O atraso digital da esquerda e as eleições de 2026: o Brasil no divã da revolução tecnológica
Por Observatório das Metrópoles – Núcleo São Paulo — Brasil de Fato
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A eleição presidencial de 2026 no Brasil será decidida em 4 de outubro, com um eventual segundo turno marcado para 25 de outubro. Cerca de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar, e o pleito já se desenha como um confronto entre duas visões de país, mas também, e talvez mais importante, entre duas atitudes diante da revolução digital. De um lado, o presidente Lula (PT), que tenta a reeleição para um quarto mandato; de outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL), que herdou o capital político do pai e lidera as pesquisas como principal oponente. Entre eles, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), entre outros. Mas o que está verdadeiramente em jogo, e que poucos analistas têm percebido com a clareza necessária, é a capacidade da esquerda e do PT em particular de superar o que se pode chamar de “atraso digital” e oferecer ao país uma visão de futuro compatível com a era da inteligência artificial.
A campanha de 2026 expõe, de forma crua, o paradoxo descrito pelo colunista do New York Times Ross Douthat: a esquerda tem respondido à inteligência artificial com “uma coleção de gestos mentais irritadiços em busca de um tema consistente”. No Brasil, esse diagnóstico se materializa na hesitação estratégica do PT diante da tecnologia. Lula decidiu limitar o uso de IA em sua campanha, afirmando publicamente que “um cidadão que aprendeu a ter caráter com a dona Lindu não aceitará Inteligência Artificial para fazer campanha política”. A diretriz, segundo dirigentes petistas, é usar a IA apenas como ferramenta de apoio e aperfeiçoamento, sem criar vídeos ou imagens que coloquem o presidente em situações fictícias.
A decisão é apresentada como uma escolha ética: a aposta na autenticidade do “Lula de verdade” contra a artificialidade dos adversários. Mas há também um cálculo pragmático: limitar o uso de IA reduz o risco de contestações na Justiça Eleitoral, especialmente num momento em que o próprio PT prepara uma ofensiva no TSE por regras mais rígidas para a tecnologia. A campanha quer explorar o contraste entre conteúdos com imagens reais e peças inteiramente artificiais.
O problema é que essa estratégia, por mais compreensível que seja do ponto de vista jurídico e ético, revela exatamente a dificuldade estrutural apontada por Evgeny Morozov: a esquerda trata a tecnologia como um “conjunto neutro a ser inserido em instituições melhores” ou, neste caso, a ser evitado quando seus usos são politicamente inconvenientes. Em lugar de uma visão propositiva sobre como a IA pode transformar a relação entre política e sociedade, predomina uma atitude defensiva que combina cautela jurídica com uma certa “dismissividade” tecnológica.
Enquanto isso, a campanha de Flávio Bolsonaro abraçou a IA com entusiasmo. O senador publicou vídeos produzidos com inteligência artificial em que “vislumbra seu futuro como presidente”, e sua campanha lançou uma plataforma que distribui conteúdo para republicação de apoiadores, incluindo vídeos com fotos de Lula geradas por IA, em violação às normas eleitorais. O Partido Liberal criou a plataforma “Direita Já” para estimular apoiadores a redistribuir conteúdo multimídia da campanha.
Aqui, a direita brasileira replica um fenômeno já observado em outros contextos: o chamado “Partido Digital Bolsonarista” é um ecossistema político que não depende de estrutura partidária tradicional e que, por isso, tem uma vantagem competitiva enorme. Enquanto a esquerda hesita, a direita ocupa o território da inovação mesmo que para isso precise desrespeitar os limites da legalidade e da ética.
Há, porém, um aspecto que costuma ser negligenciado nessa análise: a direita digital não tem um projeto para a tecnologia além do uso tático e imediato. Seu “entusiasmo” é instrumental, não programático. Flávio Bolsonaro usa IA para produzir vídeos de campanha, mas não apresenta uma visão de como a inteligência artificial pode transformar a economia, o trabalho ou a vida dos brasileiros. É o Vale do Silício sem o projeto de futuro, a inovação como espetáculo, não como programa.
Uma das principais armadilhas da esquerda tem sido a ênfase desproporcional na regulação como resposta à revolução digital. No Brasil, essa tendência se manifesta de forma aguda. O PT e seus aliados têm concentrado esforços em projetos de lei para regular a IA e em ações no TSE para restringir o uso da tecnologia nas campanhas. O governo Lula editou decretos e leis sobre inteligência artificial em 2025 e 2026, mas sempre no registro da proteção e da prevenção, nunca no da construção e da proposição.
