O gaúcho vem dos guaranis
Por Vicente Rauber — Brasil de Fato
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Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.
Vicente Rauber*
Claudio Knierim**
20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul (RS) desde 1953, assim definido pela Lei Estadual nº 9.072, posteriormente respaldado como feriado pela Lei Federal 9.093/95 e confirmado na Constituição Estadual do RS como Data Magna.
É o Dia do Gaúcho. Este personagem tido como habitante do Pampa, mas que ultrapassa as fronteiras do RS, presente no Uruguai, Argentina e Paraguai e outros estados, especialmente no oeste de Santa Catarina e Paraná e Mato Grosso do Sul.
Muitas qualidades são reverenciadas ao gaúcho, entre as quais destacamos: a coragem e a bravura, moldadas em séculos de lutas e guerras, em especial a Guerra Guaranítica e a Revolução Farroupilha, até a atual definição geográfica no sul da América do Sul. A liberdade, a justiça e um senso de autonomia, motivo da revolta contra o império; hoje mantido sem dúvida de integrarmos a nação brasileira (somos gaúchos e brasileiros). A hospitalidade e a solidariedade, ou seja, acolher bem, cultivar a amizade e a união em terras sulriograndenses e pampeanas; digamos que estes aspectos estejam um tanto abalroados nestes tempos de forte individualismo.
O que continua forte é o sentimento de pertencimento, a valorização da história e o cultivo das tradições, em especial nas artes, vestimentas e gastronomia.
As características e costumes do gaúcho tem origem fundamentalmente nos povos originários guaranis e contribuições importantes dos Charruas e outros povos, além dos negros.
O Dia do Gaúcho é comemorado em muitas cidades do RS, nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e principalmente nos Acampamentos Farroupilhas, conjunto de edificações de madeira, denominados de piquetes, montadas desde o final de agosto por entidades tradicionalistas. Nestes locais são cultuados os costumes gaúchos como a gastronomia a música regional, as danças tradicionalistas, oficinas, palestras e debates. Não pode faltar o chimarrão, o churrasco e o carreteiro.
A abertura oficial dos Acampamentos e festejos farroupilhas ocorre com o acendimento da Chama Crioula, que surgiu em 7 de setembro de 1947, um grupo de estudantes, liderados por Paixão Côrtes, retiraram e levaram-na até Colégio Júlio de Castilhos, tradicional Julinho, uma centelha do Fogo Simbólico da Pátria, que também foi criada em Porto Alegre, inspirada nos Jogos Olímpicos de Berlim, de 1936.
O principal Acampamento Farroupilha é o de Porto Alegre, neste ano em funcionamento desde 29 de agosto até 20 de setembro, com 236 piquetes e expectativa de 2 milhões de pessoas participantes.
A temática dos festejos Farroupilha deste ano, oportunamente é: “Herança Jesuítica e Guarani no RS: 400 anos de cultura e tradição”. Os 400 anos referem-se ao início dos aldeamentos e reduções dos Guaranis realizados por padres jesuítas (da Companhia de Jesus) na América do Sul. No caso trata-se do Aldeamento ou Redução de São Nicolau, fundado pelo Padre Roque Gonzales.
Ainda que este processo não tenha sido completamente pacífico e consensual, tratou-se de uma rica experiência integrando os amplos conhecimentos indígenas com produtos e funções europeias. Ao contrário do ataque e expulsão dos indígenas, regra de nossa ocupação territorial, nesta oportunidade tratou-se de um desenvolvimento integrado que tristemente acabou com o a expulsão dos padres jesuítas das Américas realizados e ataque aos indígenas pelos impérios espanhol e português.
Ali moldaram-se as principais características e costumes do gaúcho. E não foi apenas bom churrasco e chimarrão! Um significativo conjunto de experiências e práticas do gauchismo que trataremos em nosso próximo artigo, já se manifestavam nesses espaços das reduções jesuíticas.
O 20 de setembro refere-se ao início da Revolução Farroupilha, em 1835, quando os rebeldes tomaram Porto Alegre. A capital foi retomada a seguir pelo Império, inclusive tendo recebido o título de “Mui leal e valorosa”, que conserva até hoje.
O principal líder farroupilha foi um graduado militar do exército imperial, em 1834 nomeado como Comandante Superior da Guarda Nacional na Província de São Pedro do RS, obviamente destituído da função a seguir. Era ainda um exímio articulador político e fazendeiro.
A Revolução Farroupilha foram 10 anos de luta contra o império e a favor da república
Foram 10 anos de guerra contra o império, a maior guerra civil-militar interna do Brasil. Ocorreram mais de 50 combates e a morte e mais de 3000 pessoas, a maioria de farrapos (como eram pejorativamente designados pelo império brasileiro todos os liberais republicanos que se revoltavam contra a monarquia).
A motivação mais direta eram os altos impostos sobre o charque (carne desossada, secada ao sol, tendo como conservante grande quantidade de sal) contra baixos impostos de importação do produto vindo do Uruguai e da Argentina. Ainda havia muito descontentamento com a nomeação pelo Império dos Presidentes da Província de São Pedro (atual RS).
Em 1832, em Porto Alegre, um núcleo de republicanos, secretamente, fundou o Partido Farroupilha, que articularia a Revolução, que depois de uma grande vitória contra o exército do império, em 11 de setembro de 1836 tomou um rumo mais radical, quando o então Coronel Antônio de Souza Netto proclamou a República Rio-grandense como um país livre e independente.
Não foi uma mera guerra de “gaúchos contra o Brasil”. Ao lado dos Farroupilhas lutaram baianos, cariocas, paraenses, italianos, uruguaios e estadunidenses, todos motivados pelos ideais do movimento republicano.
A guerra não era novidade em nossa Província: há mais de três séculos o cone sul da América do Sul foi disputado pelas coroas portuguesa e espanhola.
Algumas lideranças farroupilhas eram separatistas e inicialmente todas eram republicanas.
A Revolução Farroupilha teve inspiração nos movimentos liberais antimonarquistas estadunidense, europeus e em outras províncias do Brasil, o que explica a presença de agentes de outros estados e países nesse conflito.
A Revolução Farroupilha foi a maior guerra civil a favor da República ocorrida no Brasil.
As lideranças da Revolução Farroupilha eram uma parte da elite econômica e intelectuais da Província. Os soldados eram constituídos pelo povo. O gaúcho, até então entendido como nômade, “ladrão de gado”, agora era um peão das estâncias e foi para a guerra tornando-se um soldado digno e honrado.
As mulheres, pouco citadas, cumpriram funções essenciais, cuidando das propriedades enquanto os homens guerreavam, sustentavam as famílias e nos combates atuavam como vivandeiras, cozinheiras e serviços de enfermagem. No combate direto destacou-se Anita Garibaldi, o símbolo de bravura da Revolução, depois também reconhecida nas lutas de unificação da Itália.
Os negros foram organizados em vários batalhões de infantaria e de cavalaria denominados Lanceiros Negros, sendo decisivos em vários combates. A eles foi prometida a liberdade se entrassem na Guerra. Havia entre os farroupilhas oficiais e suboficiais negros.
A partir de 1844, não tendo mais como resistir à superioridade militar imperial, os farroupilhas começaram a negociar com o então Barão de Caxias, um acordo. Como resolver a situação dos negros, como o Império poderia admitir a liberdade deles numa província isolada?
Então ocorreu a última batalha da Revolução. Os Lanceiros Negros estavam acampados em Porongos, foram desarmados e, a seguir, atacados e literalmente trucidados pelos imperiais, com a morte de aproximadamente 110 e a prisão de outros trezentos, incluindo alguns oficiais.
Em 1º de março de 1845 foi assinado o Acordo de Ponche Verde no Distrito do atual município de Dom Pedrito, fronteira com o Uruguai). Bento Gonçalves, doente, já havia se retirado do comando da Revolução.
O Acordo foi honroso, justo e favorável aos farroupilhas, sem ser prejudicial ao Império que manteve aqueles militares farroupilhas experientes nos combates, incorporados ao Exército do Império para a proteção das nossas fronteiras. Os soldados negros sobreviventes que combateram ao lado dos farroupilhas foram compulsoriamente transferidos para uma unidade militar do Rio de Janeiro, enquanto outros fugiram para o Uruguai. Esta é a página execrável da Revolução Farroupilha.
A República desejada pelos farroupilhas foi proclamada 49 anos depois, em 1889. O importante legado do evento histórico e das narrativas construídas posteriormente foram os valores da justiça, dignidade, bravura, resistência e altivez, tão necessários ao Brasil justo e sustentável que precisamos continuar construindo.
*Engenheiro Especialista em Planejamento Energético e Ambiental.
**Claudio Knierim é historiador.
**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato