O desafio Houthi e o estreito de Bab el-Mandeb: uma nova frente para Washington
Por Juan Chingo — Esquerda Diário
O que está acontecendo no Iêmen não pode ser separado do confronto mais amplo entre Irã e Estados Unidos.
Os houthis já demonstraram durante a guerra anterior que a enorme superioridade financeira e tecnológica da Arábia Saudita não era suficiente para derrotá-los. Os ataques estadunidenses tampouco conseguiram eliminar sua capacidade militar. Hoje contam com mais experiência de combate e com mísseis e drones desenvolvidos com apoio iraniano. Mas reduzi-los a simples instrumentos de Teerã seria um erro. O Irã é seu principal aliado estratégico e se beneficia da sua capacidade, mas os houthi conservam interesses e uma dinâmica política próprios.
É principalmente aí que reside parte de sua importância para o Irã. Teerã não precisa controlar cada decisão de seus aliados para obter uma vantagem estratégica com a sua existência. Um movimento houthis capaz de amenizar o Estreito de Bab el-Mandeb [que controla o tráfego marítimo no Mar Vermelho, NdT] manter a Arábia Saudita ocupada e obrigar os Estados Unidos a despejar recursos constitui, por si mesmo, um instrumento de pressão considerável.
Bab el-Mandeb também transforma um conflito local em um problema internacional. Os houthis não precisam derrotar a Marinha estadunidense nem fechar definitivamente o Estreito. Basta-lhes demonstrar que eles podem ameaçar de forma recorrente a navegação comercial e elevar seus custos. Desse modo obrigam Washington e seus aliados a escolher entre aceitar a nova realidade ou empreender outra campanha militar com resultados incertos.
Washington pode atacar instalações houthis e reduzir temporariamente suas capacidades. Mas se para conseguir um resultado duradouro é necessário repetir indefinidamente essas operações, colta a aparecer o mesmo limite que no Irã: a dificuldade de transformar a superioridade militar e os ataques aéreos em um resultado político duradouro. Isto não significa que a situação seja equivalente: os houthis têm muito mais vulnerabilidades que a República Islâmica. Mas, justamente por essa razão, é significativo que inclusive um adversário muito mais débil possa obrigar Washington a manter uma campanha prolongada.
O imbróglio saudita é ainda pior: Riad possui armamento sofisticado e enormes recursos financeiros, mas já comprovou que o dinheiro e a superioridade aérea não compram por si mesmos uma dissuasão estável. Para derrotar os houthis, não basta bombardear posições:é preciso transformar essa superioridade em uma capacidade efetiva de controlar o terreno e modificar o comportamento do adversário.
A crise também está pondo à prova as novas arquiteturas de segurança regional. A chamada “Aliança da Meca”, entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, deve demonstrar agora se constitui realmente uma aliança militar ou somente um marco diplomático. Por agora, seus integrantes não têm dado mostras de querer intervir militarmente. Washington queria que seus aliados regionais assumissem uma maior responsabilidade pela sua própria segurança, mas quando essa estratégia fracassa a alternativa volta a ser a intervenção direta estadunidense. E cada nova intervenção consome recursos, expõe forças norte-americanas e corre o risco de abrir outra frente em uma região já profundamente desestabilizada.
Por isso, o Iêmen importa muito para além do Iêmen. Os houthis não precisam ser capazes de derrotar os Estados Unidos para alterar o equilíbrio regional. Precisam somente impedir que Washington possa se impor unilateralmente. De forma ainda mais gráfica, o Estreito de Bab el-Mandeb se soma às consequências estratégicas de um eventual bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz: uma força relativamente pequena pode obrigar uma superpotência a dedicar recursos crescentes a contê-la e a converter um conflito regional em um problema para o comércio mundial.
Fonte: Esquerda Diário