O custo da dependência do petróleo: impactos para o clima e a paz global
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O cenário internacional contemporâneo está dominado por uma trajetória preocupante: o avanço das guerras, a corrida armamentista e as justificativas geopolíticas de que “falta dinheiro” para o desenvolvimento sustentável e o enfrentamento das mudanças climáticas.
No entanto, por trás da fumaça das guerras esconde-se uma verdade incômoda: a raiz da atual crise climática nasce na dependência do petróleo, especialmente das nações mais desenvolvidas.
Sabemos que os conflitos contemporâneos possuem causas históricas, territoriais, políticas, religiosas e econômicas complexas, e seria simplista atribuí-los exclusivamente aos combustíveis fósseis. Porém, também seria um erro ignorar o papel estratégico que o petróleo ocupa nas relações internacionais.
O controle de reservas, rotas de transporte e mercados consumidores do petróleo influencia alianças, sanções econômicas, decisões diplomáticas e os conflitos armados.
Interesses econômicos das empresas de petróleo, gás e carvão mineral alimentam lobistas que influenciam e corrompem governos e governantes. Essa é a verdadeira raiz de muitos conflitos internacionais.
A dependência do petróleo não cria, sozinha, as guerras. Mas amplia o valor estratégico de determinados territórios e alimenta os conflitos e a tensão geopolítica. Isso oferece combustível, em todos os sentidos, para disputas geopolíticas pelo poder.
Quando uma guerra ou tensão ameaça regiões produtoras de combustíveis fosseis, os efeitos se espalham rapidamente e as fontes de energia ficam mais caras. Isso eleva os custos do transporte, resultando em aumento dos preços dos produtos. E afeta especialmente o orçamento das populações vulneráveis, agravando a injustiça climática.
Afeta também o orçamento dos governos que ficam com menor espaço fiscal para enfrentar os desafios das mudanças climáticas.
Caso o mundo tivesse avançado mais rapidamente na transição para fontes de energias renováveis, o tabuleiro geopolítico seria diferente. Estaríamos menos expostos às guerras e à carência de recursos para investimentos na transição energética.
A transição energética não deve ser entendida apenas como resposta à emergência climática. A expansão das energias renováveis é também uma estratégia de segurança alimentar, estabilidade econômica e construção da paz.
Há sinais de avanço. Segundo a Agência Internacional de Energia, os investimentos globais em tecnologias de energia limpa chegaram a cerca de US$ 2,2 trilhões em 2025, o dobro do valor destinado ao petróleo, ao gás natural e ao carvão. Ainda assim, o avanço permanece aquém da velocidade exigida pela emergência climática.
Por isso, usar o atual cenário de guerras para colocar a pauta climática em segundo plano representa uma perigosa inversão de prioridades. As guerras não podem criar motivos para adiar o enfrentamento das mudanças climáticas.
Guerras são vetores de descaminhos para um futuro da humanidade com prosperidade, justiça e segurança climática. A transição energética é essencial para a paz. Precisamos da paz para evitar os cenários mais catastróficos e investir pesadamente em soluções para a emergência climática. A paz é essencial para manter acesa a chama da esperança de um planeta habitável.
O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse debate. Em 2024, as fontes renováveis responderam por 88,2% da matriz elétrica brasileira. Essa vantagem deve ser utilizada para ampliar a geração de energia limpa, estimular a inovação e construir uma economia de baixo carbono. Seria inteligente utilizar os resultados das nossas reservas de petróleo para investir no enfrentamento da emergência climática.
Há alguns anos defendo o desenvolvimento de um mecanismo inovador na política energética brasileira. Proponho investir 10% (ou outro percentual relevante) das receitas do petróleo para custear soluções baseadas na natureza e a transição energética para mitigação e adaptação climática. Recuperação produtiva de áreas degradadas e restauração ecológica de áreas prioritárias, somadas a investimentos em energia limpa, poderão gerar empregos verdes e se tornarão um vetor de uma prosperidade sustentável para o Brasil.
Diminuir a dependência do petróleo é uma estratégia para buscar a paz entre nações e fomentar trajetórias de desenvolvimento guiadas pela fraternidade, cooperação e sustentabilidade. O Brasil tem todas as condições para ser um protagonista deste caminho.
Sobre o autor
Virgílio Viana é engenheiro Florestal pela ESALQ/USP, Ph.D. pela Universidade de Harvard, Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável, Membro da Pontifícia Academia de Ciências Sociais do Vaticano, Professor da Fundação Dom Cabral e Membro do Conselho de Adaptação Climática da COP30.
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Fonte: umsoplaneta