e preservaram ao longo de gerações.
Essa perspectiva está alinhada aos princípios estabelecidos pela CBD (Convenção sobre Diversidade Biológica) e pelo Protocolo de Nagoya, que reconhecem a importância dos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade e estabelecem compromissos para garantir o consentimento prévio informado, quando aplicável, e a repartição justa e equitativa dos benefícios derivados de sua utilização.
Assim, devemos reconhecer grupos sociais locais e suas práticas tradicionais como protagonistas da inovação e participantes efetivos dos benefícios econômicos e sociais gerados.
Nesse sentido, o brinquedo vendido durante o Círio é mais sofisticado do que parece. Antes de chegar às mãos de quem percorre as ruas de Belém, existe uma cadeia que envolve ribeirinhos, artesãos e artesãs, famílias e organizações locais. Associações de Abaetetuba atuam na capacitação de jovens, na transmissão das técnicas, no manejo da palmeira e na organização da comercialização. Há, inclusive, iniciativas de aproveitamento das sobras da fibra para produção de papel.
Desenvolver a sociobioeconomia amazônica, para além da bioeconomia pura e simples, agrega elementos de extrema relevância na busca de novos produtos da floresta capazes de conquistar mercados globais. Significa, sobretudo, reconhecer e valorizar o enorme patrimônio de conhecimentos, práticas e tradições que já existe nos territórios, criando condições para transformá-lo em oportunidades de geração de renda, inovação e desenvolvimento local.
Um caminho que deve fortalecer o protagonismo das comunidades, assegurar a distribuição justa dos benefícios e contribuir para a conservação da biodiversidade e da diversidade cultural que sustentam esses modos de vida.
O brinquedo de miriti é leve. Mas o conhecimento, a cultura, a história e o valor que ele carrega têm uma dimensão muito maior do que seu peso pode revelar.
Fonte: JOTA Jornalismo – Feed