‘O Brasil não cabe no quintal de ninguém’, afirma Lula na ONU
Por Vinícius Nunes — Carta Capital
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Presidente defende soberania, rejeita interferência externa nas eleições, cobra cooperação contra o crime organizado e critica Conselho de Segurança
O presidente Lula (PT) usou o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira 22, para fazer uma defesa enfática da soberania brasileira, criticar a ingerência externa em processos eleitorais e cobrar uma resposta coordenada ao avanço do crime organizado. Em uma fala marcada por críticas à ordem internacional, Lula também rejeitou o uso de força militar no combate ao crime, atacou a indústria das bets e defendeu o Pix como infraestrutura pública.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou o presidente ao defender uma América Latina integrada e baseada em relações de parceria. A frase foi dita no momento em que Lula tratava da soberania dos países da região e das tentativas de estabelecer zonas de influência. Segundo ele, diferenças ideológicas não deveriam impedir a integração entre os países latino-americanos.
A defesa da soberania apareceu também ligada diretamente à eleição brasileira , que acontece em menos de duas semanas . Lula afirmou que milhões de brasileiros irão às urnas em 4 de outubro para escolher presidente, governadores e representantes do Legislativo e disse que o pleito será “transparente e competitivo”. Na sequência, fez uma referência direta à possibilidade de interferência externa.
“ Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular ” , afirmou. “A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um País soberano. Ninguém, ninguém nos afastará desse caminho.”
O presidente também mencionou as redes de desinformação e afirmou que há figuras que usam a liberdade de expressão para se associar a interesses estrangeiros contrários ao País. Lula disse que o Brasil possui um sistema eleitoral “moderno e robusto” e afirmou que não permitirá ataques à vontade popular.
O combate ao crime organizado ocupou uma parte relevante do discurso e apareceu associado à defesa de uma estratégia de cooperação internacional. Lula rejeitou a necessidade de uma presença militar estrangeira nas águas brasileiras.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.
Lula disse que o Brasil está preparado para enfrentar as organizações criminosas e citou a criação, em Manaus, do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, que reúne autoridades de segurança pública dos nove países amazônicos. Também afirmou que o País realizou, em 2025, “a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil” e bateu recorde de apreensão de drogas, bens e recursos ilícitos.
O presidente também mencionou a proposta de combate ao crime que entregou pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump , e disse que o Brasil quer combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior. Em maio deste ano, é bom lembrar, o governo Trump classificou as facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como “terroristas”.
Ao tratar da revolução tecnológica e da regulação das big techs , Lula criticou a indústria das apostas. “A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares”, afirmou. Em seguida, disse: “O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio”.
Lula também afirmou que o governo vai defender o Pix de interferências exteriores. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, disse.
O presidente também fez uma crítica contundente à própria ONU. Disse que a organização está falhando em sua missão de evitar guerras e afirmou que sua credibilidade “nunca esteve tão baixa”. “O sentimento que me move hoje é o da indignação”, declarou.
Lula atribuiu parte do problema ao funcionamento do Conselho de Segurança, que, segundo ele, não consegue cumprir seu papel. Lula recuperou uma crítica histórica brasileira ao direito de veto das grandes potências e afirmou que o mecanismo criou um “privilégio da insensatez”.
O petista também afirmou que 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e cobrou uma reunião dos líderes dos países que integram o Conselho de Segurança. Para Lula, as concessões à “lei do mais forte” ultrapassaram os limites.
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Fonte: Carta Capital