O cancelamento do futuro
Por fernandaestima — Fundação Perseu Abramo
1.
No romance O lobo da estepe, publicado por Hermann Hesse, em 1927, o personagem diante de um casarão burguês imagina “sob a sagrada sombra do pinheirinho, um lar com móveis de mognos lustrosos e uma vida de respeitabilidade”. A expectativa se ajusta à Conferência de Bretton Woods, em 1944, quando ao final da Segunda Guerra cria o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) com as moedas vinculadas – organicamente – ao dólar americano e este ao ouro.
Até a conversibilidade ser retirada do valioso minério e o câmbio flutuante introduzir a incerteza na economia. Com a porta aberta ao capital financeiro, o niilismo (nihil / nada) subjuga as ideologias que desaparecem do radar político. O contrato social é rasgado e Wall Street passa a determinar as regras do jogo. A partir daí amplia-se a vigilância sobre os indivíduos e os ressentimentos coletivos.
O poder do povo transfere-se à plutocracia (ploûtos / riqueza, kratia / governo). A par disso, a revolução digital blinda os monopólios tecnológicos e afasta para longe as regulamentações e a ingerência pública. O desastre anunciado com data centers é encoberto. Infelizmente a injustiça social e ambiental não sai no jornal.
Na esfera pública, a necropolítica se converte no dogma dos gestores neoliberais que se desincumbem do bem-estar na sociedade. Metaforicamente o objetivo é chegar ao neolítico (néos / novo, lithos / pedra). Época em que os humanos começam a cultivar plantas e domesticar animais para dispor de alimentos. Como na canção: “Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não para, não, não para”. O retrocesso se instala.
A posição subalterna no sistema-mundo freia a formação do mercado interno de massas, em países em desenvolvimento. O agro mostra-se dependente dos produtos manufaturados. Os valores da igualdade, diversidade e laicidade vão para o lixo. No Brasil, a meta da extrema direita é a submissão ao status quo, com a reprimarização da economia espelhada ainda no período colonial-escravista.
2.
Para Mark Fisher, em Fantasmas da minha vida, se as teletecnologias contraem o espaço e o tempo, a “assombrologia” firma a resiliência ao capitalismo. É preciso corrigir os erros. Na Conferência Mundial de Inteligência Artificial 2026, o presidente chinês Xi Jinping expõe uma alternativa à lógica das megacorporações empresariais: “A IA não deve ser a apresentação solo de um único país, mas a sinfonia de cooperação internacional”. Como se vê, o espectro do planejamento holístico paira ameaçador sobre o livre mercado e o neoliberalismo.
A China surge nos relatos oitocentistas de missionários franceses impressionados com a excelência da cultura chinesa e a ética confucionista, que valoriza a justiça, a benevolência, a sabedoria e a harmonia. A descoberta provoca as comparações. Obriga o hegemon a encarar sua própria loucura: bombardeios na Faixa de Gaza; conflitos deflagrados pelos Estados Unidos; tarifaços de soberba.
Já Luiz Inácio Lula da Silva prossegue “com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” na luta pela soberania nacional. Inspira-se nos partidos humanistas e movimentos sociais: guaridas do direito a ter direitos, o centro da democracia. Consciente de que a questão prioritária, na conjuntura, é evitar o cancelamento do futuro e organizar a esperança militante na manhã.
Conforme Lula, na Assembleia Geral das Nações Unidas, “o ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial”. Mais: “A guerra não é a continuação da política por outros meios; é a falência total da política. Ameaçar civilizações de extinção não traz a paz”. E conclui, “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Em contraponto, o falso patriota Flávio Bolsonaro escreve uma carta abjeta às autoridades estadunidenses, assumindo o compromisso de entregar riquezas naturais do país. Pura viralatice.
No século 17, o senhor de engenho Domingos Fernandes Calabar (1600-1635), de início, defende a Terra brasilis. Mais tarde, resolve trocar de lado e se aliar aos holandeses na invasão do Nordeste. O filhinho do papai, a bem da verdade, nunca trocou de posição. Desde cedo, foi um chupacabra do Erário público, e continua a sê-lo com mandatos parlamentares tão medíocres como o do ascendente familiar. A mídia normaliza o escândalo lesa-pátria. Os eleitores, porém, não parece que farão cara de paisagem aos descalabros sem caráter.
Luiz Marques é docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura (RS).
Fonte: Fundação Perseu Abramo