Novo dorama de ‘GTO’ questiona o que é ser um grande professor
Por Tiago Souza — Carta Capital
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Aos 52 anos, Onizuka busca um recomeço em uma escola de elite onde relações humanas são reduzidas a métricas de desempenho
Eikichi Onizuka é o tipo de professor que jamais seria contratado por uma escola real — e talvez justamente por isso continue sendo tão fascinante. O personagem é o protagonista do novo dorama da Netflix, GTO: Great Teacher Onizuka (2026). A história começou, porém, muito antes. Onizuka surgiu no mangá homônimo de Toru Fujisawa, publicado originalmente no Japão entre 1997 e 2002 e lançado integralmente no Brasil pela NewPOP Editora.
A premissa é simples e improvável: um ex-integrante de uma gangue de motociclistas, formado em uma universidade pouco prestigiada e com um histórico disciplinar ruim decide se tornar professor. O que diferencia Onizuka são seus métodos. Eles estão muito distantes do modelo tradicional de ensino, mas, ao mesmo tempo, se aproximam de uma ideia essencial à profissão: a necessidade de compreender o outro.
Uma continuação de quase três décadas
O novo dorama da Netflix também não é um remake isolado. A série funciona como continuação da primeira adaptação televisiva de GTO, exibida em 1998, quando o mangá ainda vivia o auge de sua popularidade. Na época, Eikichi Onizuka foi interpretado por Takashi Sorimachi. O sucesso foi expressivo e levou à produção de um especial e de um filme no ano seguinte.
A franquia continuou relevante ao longo dos anos. Em 2012, uma nova adaptação televisiva foi produzida, dessa vez com Akira, integrante da boy band Exile, no papel principal.
Em 2024, durante as comemorações dos 65 anos da TV Fuji, Takashi Sorimachi voltou a interpretar Onizuka no especial GTO Revival. A produção teve boa repercussão na TVer, plataforma operada por emissoras japonesas, com mais de 3,7 milhões de reproduções na primeira semana.
O resultado abriu espaço para novas histórias com o personagem. Assim, em 2026, Sorimachi volta mais uma vez ao papel de Onizuka. A nova série também reúne Satoru Nakajima e Kazuhiko Yukawa, diretor e roteirista da adaptação original.
A diferença é que o tempo também avançou para o próprio personagem. No mangá e no primeiro dorama, o protagonista tinha 22 anos. Na nova história, ambientada no presente, Onizuka aparece aos 52. Não se trata apenas de mostrar o mesmo professor mais velho, mas de observar o que resta de seu ideal depois de décadas de tentativas, fracassos e recomeços.
O professor depois do fracasso
O dorama retoma elementos apresentados em GTO Revival. Depois de acumular mais de 30 demissões em escolas, Onizuka passa a trabalhar como entregador de comida. Apesar de ter conquistado algum reconhecimento ao final do especial, ele começa a nova série novamente afastado da sala de aula.
A diferença é que, agora, o fracasso não parece atingir apenas sua carreira. Onizuka está desiludido, cansado de ser afastado de uma escola após outra e sem encontrar um lugar onde seu método produza resultados duradouros.
A crise profissional também alcança sua vida pessoal. O ultimato parte da esposa: ou ele finalmente encontra aquilo que o torna um Great Teacher e consegue se firmar na profissão, ou ela pedirá o divórcio.
O novo desafio surge por meio de um ex-aluno, que o convida para trabalhar em uma escola particular de elite. A instituição apresenta um ambiente bastante diferente daquele encontrado no início da história original. Se antes Onizuka precisava conquistar alunos que não confiavam nos adultos, agora enfrenta uma escola em que estudantes e professores parecem funcionar como partes de uma empresa. As relações são filtradas por avaliações, métricas e expectativas de desempenho.
A empatia contra as métricas
O novo GTO não sugere que a empatia seja suficiente para resolver os problemas da educação, nem transforma Onizuka em um modelo realista de professor. O que a série faz é colocar sua figura anacrônica em choque com um ambiente escolar cada vez mais orientado por resultados mensuráveis. É esse conflito que atualiza a premissa original para o presente.
Nesse contexto, a tecnologia não aparece como vilã. A questão está no modo como ferramentas de avaliação e controle podem acabar substituindo relações humanas.
O GTO de 2026 continua envolvente porque Eikichi transforma o ambiente ao seu redor sem jamais parecer totalmente adequado a ele. Sua trajetória lembra que ensinar não é apenas transmitir conteúdo, cumprir metas ou obter boas avaliações. É também estar disposto a ouvir, conversar, sorrir e tentar alcançar alguém que já não acredita nos adultos.
Depois de quase três décadas, Onizuka mudou de idade, de contexto e de problemas. Mas a pergunta central permanece: o que faz de alguém um grande professor? A nova série não oferece uma resposta simples. Talvez seu mérito esteja justamente em lembrar que nenhuma métrica é capaz de substituir a capacidade de enxergar o aluno como pessoa.
Onizuka não representa um método pedagógico aplicável à realidade. Seus conflitos são tratados de maneira exagerada, como é próprio da ficção. Isso não significa, porém, que ele não possa servir como exemplo. O personagem encarna a fantasia de um professor que se recusa a desistir dos alunos.
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Fonte: Carta Capital