O problema de Flávio Bolsonaro agora é convencer que está dizendo a verdade
Por Amanda Prado — ICL Notícias
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Por Cleber Lourenço
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desenvolveu nos últimos meses uma relação peculiar com os fatos. Primeiro ele apresenta uma versão. Depois aparece um documento. Então surge uma nova versão capaz de acomodar o documento que não existia quando a primeira versão foi apresentada.
Com Daniel Vorcaro foi assim.
Quando seu telefone apareceu entre os contatos do banqueiro, Flávio disse que não o conhecia.
Conhecia.
Depois apareceram mensagens, encontros e negociações. Nas conversas reveladas posteriormente, havia até tratamento de “irmão” e “irmãozão”.
A língua portuguesa é bastante rica, mas “irmãozão” ainda não virou sinônimo de “nunca vi mais gordo”.
Quando surgiram informações sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, por Vorcaro, Flávio respondeu: “É mentira, pelo amor de Deus”.
O apelo ao Altíssimo durou pouco.
Depois que as conversas foram publicadas, Flávio reconheceu a relação. A discussão mudou: já não era mais se Vorcaro havia colocado dinheiro no negócio, mas se havia alguma irregularidade nisso.
É um método interessante de esclarecimento. Primeiro o fato não existe. Quando aparece, não tem nada demais.
Flávio também afirmou que o último pagamento relacionado ao filme havia ocorrido em maio de 2025. Depois surgiu uma transferência de US$ 1,66 milhão feita em setembro daquele ano para o fundo americano usado no financiamento de Dark Horse.
Até o calendário resolveu entrar na oposição.
E então veio o avião.
“Nunca entrei em avião do Vorcaro”, disse Flávio.
Nesta semana, veio a público que ele, a mulher e as duas filhas viajaram, em janeiro de 2025, dos Estados Unidos para Brasília num Legacy 650 do qual um terço pertencia à Prime You, empresa que tinha Vorcaro como sócio naquele momento.
Willer Tomaz, amigo de Flávio e também proprietário de um terço da aeronave, afirma que foi ele quem disponibilizou e pagou o voo. Não há prova de que Vorcaro tenha oferecido a viagem.
Mas Flávio não havia dito que nunca ganhou uma passagem de Vorcaro.
Disse que nunca entrou em avião de Vorcaro.
Outra frase categórica acabou precisando de nota de rodapé.
Velhos conhecidos
O problema é que personagens inconvenientes não começaram a aparecer na biografia política de Flávio com Daniel Vorcaro.
Quando era deputado estadual, ele homenageou Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do Escritório do Crime. Em 2005, concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes, principal honraria da Assembleia Legislativa do Rio.
A mãe e a então mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio.
Outro policial homenageado pelo então deputado, Ronald Paulo Alves Pereira, seria posteriormente apontado como liderança de milícia e preso na Operação Intocáveis.
Mais recentemente surgiu Robson Calixto Fonseca, o Peixe, condenado por integrar a organização armada ligada aos irmãos Brazão no caso Marielle Franco.
Em 2023, Peixe negociou com uma assessora de Flávio recursos para o Instituto Fair Play. Mensagens mostram a assessora orientando-o a reforçar o pedido pessoalmente com o senador. Naquele ano, o instituto recebeu R$ 199.999,79 de uma emenda de Flávio.
A defesa afirma que a destinação obedeceu à legislação e aos critérios técnicos do Ministério do Esporte.
Nada disso prova que Flávio Bolsonaro integre uma milícia.
Mas existe um momento em que a palavra “coincidência” começa a pedir adicional por hora extra.
Dark Horse acrescentou outra vizinhança desconfortável.
Karina Gama, responsável pela produtora do filme, também preside o Instituto Conhecer Brasil, contratado para atuar no programa de Wi-Fi público da Prefeitura de São Paulo.
O instituto contratou a Favela Conectada, ligada a Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado por órgãos policiais e pelo Ministério Público como integrante relevante do PCC. Ele nega pertencer à facção.
A Polícia Federal investiga os fluxos financeiros. Não há prova de relação direta entre Flávio e o PCC nem de que dinheiro público destinado ao Wi-Fi tenha financiado Dark Horse.
Não é preciso inventar conexões.
As documentadas já são suficientemente constrangedoras.
Some-se a isso Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, apontado pela PF como personagem da estrutura de intimidação e monitoramento ligada a Vorcaro. Uma fotografia mostrou Flávio ao lado dele.
Uma foto não demonstra relação pessoal entre duas pessoas. Político tira fotografia com desconhecido o tempo inteiro.
O problema foi Flávio dizer que a imagem era produzida por inteligência artificial.
Não era.
Talvez a inteligência recomendasse não ter dito isso.
E então veio Nossa Senhora
Depois de Vorcaro, Dark Horse, avião, Sicário, milicianos e PCC entrando pelas bordas da mesma história, faltava alguma coisa.
Apareceu Nossa Senhora Aparecida.
Uma informação falsa passou a circular dizendo que Flávio pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil. A história cresceu, alcançou eleitores católicos e obrigou a campanha a reagir.
Flávio negou.
E, desta vez, a acusação contra ele não encontra respaldo nos fatos.
É aí que a história fica interessante.
Porque Flávio chegou justamente ao momento em que precisava que o eleitor acreditasse imediatamente em sua palavra depois de passar meses ensinando esse mesmo eleitor a esperar pelo próximo documento.
Disse que não conhecia Vorcaro. Apareceram as mensagens.
Negou as conversas. Admitiu depois.
Disse que o último pagamento fora em maio. Apareceu um pagamento em setembro.
Disse que nunca havia entrado em avião de Vorcaro. Apareceu o voo.
Disse que a fotografia com Sicário era inteligência artificial. Não era.
Agora diz que não pretende mexer no título de Nossa Senhora Aparecida.
Não há evidência de que pretenda.
Mas credibilidade tem uma característica desagradável: não pode ser convocada apenas quando chega a emergência.
A mentira sobre Nossa Senhora não foi criada por Flávio Bolsonaro.
A dúvida sobre a palavra de Flávio Bolsonaro, porém, tem uma história bem mais longa.
Depois de meses em que suas certezas foram sendo sucessivamente corrigidas por mensagens, documentos, pagamentos e registros, não é de espantar que agora parte dos eleitores ouça mais uma negativa do candidato e resolva esperar.
Não por um milagre.
Pelo próximo documento.
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Fonte: ICL Notícias




