O que apostadores e especialistas dizem sobre proibição das bets no país
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Publicado em 19 de Outubro de 2026 às 17:54
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Nos últimos anos, a publicidade das bets estampou camisas dos times mais conhecidos no futebol brasileiro e até virou naming rights de estádios. Também patrocinou provas em reality shows na TV, links nos stories de influenciadores digitais no Instagram e campanhas nas redes sociais. Com os anúncios e as promessas de ganhos financeiros, milhões de brasileiros foram atraídos para o mercado de apostas esportivas. Porém, em vez de lucro, muitos viram o endividamento aumentar e perderam dinheiro com as bets.
Esse “ganha e perde” de dinheiro , porém, mudou desde o fim de setembro, quando foi assinada a m edida p rovisória (MP) que acaba com a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas no país.
R$ 3 bilhões
Valor gasto por 15 das mais de 180 marcas de bet do país em publicidade no último ano, segundo dados do Ibope Advertising Intelligence
Antes mesmo dessa proibição, um apostador profissional, de 30 anos, já havia realizado o saque do dinheiro ganho nas plataformas que utilizava.
“Alguns meses antes, eu já imaginava que uma hora ou outra essa proibição ia acontecer. Por isso, já tinha voltado ao mercado financeiro”, conta o apostador, que prefere não ser identificado.
Natural do Rio de Janeiro e morador de Jardim Camburi, em Vitória, o tipster (analista de palpites) atuou em um grande hub de bets no Brasil, produzindo conteúdos sobre futebol, especialmente o capixaba. Para o apostador, a proibição às bets no país não altera a essência da atividade e o vício não vai deixar de existir com o desligamento das plataformas.
“Antes de as casas acontecerem, eu já jogava na maquininha, no caça-níquel. Ia nos cassinos e jogava na roleta, no carteado. Enfim, a aposta sempre vai acontecer e não vai parar”, afirma.
Até a proibição, o estudante universitário I., de 21 anos, mantinha uma rotina de apostas, mas evitava jogar grandes valores. “Apostava uns dez reais, no máximo 200, em jogos de futebol e alguns eventos de MMA. Mais do que isso, achava muito. Talvez por isso eu não sentia angústia ou sintomas de ficar mais reativo, como se fosse vício, mas alguns amigos apostaram tanto que acabaram se perdendo. É triste”, relata.
O estudante afirma que seguia os conselhos do pai, com quem assiste aos jogos de futebol, para manter o controle na hora de apostar.
“A aposta é muita ilusão. Nunca foi tabu falar disso em casa. Meu pai sempre alertava sobre os perigos. Mas meus amigos tiravam renda das bets e viam oportunidade de aumentar a renda. Em alguns meses, ganhavam. Em outros, perdiam. Nunca foi uma segurança. Como o próprio nome diz, é uma aposta. É arriscado.”
25,2 milhões
O presidente do Sindicato dos Economistas e professor do Centro Universitário do Espírito Santo, Sebastião Demuner, lembra que a dinâmica financeira das plataformas segue uma lógica própria, em que o apostador paga a conta no final.
“Existe uma frase célebre: a banca nunca perde. Se o governo brasileiro ganha com a arrecadação de impostos, se os clubes de futebol ganham com patrocínio, se as empresas de bet ganham com a lucratividade, quem paga a conta? É exatamente a população brasileira que está se endividando para isso.”
O economista observa que, sem as bets, os valores que seriam destinados às apostas deverão voltar a gir ar dentro do país, nos comércios e em empreendimentos.
“O impacto de uma proibição é temporário. O dinheiro não some, só muda de lugar de circulação. O governo vai perder a arrecadação desses impostos, mas vai buscar em outro lugar. E os clubes de futebol vão encontrar outras fontes de patrocínio. Então, tudo vai se resolver. São perdas consideráveis, mas tudo é ajustável. A única coisa que não é ajustável é o endividamento das famílias”, observa Demuner.
O pesquisador Deivison Souza Cruz, cientista político do Núcleo de Estudos Indiciários da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), destaca que a sustentação das medidas de proibição às bets ainda pode depender do cenário político, em função do período eleitoral.
Deivison lembra que a medida provisória que proíbe as bets ainda precisará ser analisada no prazo de 120 dias, até janeiro de 2027, para se tornar lei em definitivo. Assim, ainda que o governo federal já esteja aplicando as regras, os parlamentares têm, no Congresso, a possibilidade de reescrever o texto, criar novas barreiras ou reduzir exigências impostas às plataformas de apostas.
“Afirmar que é o fim das bets soa um tanto quanto ingênuo. Assim como houve bets ilegais, elas vão continuar persistindo. O que a MP e/ou a sua aprovação determinam é o poder do Estado de agir bloqueando os sites que oferecem esse serviço”, analisa.
Além das questões políticas e econômicas sobre a medida, especialistas apontam para o impacto das apostas no cotidiano familiar. Sociólogo e subsecretário de Estado de Políticas sobre Drogas, Carlos Lopes explica que o crescimento das bets está ligado aos hábitos de consumo da sociedade.
“Quando falamos de bet, estamos tratando de desejo, mobilidade e ascensão social. Com a promessa de dinheiro fácil encampada por influenciadores e jogadores de futebol, nas propagandas de bets, a mensagem que chega é a de que existe um atalho para ter acesso aos bens que a sociedade exige”, analisa Lopes.
Para ele, a ilusão do ganho fácil ignora a lógica estrutural de que “para alguém ganhar, é preciso que muitos percam”.
O vício em apostas levou mais de 250 pessoas a serem atendidas pela Rede Abraço, que oferece acolhimento a quem busca tratamento para dependência de apostas on-line e jogos de azar. O programa do governo do Espírito Santo passou a contar com o serviço em janeiro deste ano.
Com 650 procedimentos terapêuticos realizados entre janeiro e agosto deste ano, o perfil predominante dos atendidos é composto por 69,6% de homens, na faixa etária de 25 a 34 anos, com ensino médio completo e renda mensal de até um salário mínimo (R$ 1.621). O mês de julho, período da Copa do Mundo de futebol, registrou o pico de procura.
“A ilusão do dinheiro fácil propagada por figuras públicas, como grandes jogadores de futebol, atinge diretamente o cidadão comum, criando um cenário em que a dependência só é admitida quando os indivíduos já chegaram ao fundo do poço”, explica Lopes.
A Rede Abraço realiza atendimento gratuito em três centros do Estado, sem necessidade de encaminhamento prévio ou agendamento. O funcionamento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h.
CAAD Vitória (Região Metropolitana): Rua Treze de Maio, 47 – Centro de Vitória. Telefones: 0800 028 1028 / WhatsApp: (27) 3636-6200.
CAAD Cachoeiro de Itapemirim (Região Sul): Rua Dr. Raulino de Oliveira, 56 – Centro. Telefone: (28) 3028-2784.
CAAD Linhares (Região Norte): Avenida Hans Schmoger, 333 – Bairro Conceição. Telefone: (27) 3150-2845.
Logo após a divulgação da MP que proíbe as bets no país, as operadoras de apostas licenciadas no Brasil divulgaram um comunicado em que afirmam que a medida levaria os apostadores para plataformas clandestinas e reduziria a proteção dos usuários.
“A proibição não acaba com as apostas no Brasil, mas com a proteção de quem aposta”, afirma o texto intitulado “Proibir não é proteger”, da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR).
Confira o documento abaixo na íntegra.
Associação Nacional de Jogos e Loterias e Instituto Brasileiro de Jogo Responsável
‘Desrespeito a investimentos realizados’
Menos de dois anos após o maior avanço no mercado de apostas visto no país, o Brasil decidiu retroceder à posição que ocupava em 2018 e acabar com as bets legalizadas, jogando mais de 30 milhões de apostadores nas mãos de milhares de sites ilegais.
Essa é a avaliação da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) sobre a medida provisória publicada pelo governo federal.
Em um movimento jamais visto internacionalmente pela indústria, objetivando tão somente um suposto ganho eleitoral na corrida à Presidência da República, o país aniquila princípios constitucionais, como a livre iniciativa e a dignidade da pessoa humana, essa última em função da facilitação à migração dos apostadores para o mercado ilegal.
Como se não bastassem todas essas consequências nefastas, o país transmite o recado de total desrespeito a uma série de investimentos realizados e ao cumprimento, pelas bets, de todas as contrapartidas fixadas pela legislação, entre elas, o pagamento de outorgas que previam direito à exploração dos serviços de apostas pelo período de cinco anos. Um cenário que não leva a outra conclusão de investidores internacionais senão a de completa insegurança jurídica.
A decisão de acabar da noite para o dia com uma indústria inteira – que demandou contratações de milhares de profissionais brasileiros, instalação de escritórios, promoção de inúmeros eventos beneficiando uma extensa cadeia de trabalhadores – elimina, ainda, uma arrecadação tributária que, só no primeiro semestre de 2026, atingiu quase R$ 10 bilhões.
Recursos que deixarão de ir para a saúde, a previdência social, o esporte, a segurança pública, entre outros setores beneficiados.
Diante da perplexidade das empresas associadas à ANJL, a associação afirma que já está adotando as providências cabíveis para reverter a Medida Provisória, levando o caso à Justiça.
“A outorga significa uma contrapartida paga pelas empresas para a exploração do serviço de apostas de quota fixa por cinco anos. E o pedido de ressarcimento abrangeria não apenas os R$ 30 milhões, mas também indenizações por danos materiais, em função de todos os investimentos feitos pelo setor no país, e danos morais”, explicou Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL.
Este conteúdo foi produzido por Camila Leão, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação dos editores Mikaella Campos e Weber Caldas.
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