Por Ronaldo Lima Lins — Brasil 247

Há indivíduos que representam grupos, bairros, comunidades inteiras, nações. São pessoas com talentos especiais, como se viessem ao mundo com missões previamente determinadas. Sistemas políticos, com lideranças específicas preveem isso, com dispositivos desenvolvidos para que a opção se mostre correta. Trata-se de um desafio que a literatura, desde a antiguidade, abordou com audácia e habilidade. Lembremos o exemplo de Ulisses, na Odisseia, quando precisa navegar próximo da ilha das criaturas míticas. Ali se prometia onisciência e conhecimento absoluto. A perspectiva de se aproximar e escutar o canto que emitiam era de extrema sedução. O grande herói manda a seus liderados que tapem os ouvidos. Caso contrário terminariam no fundo do mar. A si mesmo, determina que o amarrem no alto do mastro para usufruir do canto e poder aprender com ele, sem riscos.   Isto porque um chefe tem de discernir o que fazer e como fazer. O canto trabalhava com o desafio sobre os perigos do desejo. 

Nas eleições do sistema democrático, vemos políticos de todas as espécies convocando eleitores a acreditar nos seus cantos de sereia. Há até os que mentem atrás de vantagens, imaginando que, no pleito, levarão em conta a sua juventude e a agressividade de sua conduta. Propostas? É tal o zunzum que elas terminam, em alguns casos, em segundo plano, como se a população, de memória curta, pouco valorizasse o que venha a ocorrer no futuro próximo. Ulisses se mostrava marcado pelo espírito de iniciativa. Como não se ignora, nos encontramos uma sociedade com luzes em neon nos mais diversos rincões, montadas para enganar e tergiversar.

Saber escolher constitui uma qualidade que as nações nem sempre exercitam com a frequência necessária. O resultado já se traduziu em desastres. O século XX se acha recheado desses maus exemplos, culminando com Mussolini e Hitler. Mas há casos menos extremados, embora perniciosos. Somam-se a eles os saudosistas dos regimes de força e os neonazistas. 

Hoje dispomos das redes sociais, das emissoras de TV, com suas engrenagens imbatíveis. Como contornar tantos cantos de sereias? Prudência se revela mais do que conveniente. Biografia e maturidade, também. Foi-se o tempo em que se dizia que a voz do povo era a voz de Deus. Nos dias que correm, mal se distingue a voz do povo. Quando a Deus, multiplica-se em inúmeras versões. 

Seja como for, a eleição se reveste de festa da modernidade, sucedendo-se em intervalos regulares. Representa o que nos resta, para solucionar os males do país, desde que saibamos escolher.  A pista a seguir se concentra na figura que apresenta o que fez e tem confiabilidade para prosseguir. Tirando isso, mergulhamos no imponderável. E nos machucamos com ele. Saber escolher depende de nós. O futuro do país, também.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *