Por Urariano Mota — Brasil 247

Nestas horas de movimentos pela reeleição de Lula, tenho notado um fenômeno que antes jazia adormecido. Nestes dias, nas bravas tomadas de ruas e praças do Brasil, em ocupações legítimas de afirmação política contra a barbárie, a primeira coisa a notar é a voz da indignação. A raiva santa, que faz manifestantes apontarem o dedo médio contra cartazes em janela de prédio onde se lê “Fora Lula”. Tem sido assim. Nas caminhadas de massa, os dedos se levantam para a janela: “Aqui pra você!”. O dedo em riste é como uma prece, uma invocação das melhores forças de combate no front.

Ainda que os fascistas respondam com o terror, com a destruição pelo fogo de prédios universitários, pelas armas de fogo apontadas contra os democratas, e por prisões arbitrárias de jovens estudantes em passeata pacífica, ainda assim as pessoas não recuam. Isso quer dizer, se me permitem escrever mais claro: a indignação supera o medo do terror. Aliás, para a gente com mais força indignada, nem existe medo. Se soltarem uma bomba, os sobreviventes pularão para cima dos terroristas. Pois somos muitos, vastos e fortes. Como na canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil, imortalizada por Gal Costa:

Atenção

Tudo é perigoso

Tudo é divino maravilhoso

Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

Nestas linhas, observo agora o que gera o fenômeno: se não houvesse a derrota de Lula no primeiro turno, e se não houvesse a ameaça da volta das trevas sobre o Brasil, não assistiríamos ao renascer da consciência. A nossa melhor alma, o que vale dizer, o nosso melhor ânimo estava preguiçoso e dormente. Era como se a conquista fosse permanente. Como se fossem pessoas ligadas, mas sem paixão.

Então avanço para o que vejo e vi mais perto, fora das passeatas nas ruas. Olhem que flagrante belo, registrado por Francêsca Calado em Olinda: o carinho do dono do Bar do Peneira por Luciana Santos, ex-prefeita de Olinda, hoje Ministra da Ciência e Tecnologia do Brasil. Entendam e percebam que este afeto não é pelo cargo da ministra. É legítimo, desinteressado como está no rosto e na memória de Peneira desde os primeiros tempos, quando um insuportável pudor não permitia a sua manifestação. Então chego ao fenômeno mais eloquente do amor, que se expressa com uma declaração jamais ouvida por mim, antes destes dias.

— Ele foi o primeiro homem da minha vida.

Assim fala uma militante socialista. Na mesa, na Avenida Rio Branco, no Recife, a gente ouve, pisca os olhos e faz de conta que não ouviu. Devíamos estar com uma cara de idiota, porque a militante vai mais longe:

— Ele foi o meu primeiro amor.

Ah, será que ela fala de Primeiro Amor, a linda novela de Turguêniev? Não, ela fala de outra beleza, um sentimento vivido por um camarada hoje falecido. Então, na tarde do domingo, enquanto as vozes e palavras de ordem crescem e cantam na avenida Rio Branco, nós fazemos a cara mais idiota deste mundo. Isto é, não queremos mostrar emoção, não queremos chorar diante da afirmação da senhora que renasce em seu generoso peito no movimento a favor de Lula.

— Ele foi o meu primeiro amor.

Por que é que a gente não possui a dignidade de levantar um brinde para a grandeza de tamanho sentimento? O autor destas linhas, que dava o dedo para os fascistas, não tem a dignidade de gritar:

— Viva o amor! Viva o renascimento do coração!

Ficamos quietos a pensar. À distância, consideramos que não importa que o camarada não tenha sido um homem que respeitasse a pessoa diante de nós no bar. Não importa. Acaso somos os juízes do coração? Acaso estamos imunes de cometer uma falta semelhante? Então, à distância, nos inclinamos pela reflexão sobre a digna mulher: ela não vê, ou não quer ver o que o seu companheiro lhe fez. Há um ditado popular no Brasil que fala “o amor é cego”. Mas esse ditado, em sua simplificação, é que é a sua acusação. A mulher, a amante, não quer revolver, escarafunchar o que se mistura ao sentimento. Acaso ela não sabe, acaso ela não viu que o companheiro partiu para outras? Viu, mas guardou com ela uma “boa amizade”? Ela sabe e percebe. Mas tem o coração mais sábio na sua memória. Ela guarda os bons momentos em que estiveram juntos, ela guarda um valor mais alto que o sexo na cama. Ela guarda um prazer maior dessa relação:

— Com ele aprendi a gostar da literatura.

Então nos levantamos da mesa mais fortes. Aquilo que não te disse ali, te envio aqui, amiga: o teu amor te fez grande. O que você conquistou, conquistado está: o gosto despertado pela grande literatura. Quanta generosidade: a tua presença nos momentos mais aflitos do camarada, até o fim. Em vez da mágoa, um doce e querido afeto.

E saímos caminhando pelo Recife Antigo a sorrir no íntimo, felizes. Como é que pudemos passar antes, sem ter a consciência do amor que volta na luta?

Fonte: Brasil 247

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