O mundo parou para ouvir
Por Ronaldo Lima Lins — Brasil 247
“A história é um pesadelo do qual eu tento me libertar”. Assim pensava Stephen Dedalus, o personagem de Joyce, em Ulisses, enquanto passeava pelas ruas de Dublin. A Irlanda, país com suas agruras e angústias, não lhe saía da mente. O imperialismo inglês, pontuado por indescritíveis crueldades, lhe ocupava as preocupações. Nós, brasileiros, também lidamos com pesadelos para nos libertar. Herdamos os fantasmas dos massacres dos índios e da escravização dos negros, para não falar de regimes autoritários e insistentes desequilíbrios sociais. Claro que não nos submergimos a cada instante por causa de semelhantes obsessões. Há momentos de evocar e de olvidar. Períodos eleitorais nos devolvem a nossas inquietações fundamentais. Eventualmente, temos de pausar, senão com a ideia de as solucionar, pelo menos para imaginar saídas.
Como agora estamos diante de duas propostas, o pesadelo, inescapavelmente, se concentra numa delas. Lula já provou o que é e o que pretende fazer. Possui bagagem e biografia. O outro? Bom. É melhor não mencionar.
Na ONU, o mundo parou para ouvir o nosso presidente. É estimulante saber que acumulou respeitabilidade ao longo dos anos, fruto de seu trabalho. Quanto ao outro, o 01, chega a espantar a sua capacidade de mentir, para não citar as teses antipatrióticas que defende aos quatro ventos. É de supor o que fará se, por acaso, vier a ocupar o Palácio do Planalto. Assistimos a uma situação em que nenhuma astúcia parece bastante para transformar um quadro ruim numa espécie falsificada de herói, um medíocre num administrado capaz. Só por nos aproximar dele antevemos o desastre que pode nos aguardar.
Joyce tinha razão. Todos os povos têm seus pesadelos, alguns mais agudos, outros menos angustiantes. A Assembleia Geral das Nações Unidas demonstrou o que afirmamos acima quando os participantes se retiraram em peso do plenário em protesto contra o discurso de Netanyahu. Ouvi-lo significava reviver o genocídio dos palestinos. E o contexto internacional se sente cansado, esgotado, de presenciar, dando de ombros, frente a morticínios.
Faz parte das funções da cidadania, quando chamada a agir, verificar como proceder diante dos dilemas que se lhe colocam. Sempre há solução para as encruzilhadas que se armam em seu caminho. Saber escolher representa uma arte. Embora não haja fórmulas mágicas para decifrar destinos, existem acervos críticos que nos impõem certos atalhos. Afinal, erros cometemos mais do que o suficiente.
Pesadelos! De fato, precisamos deles nos libertar. Até por instinto de sobrevivência algo nos diz em quem votar. E não se trata de sorte. Trata-se de prudência.
Fonte: Brasil 247