O fim das bets e a chance de o Brasil recuperar o que perdeu
Por Tathyane Melo — Jornal Opção

Enquanto navegava pela internet após a decisão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de proibir as famosas “bets” na sexta-feira, 25, dava para notar um contraste em que, de um lado, está felicidade de quem nunca se deixou explorar nem foi corroído pelas apostas online, comemorando o anúncio e já sonhando com um futebol brasileiro livre da influência das bets, e de outro, o choro de quem lamenta o fim de um vício que vinha adoecendo o país. E convenhamos, a reação de quem sente falta das bets diz muito mais sobre o próprio caráter do que sobre qualquer suposta “liberdade” perdida.
Faltando dez dias para a eleição, o presidente teve o peito de tomar uma decisão que poucos políticos ousariam em plena reta final de campanha. A Medida Provisória nº 1.394/2026 proíbe, em todo o território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, alcançando tanto o meio físico quanto o virtual, o esporte e os jogos on-line. Depois de oito anos de idas e vindas regulatórias, o Brasil finalmente decidiu encerrar um ciclo que começou em 2018, sob o governo Temer, quando a Lei 13.756 autorizou a modalidade sem estabelecer as regras que evitariam seus excessos.
Entre 2019 e 2022, o mercado cresceu praticamente sem controle, até que o próprio governo Lula, já em 2023, tentasse organizar a bagunça por meio da Lei 14.790. Em seguida, vieram a criação da Secretaria de Prêmios e Apostas, em 2024, e a entrada oficial do setor na era regulada, em janeiro de 2025, com os sites “.bet.br”. Esse modelo recém-formalizado durou pouco, até porque todos viram que o problema era bem mais enraizado na vida do povo brasileiro.
E os números explicam por que essa reviravolta faz sentido. Segundo o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras somente em 2025, cerca de 0,68% da renda disponível do país. Entre outubro de 2024 e março de 2026, a saída líquida média chegou a R$ 4,7 bilhões por mês, dinheiro que saiu do bolso do apostador e não voltou.
Como destaca o próprio estudo, “esse montante representa uma transferência expressiva de renda das famílias para esse setor, com potencial impacto sobre sua capacidade de honrar compromissos financeiros”. Diferentemente do consumo de bens e serviços, esses recursos geraram pouco efeito multiplicador: menos emprego, menos renda circulando, menos atividade econômica real.
O fim das bets é positiva também para aqueles que amam o mundo esportivo, a novidade abre uma perspectiva que muitos torcedores já vinham pedindo. Nos últimos anos, o futebol masculino brasileiro foi tomado por patrocínios master de casas de apostas, contratos de naming rights e marcas estampadas nos uniformes, um cenário que, para boa parte da torcida, associava-se ao enfraquecimento do esporte, com jogadores mais preocupados em circular entre clubes estrangeiros e negócios paralelos do que em vestir a camisa com paixão.
Não à toa, memes viralizaram nas redes sugerindo que “a dignidade do futebol foi restaurada” e brincando que, sem a tentação das bets, atletas como Lucas Paquetá, envolvido em investigações de manipulação de apostas na Europa, poderiam finalmente se dedicar de corpo e alma à bola. Há até quem já projete o hexacampeonato: “e quando o Brasil ganhar a Copa do Mundo em 2030 e todo mundo agradecer ao Lula pelo fim das bets e reconstrução do futebol brasileiro”.
Parece que o Brasil aprendeu, ainda que tarde, uma lição sobre saúde mental, economia e cultura esportiva: nem todo crescimento vale a pena quando o preço é o endividamento de milhões de famílias. O fim das bets pode ser o início de uma reconstrução do próprio relacionamento do país com o dinheiro e com o entretenimento.
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Fonte: Jornal Opção