O carbono virou questão de competitividade para o ES

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Publicado em 14 de Outubro de 2026 às 08:47

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Por muito tempo, a discussão sobre emissões de carbono pareceu restrita a relatórios de sustentabilidade , compromissos ambientais e conferências internacionais. Essa separação já não se sustenta. Para uma parcela crescente da indústria e do comércio exterior, carbono passou a ser uma variável de preço, acesso a mercado e negociação contratual.

Desde 1º de janeiro de 2026, entrou em vigor a fase definitiva do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia, o CBAM. O instrumento alcança, inicialmente, produtos como ferro e aço, alumínio, cimento, fertilizantes, eletricidade e hidrogênio. O importador europeu precisa declarar as emissões incorporadas nos bens que compra e cumprir obrigações associadas a elas.

O custo formal é do importador. Mas, como ocorre em qualquer cadeia econômica, ele não desaparece: tende a aparecer na formação de preços, na escolha de fornecedores e nas cláusulas dos contratos. Uma empresa que consegue medir suas emissões, explicar sua matriz energética e rastrear seus insumos negocia em posição diferente daquela que apenas afirma ser sustentável.

Essa é a mudança mais relevante. O carbono não entrou somente na planilha ambiental; entrou na planilha comercial. O que antes era percebido como um diferencial reputacional começa a se transformar em requisito de permanência em determinados mercados.

O Espírito Santo precisa observar esse movimento com atenção. A economia capixaba é particularmente integrada ao comércio exterior. No segundo trimestre de 2026, o grau de abertura do Estado chegou a 57,7% do PIB, mais que o dobro do indicador nacional. No primeiro semestre, as exportações somaram US$ 5,08 bilhões. Entre os produtos relevantes da pauta estavam os semimanufaturados de ferro e aço não ligado, com quase US$ 590 milhões vendidos ao exterior.

Esses números não permitem concluir, por si só, qual parcela da pauta capixaba estará diretamente sujeita ao CBAM. Isso depende do produto específico, do destino e da classificação aduaneira. Mas mostram por que o tema não pode ser tratado como uma abstração europeia: o Estado tem setores industriais, exportadores e fornecedores que precisarão demonstrar, com dados confiáveis, como produzem.

O primeiro passo já existe. O Espírito Santo criou o Selo Descarboniza-ES, vinculado ao plano estadual de descarbonização, estimulando empresas e instituições a elaborarem inventários de emissões e planos de redução. É uma iniciativa importante porque ajuda a transformar a agenda climática em decisão empresarial concreta.

Mas a próxima etapa precisa ser mais ambiciosa. O desafio não é apenas reconhecer empresas que já conseguiram medir e reduzir emissões. É construir uma política pública capaz de ampliar, no mercado capixaba, a capacidade de fazer medições, produzir inventários consistentes e gerar verificações tecnicamente reconhecidas.

Essa distinção importa. Um selo estadual pode reconhecer esforços e induzir boas práticas. Mas uma certificação aceita por compradores internacionais depende de metodologias comparáveis, rastreabilidade, auditoria independente e organismos de validação e verificação qualificados. Não cabe ao Estado substituir o mercado ou criar um certificado capixaba paralelo, de valor restrito. Cabe-lhe ajudar a formar as condições para que empresas capixabas atendam padrões que já são reconhecidos fora do Estado e fora do país.

Uma política pública eficiente deveria atuar em quatro frentes. A primeira é a produção de referências técnicas comuns: metodologias setoriais, fatores de emissão, ferramentas de cálculo e orientações adequadas à realidade de indústrias, transportadoras, produtoras rurais e prestadores de serviço. Medir bem não pode ser um privilégio de grandes empresas com equipes próprias.

A segunda frente é a formação de pessoas. Contadores, engenheiros, gestores ambientais, profissionais de logística e consultores precisarão compreender inventários de emissões, rastreabilidade e verificação de dados. Universidades, institutos federais, Senai, entidades empresariais e governo podem criar uma oferta  permanente de capacitação, em vez de depender de cursos isolados quando a exigência já estiver imposta pelo comprador.

A terceira é desenvolver a infraestrutura de verificação. O Brasil possui regras nacionais de acreditação para organismos que validam e verificam inventários de gases de efeito estufa. O Espírito Santo deve estimular a presença e a qualificação dessa estrutura no Estado, reduzindo custos, prazos e dependência de consultorias distantes. A credibilidade da informação dependerá justamente da independência de quem a verifica.

A quarta frente é apoiar a entrada das pequenas e médias empresas nessa agenda. Muitas delas não exportam diretamente, mas fornecem insumos, serviços, transporte, manutenção e componentes para empresas exportadoras. Se o custo inicial de medir emissões for alto demais, elas podem perder espaço em cadeias produtivas não por falta de qualidade, mas por não conseguirem comprovar o que fazem.

O Brasil também começou a construir sua infraestrutura nacional de mensuração, relato e verificação de emissões. A política capixaba deve se conectar a esse processo, antecipando padrões, qualificando fornecedores e usando a descarbonização como parte de uma estratégia de desenvolvimento industrial e comercial.

A pior resposta seria tratar o carbono como mais uma burocracia ambiental. A melhor é tratá-lo como uma nova linguagem dos negócios internacionais. Quem dominar essa linguagem terá mais condições de negociar, atrair investimentos e manter mercados. Quem chegar tarde poderá descobrir que não perdeu contratos por produzir pior, mas por não conseguir demonstrar como produziu.

No comércio internacional, o produto continuará sendo avaliado por preço, qualidade e prazo de entrega. Mas levará consigo, cada vez mais, um histórico: de onde veio, como foi produzido, qual energia utilizou e quanto carbono incorporou. O carbono entrou no contrato. A política pública capixaba precisa garantir que nossas empresas saibam respondê-lo.

Leia mais na coluna de Felipe Storch

Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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