O que a crise climática revela sobre o capitalismo

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Por Rodrigo Martins — Carta Capital

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Em vez de superar o extrativismo, a chamada transição energética o reorganiza e o aprofunda, mantendo fronteiras coloniais de acumulação

Painéis solares precisam de cobalto. Carros elétricos precisam de lítio. Data centers precisam de terra, água e quantidades enormes de energia. A chamada “transição verde” não está substituindo a velha ordem extrativista — está apenas dando a ela um novo nome. É o que argumenta a nova coleção internacional Empire of Extraction: Capital, Crisis, and Struggles for Climate Justice, publicada pela Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil e no Paraguai, em parceria com a Editora Funilaria, com estudos de caso da América Latina, Europa, África, Ásia e Estados Unidos.

A emergência climática é o maior desafio político do século XXI. A narrativa dominante a apresenta como uma corrida entre catástrofe e transição: de um lado, os combustíveis fósseis, ligados a um passado destrutivo; de outro, as energias renováveis e a inovação digital, prometendo um futuro sustentável.

Mas essa não é a história completa. O que está de fato emergindo não é uma ordem pós-extrativista — é um novo regime de acumulação. A demanda por minerais críticos disparou, puxada simultaneamente pelas tecnologias renováveis, pela inteligência artificial, pelo rearmamento militar e pela intensificação da disputa geopolítica.

Megaprojetos de energia se espalham pelo globo, os mercados de carbono transformam a natureza em ativo financeiro, e a infraestrutura digital multiplica a demanda por eletricidade, água e minerais. Em vez de superar o extrativismo, a chamada transição energética o reorganiza e o aprofunda — mantendo fronteiras coloniais de acumulação sob o pretexto da descarbonização, da segurança e do progresso tecnológico.

É desse paradoxo o ponto de partida da coleção Empire of Extraction, reunida em quatro volumes. Seus ensaios sugerem uma resposta incômoda: o extrativismo deixou de ser apenas um setor econômico associado a minas e poços de petróleo. Tornou-se um modo de organização capitalista que conecta finanças, energia, tecnologia, território e poder político para se apropriar de valor — enquanto externaliza os custos sociais e ecológicos. A extração, hoje, não se limita à retirada de recursos naturais: alcança também a terra, a receita pública, o trabalho, os dados e a soberania política.

É esse conjunto de conexões que o conceito de “império da extração” busca tornar visível como parte de um único processo histórico. O termo “império”, aqui, não descreve um país específico, tampouco um centro de comando único e homogêneo. Ele nomeia uma arquitetura desigual, na qual corporações, instituições financeiras e países ricos moldam como recursos, receitas e riscos circulam pelo mundo. Economias enriquecidas pelo colonialismo e pela industrialização fóssil continuam no controle das finanças e da tecnologia, enquanto as comunidades menos responsáveis pelo aquecimento global se tornam fornecedoras de minerais, sumidouros de carbono, pagadoras de dívidas e zonas de sacrifício.

Mas essas dinâmicas também produzem resistência. Comunidades ao redor do mundo contestam minas, data centers, plataformas offshore e projetos de carbono, porque vivem a transição energética como uma disputa concreta por água, trabalho, terra e futuro. Campanhas por justiça fiscal, demandas por cancelamento de dívida e reparação, e movimentos por soberania energética desafiam a ideia de que o mercado deveria ser quem decide os rumos da ação climática.

Ao conectar domínios que pareciam separados, a coleção Empire of Extraction oferece uma chave de leitura para o problema que está emergindo — e um convite para imaginar uma transição energética organizada em torno da justiça social, da soberania e do cuidado democrático.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Philip Degenhardt

Diretor-executivo adjunto do Centre for International Dialogue and Cooperation e chefe de divisão na Fundação Rosa Luxemburgo, instituição alemã sem fins lucrativos vinculada ao partido Die Linke (A Esquerda)

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Fonte: Carta Capital

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