Por João Lister — Brasil 247

O auditório está cheio. Vieram pessoas preocupadas com a vida: o salário que termina antes do mês, a consulta que demora, o filho que precisa de trabalho, o medo de voltar para casa. À frente, um palestrante organiza os papéis. Trouxe números, informações, exemplos. Sabe que os problemas são difíceis e procura explicá-los sem fazer da dificuldade um espetáculo.

No fundo da sala, porém, há um moleque.

O palestrante começa a falar de saúde. O moleque solta uma gracinha. Tenta explicar uma questão econômica. Vem outra provocação. Apresenta um dado. Recebe uma insinuação. Algumas pessoas riem, outras se incomodam. O assunto fica suspenso, esperando que a conversa possa recomeçar.

O moleque percebe que consegue comandar a atenção sem precisar estudar a matéria.

Basta escolher o instante da interrupção. Quando o raciocínio começa a ganhar corpo, ele o atravessa com uma piada. Quando surge uma pergunta difícil, oferece uma provocação. Se o palestrante se irrita, melhor ainda: pode exibir a irritação que ajudou a produzir como se fosse uma vitória intelectual.

Foi essa a imagem que me ocorreu diante da participação de Flávio Bolsonaro no debate da Bandeirantes, na noite de domingo.

A desenvoltura para provocar ocupava o espaço em que se esperava encontrar disposição para discutir o país. O sorriso parecia chegar antes da resposta; a próxima alfinetada parecia importar mais que o desenvolvimento do assunto. Para quem aguardava uma discussão séria dos problemas nacionais, ficava a sensação de assistir ao moleque do fundo da sala, agora instalado diante de um microfone.

Há uma diferença enorme entre fazer uma pergunta incômoda e trabalhar para que nenhuma resposta possa ser ouvida. A primeira atitude pode esclarecer o público. A segunda consome o tempo de todos.

Na cena do auditório, o palestrante também enfrenta uma armadilha. Se continua a exposição, a provocação fica circulando pela sala. Se responde, abandona por alguns instantes o tema que levou as pessoas até ali. Se perde a paciência, o moleque abre os braços, satisfeito, como quem acaba de demonstrar alguma coisa.

Enquanto isso, a mulher que queria entender a fila do hospital continua sem resposta. O trabalhador interessado no salário espera. O jovem que procura uma perspectiva de futuro assiste a mais uma troca de ataques.

É esse desperdício que torna a molecagem tão grave quando ela sobe a um palco presidencial. O tempo gasto com a gracinha é tempo retirado de uma discussão que diz respeito à vida de milhões de pessoas.

Ao fim, pode até haver quem comemore: “Você viu como ele provocou?”

Vi. O que procurei, por trás da provocação, foi uma proposta suficientemente desenvolvida para ser examinada, uma ideia sustentada até o fim, algum sinal de que os problemas brasileiros mereciam mais atenção que a oportunidade de constranger o adversário.

O moleque do fundo da sala pode sair satisfeito por ter atrapalhado a palestra.

Mas, quando pretende governar o país, precisa explicar o que fará depois que o auditório parar de rir.

Fonte: Brasil 247

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