O Cerrado que Goiás diz defender e ajuda a colocar em risco
Por Giovanna Campos — Jornal Opção

Existe uma espécie de esquizofrenia conveniente na política ambiental brasileira: todo mundo diz amar a natureza, desde que isso não atrapalhe uma obra, uma plantação, uma mineração ou um negócio.
Em Brasília, essa contradição ganhou forma no licenciamento ambiental. Em novembro de 2025, o Congresso derrubou parte dos vetos de Lula à Lei Geral do Licenciamento Ambiental, retomando trechos que haviam sido barrados pelo presidente.
Goiás teve papel relevante nessa história. Na votação, 11 deputados goianos citados no levantamento votaram pela derrubada dos vetos. Entre os senadores, Wilder Morais e Vanderlan Cardoso votaram pela retomada dos dispositivos, enquanto Jorge Kajuru votou pela manutenção do veto. O registro oficial do Senado confirma os votos de Wilder e Vanderlan como “Sim” e de Kajuru como “Não”.
Não é uma discussão abstrata para Goiás. É o Estado do Cerrado, das nascentes que alimentam grandes bacias hidrográficas, do bioma que sustenta a Amazônia de pé, do avanço do agronegócio, das queimadas, da expansão urbana e de uma economia que depende diretamente dos recursos naturais.
É curioso, portanto, que a política consiga falar tanto em desenvolvimento sustentável e tão pouco sobre o preço ambiental do desenvolvimento.
O discurso costuma ser bonito. A votação é que entrega a prática. a crise climática não é responsabilidade apenas do Poder Executivo. O Congresso Nacional possui papel decisivo na elaboração das regras que determinam como o país utiliza seu território, explora seus recursos naturais e licencia empreendimentos. Como exemplo: a legislação sobre licenciamento ambiental, o chamado PL da Devastação, o PL dos Agrotóxicos e as discussões envolvendo terras indígenas.
Independentemente da posição política de cada eleitor, existe uma questão objetiva: decisões legislativas sobre meio ambiente produzem consequências que ultrapassam mandatos e governos.
E há algo ainda mais incômodo: Goiás vive uma contradição permanente. Quer ser potência agropecuária, quer expandir infraestrutura, quer atrair investimentos, quer explorar seus recursos naturais e, ao mesmo tempo, precisa preservar água, solo e vegetação para continuar produzindo.
Não existe agricultura sem água. Não existe indústria sem água. Não existe cidade sem água.
O Cerrado não é decoração de campanha.
Quando se enfraquece o licenciamento, o argumento geralmente aparece embalado em palavras como “desburocratização”, “segurança jurídica” e “desenvolvimento”. São termos legítimos. O problema começa quando a pressa para liberar empreendimentos passa a valer mais do que a capacidade de prever seus impactos.
Licenciamento não deveria ser sinônimo de atraso. Mas também não pode virar carimbo.
Essa discussão deveria estar no centro da eleição de 2026 em Goiás. Não como uma guerra entre “ambientalistas” e “produtores”, mas como uma pergunta bastante simples: que tipo de desenvolvimento o Estado quer sustentar nas próximas décadas?
Porque o Cerrado não negocia.
Se a água desaparecer, não haverá discurso de plenário que a faça voltar. Se o solo perder qualidade, não haverá slogan de modernização capaz de recuperar uma safra perdida. Se determinados ecossistemas forem destruídos, a promessa de compensação feita depois pode chegar tarde demais.
O mais fácil é chamar isso de exagero ambientalista. O difícil é admitir que a conta sempre chega.
E, quando chega, ela não é enviada apenas para quem votou determinada lei em Brasília. Chega para o produtor rural, para quem vive na periferia, para quem depende do abastecimento público, para quem paga mais caro pela comida e para quem enfrenta uma cidade cada vez mais vulnerável a eventos extremos.
Por isso, a discussão sobre clima em Goiás precisa sair do discurso protocolar. Não basta plantar árvores para a foto, defender o Cerrado em eventos e depois tratar proteção ambiental como obstáculo quando aparece um projeto de interesse econômico.
O eleitor tem uma ferramenta muito simples para descobrir a diferença entre discurso e prática: olhar o voto. Porque, no fim, a floresta não lê promessa de campanha. Ela sente a lei.
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Fonte: Jornal Opção