O problema não é que a regulação seja desnecessária; pelo contrário, o ambiente regulatório é fundamental para favorecer o desenvolvimento tecnológico e para proteger os cidadãos sem impedir o avanço. O problema é quando a regulação se torna o único horizonte da ação política, quando a esquerda se contenta em ser a “guarda de trânsito” do capitalismo digital em vez de ser sua arquiteta.
O PT lançou em junho de 2026 a plataforma “Porta-Vozes de Lula”, que combina inteligência artificial, cadastro de apoiadores, comunidades de WhatsApp e distribuição diária de conteúdo. A secretária nacional adjunta de comunicação do PT anunciou que “vamos colocar à disposição nossa inteligência artificial a favor da democracia, a favor da verdade, a favor do Brasil”. O ministro Guilherme Boulos foi ainda mais explícito: o objetivo é coordenar o encaminhamento de mensagens em massa, unificando a narrativa.
Há aqui uma contradição profunda. O PT adota, na prática, as mesmas ferramentas digitais que antes criticava nos adversários: “milícias digitais”, “gabinete do ódio” e ações coordenadas nas redes. Mas o faz sem um programa, sem uma visão de futuro, apenas como resposta tática a uma vantagem competitiva da direita. É o que Morozov chamaria de uma abordagem “algorítmica” no pior sentido: a repetição de fórmulas do passado sem a abertura à novidade do presente.
O Brasil corre o risco de tornar-se um mero espectador da revolução da IA, vulnerável a pressões externas e restrições. A realidade é dura: exclusão digital, pouca diversidade e desafios que deixam milhões fora dessa revolução. Esse diagnóstico é ainda mais urgente quando se considera o cenário eleitoral de 2026.
Nenhum dos principais candidatos apresenta um plano consistente para a inclusão digital, para a formação de talentos em IA, para a construção de uma indústria nacional de tecnologia ou para a apropriação social das ferramentas digitais, O governo Lula alinhou muitas iniciativas, mas ainda insuficientes para dar conta dos desafios colocados. O debate público sobre tecnologia se limita a dois registros: o jurídico (como regular) e o tático (como usar na campanha). O programático está ausente.
A esquerda brasileira, em particular, parece ter desistido de disputar o terreno da inovação. Em lugar de uma narrativa sobre como a IA pode reduzir a jornada de trabalho, promover a renda básica universal ou emancipar o trabalho alienado, o que se ouve são advertências sobre os perigos da tecnologia e defesas da regulação. É o que Douthat descreve como “invocações de alternativas humanistas, socialistas, safetyístas que existem principalmente como sinalização, sem muita agenda por trás”.
As eleições de 2026 no Brasil não são apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, entre PT e PL, entre esquerda e direita. São, também, um teste da capacidade da política brasileira de responder à revolução digital com mais do que medo, hesitação ou oportunismo tático.
A dificuldade da esquerda em acompanhar o ritmo das mudanças tecnológicas não é um problema meramente tático ou de comunicação. É um problema teórico e político profundo, que remete à sua dificuldade de “expandir as fronteiras do possível” e incluir as questões que emergem da vida real das pessoas na era digital. Como observa Morozov, a esquerda precisa construir uma história de inovação tecnológica alternativa ao Vale do Silício e essa construção ainda não aconteceu em escala significativa.
No Brasil, esse desafio é ainda mais urgente. Num país onde a exclusão digital é massiva e o Estado tem dificuldade de se fazer presente, a esquerda não pode se dar ao luxo de ser apenas crítica. Ela precisa ser construtiva. Precisa oferecer não apenas denúncia, mas projeto. Não apenas regulação, mas inovação. Não apenas defesa do que existe, mas invenção do que pode vir a ser.
O tempo é curto. A cada nova iteração do ChatGPT e de seus concorrentes, a probabilidade de que a IA comece a remodelar a economia de forma drástica aumenta. Quando essa mudança chegar e ela chegará “como uma enchente, não como um mar que sobe lentamente”, a política brasileira precisa estar pronta. Não com gestos irritadiços, mas com um programa. Não com medo, mas com visão. Não com nostalgia, mas com a coragem de reinventar o projeto nacional para o século XXI. As eleições de 2026 são a oportunidade, talvez a última, para que essa reinvenção comece.
*Sérgio Ribeiro é mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e foi prefeito do município de Carapicuíba (SP) de 2009 a 2016.
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Fonte: Brasil de Fato