Por Macaé Evaristo — Mídia NINJA

8 de outubro de 2026

O chicote não é um objeto qualquer

O chicote carrega a memória da escravidão, e seu uso por uma parlamentar expõe feridas ainda abertas no Brasil

Macaé Evaristo

Professora, assistente social e deputada estadual da 20ª Legislatura da ALMG. Atuou por 20 anos na Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte. Foi a primeira mulher negra a ocupar os cargos de secretária de Educação em BH (2005 a 2012) e em Minas (2015 a 2018). Como vereadora, atuou por uma cidade educadora e antirracista. Foi secretária da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) do MEC.

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Macaé Evaristo

8 de outubro de 2026

17:39

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Macaé Evaristo

Professora, assistente social e deputada estadual da 20ª Legislatura da ALMG. Atuou por 20 anos na Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte. Foi a primeira mulher negra a ocupar os cargos de secretária de Educação em BH (2005 a 2012) e em Minas (2015 a 2018). Como vereadora, atuou por uma cidade educadora e antirracista. Foi secretária da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) do MEC.

Joaquim Nabuco escreveu, em O Abolicionismo, que a escravidão permaneceria por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Mais de um século depois, a frase ainda exige cuidado de quem ocupa a vida pública. Certos gestos não cabem na categoria de brincadeira, porque o país onde são feitos tem memória.

Depois de vencer a eleição, a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) saiu às ruas de Santa Catarina empunhando um chicote. Segundo a imprensa, ela explicou que o objeto, chamado de relho, remete a uma expressão regional e que a cena foi uma brincadeira sobre o tamanho da votação. O debate não depende da intenção da deputada. Depende do significado histórico do gesto.

No Brasil, o chicote nunca foi um objeto qualquer. Durante séculos, foi instrumento de castigo, tortura e submissão de pessoas negras escravizadas. Esteve no tronco, no pelourinho, na lavoura, na senzala. Cada marca nas costas de uma pessoa escravizada era também um recado a todas as outras sobre quem mandava e quem obedecia. Um símbolo assim não se esvazia porque alguém decide que, naquele momento, ele quer dizer outra coisa.

Quem ocupa cargo público precisa compreender que símbolos carregam memória. Uma parlamentar fala a milhões de pessoas, inclusive às que descendem de quem apanhou com aquele instrumento. Para elas, a imagem de uma autoridade eleita exibindo um chicote em comemoração não chega como folclore regional. Chega como lembrança de uma violência que muitas famílias nunca deixaram de carregar. A intenção de quem faz o gesto não controla a leitura de quem o assiste, e uma representante do povo tem a obrigação de saber disso.

A escravidão acabou como lei em 1888, mas suas marcas atravessaram gerações. Estão na distância entre brancos e negros em renda, escolaridade e acesso à saúde, na violência policial, na composição das prisões e dos espaços de poder. Nabuco percebeu cedo que abolir a lei era só o começo e que desfazer a herança seria um trabalho longo. Ele tinha razão.

A democracia brasileira não precisa recuperar os símbolos da violência e da humilhação. Precisa enfrentar a herança que eles representam.

Fonte: Mídia NINJA

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