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O índice de Dieta Minimamente Diversificada para crianças da FAO, a Agricultura Familiar e Políticas Públicas para uma alimentação saudável

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Por Thiago Lima- Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da UFPB. Membro do IFZ

“O que é que tem na sopa do neném? Será que tem espinafre? Será que tem tomate? Será que tem feijão? Será que tem agrião?” A música do grupo Palavra Cantada provavelmente faz parte da memória de muitos pais, avós e cuidadores. A cantiga brinca com os ingredientes que podem aparecer na alimentação de um bebê e até com aquilo que definitivamente não deveria estar na sopa — como o “chulé”, incluído para provocar o riso das crianças.

Por trás da brincadeira há, porém, uma ideia bastante séria: crianças pequenas precisam de uma alimentação variada e saudável. E, pela primeira vez, essa ideia passou a ser acompanhada de maneira sistemática no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Em março de 2025, a Comissão de Estatística das Nações Unidas aprovou um novo indicador para o ODS 2: a Prevalência de Dieta Minimamente Diversificada, para crianças de 6 a 23 meses e para mulheres de 15 a 49 anos. 

Mas o que significa, afinal, uma Dieta Minimamente Diversificada para uma criança?

O indicador é simples. Considera-se que uma criança alcançou a diversidade alimentar mínima quando, no dia anterior, consumiu alimentos e bebidas pertencentes a pelo menos cinco de oito grupos alimentares: i) leite materno; ii) cereais, raízes, tubérculos e plátanos; iii) feijões, ervilhas, lentilhas, castanhas e sementes; iv) leite e derivados; v) carnes, aves, peixes e vísceras; vi) ovos; vii) frutas e hortaliças ricas em vitamina A; e viii) outras frutas e hortaliças. Não se trata, portanto, de contar calorias ou medir a quantidade consumida, mas de observar a variedade e qualidade da alimentação.

O SOFI 2026, o relatório anual das Nações Unidas sobre o estado da segurança alimentar e nutricional no mundo, mostra por que essa medida é importante. Apenas 30,8% das crianças de 6 a 23 meses no mundo alcançaram a diversidade alimentar mínima no período de 2018 a 2024. Ou seja: mais de dois terços das crianças pequenas não tiveram, no dia anterior à pesquisa, uma alimentação suficientemente diversificada. O dado permanece praticamente estagnado: entre 2011 e 2017, eram 29,4%. Na África, a proporção cai para 20,5%; na Ásia, chega a 34,9%.

Esses são dados muito preocupantes porque a falta de dietas saudáveis são causas diretas de mortalidade prematura por doenças cardiovasculares, infartos, diabetes e até câncer. Soma-se a isso a estimativa de que, globalmente, cerca de 150 milhões de crianças possuam baixos peso e estatura para a idade, 42,8 milhões estejam com desnutrição aguda e que o sobrepeso e a obesidade sejam tendência dominante em crianças com idade escolar, principalmente pelo consumo de ultraprocessados. Neste quesito, aliás, é louvável a iniciativa do governo brasileiro em pautar a regulação da venda de alimentos ultraprocessados e monitoramento da exposição da população a esses produtos na Organização Mundial da Saúde.  

Os dados disponíveis no relatório mostram uma situação melhor que a média mundial, mas ainda distante de um cenário ideal. No Brasil, 63,3% das crianças de 6 a 23 meses alcançaram a diversidade alimentar mínima. Isso significa que aproximadamente quatro em cada dez crianças não chegaram ao patamar considerado mínimo.

O que explicaria essa distância? A renda é sempre uma forte hipótese, afinal, uma alimentação diversificada não custa pouco dinheiro. O relatório SOFI aponta que a alimentação saudável está cada vez mais cara no Brasil e no mundo, resultado de um fenômeno estrutural de inflação dos alimentos. Enquanto isso, os ultraprocessados estão cada vez mais acessíveis à população, inclusive por serem beneficiados por incentivos fiscais diversos, altamente influenciados pelo lobby das indústrias. O alento, para o Brasil, é que mesmo com o encarecimento da alimentação saudável, diminuiu de 28,8% (2017) para 21,1% (2025) a proporção da população que não possui renda para adquiri-la.

De todo modo, provavelmente é insuficiente explicar o problema do acesso de crianças a dietas minimamente diversificadas apenas pela renda.  Precisamos considerar os Desertos e Pântanos alimentares. Desertos alimentares são áreas onde a população tem acesso limitado a estabelecimentos que comercializam alimentos saudáveis e variados. Já os pântanos alimentares são ambientes nos quais existe ampla oferta de alimentos, mas predominam opções pouco saudáveis, ou ultraprocessadas. Assim, mesmo quando há dinheiro disponível, o ambiente alimentar pode dificultar escolhas mais saudáveis. Tempo disponível para preparar alimentos, conhecimento, condições de armazenamento e hábitos alimentares também devem ser importantes nessa equação.

Felizmente, no Brasil, podemos contar com a agricultura familiar, que pode desempenhar um papel estratégico.

O Brasil possui uma enorme diversidade de alimentos produzidos por agricultores e agricultoras familiares. Um estudo sobre o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Compra com Doação Simultânea, identificou 536 diferentes produtos adquiridos entre 2011 e 2018. Entre eles estavam frutas, hortaliças, legumes, raízes, ovos, carnes, cereais e mel, além de produtos da agroindústria familiar e da sociobiodiversidade, como açaí, castanha-do-brasil e azeite de babaçu. (Sambuichi et al., 2023).

A informação é reveladora: o desafio brasileiro não é necessariamente criar diversidade a partir do zero. Parte dessa diversidade já existe nos territórios e pode ser mobilizada por políticas públicas. Mas isso não significa que ela não possa ser ampliada também, com o fortalecimento da agroecologia — diversa por natureza — e de sistemas agroflorestais. Afinal, quantos frutos da floresta amazônica e do Cerrado são completamente desconhecidos dos próprios brasileiros?

Há, contudo, uma questão ainda mais importante do que a produção e a produtividade: fazer com que essa produção diversificada percorra o caminho entre os territórios de produção e o prato.

Programas de compras públicas podem conectar agricultores familiares a escolas, creches, restaurantes, bancos de alimentos e equipamentos públicos de segurança alimentar. Políticas de transferência de renda podem ampliar a capacidade de compra das famílias. Serviços de assistência técnica, abastecimento e infraestrutura podem ajudar a garantir produção diversificada e oferta regulares. E políticas de educação alimentar podem contribuir para transformar disponibilidade em consumo saudável.

A diversidade, portanto, pode começar na agricultura familiar, mas não termina nos estabelecimentos rurais e nas áreas de extrativismo. Ela precisa chegar de forma acessível, regular e sustentável à alimentação das crianças.

Temos políticas públicas para isso? Sim. Mas elas precisam ser ampliadas, revisadas e aperfeiçoadas. A boa notícia é que há conhecimento acumulado para fazer essas políticas funcionarem. O desafio é construir o pacto social que garanta os recursos provenientes dos impostos necessários para isso. Uma solução pode ser enfatizar a Segurança Alimentar e Nutricional das crianças na construção de alianças políticas e, assim, promover transformações nos sistemas agroalimentares para que eles sejam mais agrobiodiversos. De quebra, teríamos benefícios ecológicos e climáticos também! Ou seja, essa aliança política deveria igualmente incluir os atores focados no meio ambiente.

E por que não pensar também em aumentar a tributação sobre produtos ultraprocessados para financiar políticas de promoção da diversidade alimentar das crianças? Além da possível melhoria na saúde dos pequenos e pequenas, o benefício poderia ser percebido no futuro pelas contas públicas. Crianças mais bem alimentadas podem se tornar adultos menos suscetíveis a doenças que oneram o sistema público de saúde e o orçamento das famílias, como diabetes, hipertensão e doenças renais, entre outras. Criar e aprofundar sinergias entre o SUS e a SAN é um promissor.

O novo indicador da Dieta Minimamente Diversificada nos oferece, portanto, uma oportunidade. Podemos perguntar não apenas quanto alimento produzimos, quanto distribuímos ou quanto custa uma dieta saudável, mas também o que efetivamente chega ao prato das crianças. Por um lado, podemos observar e pesquisar os países com índices melhores do que os nossos para saber onde e como podemos melhorar. Por outro, o Brasil pode oferecer cooperação internacional para aqueles que precisam atingir nosso patamar.

A renda importa, claro, mas o Direito Humano à Alimentação Adequada não pode ficar interditado para quem tem menos recursos. Garantir esse direito exige renda, sim, mas também políticas públicas capazes de aproximar produção diversificada, abastecimento, acesso e consumo qualificado.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante seja a mesma da cantiga: o que tem na sopa do neném?

Que tenha feijão. Que tenha tomate. Que tenha carne. Que tenha verduras, ovos e outros alimentos nutritivos. Frutas para sobremesa, por favor. E que a diversidade que existe na agricultura familiar brasileira possa, cada vez mais, chegar à sopa — e ao prato — de todas as crianças.

Referência

Sambuichi, R. H. R., Perin, G., Almeida, A. F. C. S. de, Alves, P. S. C., Araújo, D. G. de, Câmara, R. D. F., & Januário, E. S. (2023). Diversidade de produtos adquiridos pelo Programa de Aquisição de Alimentos no Brasil e regiões. In R. H. R. Sambuichi & S. P. Silva (Eds.), Vinte anos de compras da agricultura familiar: Um marco para as políticas públicas de desenvolvimento rural e segurança alimentar e nutricional no Brasil (pp. 159–167). Ipea. https://doi.org/10.38116/978-65-5635-060-8/capitulo6

Food and Agriculture Organization of the United Nations, International Fund for Agricultural Development, United Nations Children’s Fund, World Food Programme, & World Health Organization. (2026). The state of food security and nutrition in the world 2026: Understanding and addressing the high cost of a healthy diet. FAO. https://doi.org/10.4060/cd8306en

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Fonte: Mídia NINJA

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