Nossa Senhora Aparecida e a disputa política pela fé no Brasil

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Por Alexandre Machado Rosa — Brasil 247

Em 31 de maio de 1931, Nossa Senhora Aparecida foi solenemente proclamada Padroeira do Brasil. A devoção, nascida em torno da imagem encontrada por três pescadores no rio Paraíba do Sul em 1717, já atravessava gerações. O reconhecimento oficial deu nome a um vínculo que milhões de brasileiros haviam construído com a santa ao longo da constituição do Brasil como nação.

A fé ocupa um lugar profundo na vida do país. Está nas romarias, nas festas do interior, nos terreiros, nas igrejas e até nas arquibancadas. São Jorge, tão querido no Rio de Janeiro, é também o padroeiro do Corinthians. Essas são expressões distintas de uma religiosidade que o povo incorporou ao cotidiano.

O povo brasileiro também constituiu sua fé como forma de suportar a violência das classes dominantes do país, forjadas na maldade e no mandonismo de latifundiários e senhores de escravizados. Essas elites conduziram o fim da monarquia e proclamaram a República, mas mantiveram os mesmos princípios: a violência como método e a maldade como receita.

Essa história não nasceu sem conflitos. Os jesuítas participaram da ocupação portuguesa, e a catequese serviu à imposição de valores europeus aos povos originários. Africanos escravizados tiveram suas crenças perseguidas. Ainda assim, tradições resistiram, transformaram-se e deram origem a novas expressões religiosas, entre elas a Umbanda.

A diversidade da fé brasileira carrega tanto a violência da colonização quanto a capacidade de resistência de seu povo. Há também a fé dos sertanejos, que sempre enfrentaram, ao mesmo tempo, a seca e a violência dos coronéis.

Vale sempre lembrar do arraial de Belo Monte, conhecido como Canudos. Em 1893, sob a liderança de Antônio Conselheiro, sertanejos de várias regiões se estabeleceram em uma antiga fazenda às margens do rio Vaza-Barris. O povoado atraiu milhares de pessoas, entre elas sertanejos pobres, ex-escravizados e indígenas, e chegou a reunir dezenas de milhares de habitantes. A vida comunitária e a partilha de recursos faziam parte de sua organização.

Entre 1896 e 1897, as autoridades republicanas lançaram sucessivas expedições militares contra Canudos a fim de destruí-la. A acusação de que os habitantes de Belo Monte pretendiam restaurar a monarquia ajudou a apresentar o arraial como uma ameaça no imaginário popular. Antônio Conselheiro morreu em 22 de setembro de 1897, durante o cerco militar, em meio às condições de extrema privação enfrentadas pela população. Em outubro, Belo Monte foi destruído. Milhares de pessoas morreram, e até prisioneiros foram degolados. Uma ferida que exemplifica a violência das classes dominantes contra o povo pobre. Canudos ainda vive entre nós, nas favelas e na manipulação da fé.

É por isso que a notícia de uma possível tentativa de rebaixar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil provocou reação. O comentário feito na GloboNews sobre uma articulação atual foi posteriormente negado. Não há, até aqui, uma proposta em tramitação que permita afirmar que Flávio Bolsonaro pretenda retirar o título da santa; ele próprio negou essa intenção. Transformar a suspeita em fato seria um erro. Mas, como a mentira é o modus operandi da extrema direita, é prudente manter o alerta.

Há, porém, um antecedente que merece ser lembrado. Em 2007, um deputado apresentou projeto para substituir, na lei do feriado de 12 de outubro, a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada no ano seguinte. Sua existência mostra que a tentativa de restringir esse reconhecimento já chegou ao Congresso, embora não comprove uma nova articulação em curso.

Também merece debate a promessa de Flávio Bolsonaro de, caso eleito, decretar que o Brasil “é do Senhor Jesus Cristo”. Uma declaração de fé é direito de qualquer pessoa. Na boca de um candidato à Presidência, a promessa de fazer do Estado o porta-voz de uma crença específica tem outro peso. O Brasil reúne católicos, evangélicos, praticantes de religiões de matriz africana, seguidores de muitas outras tradições e pessoas sem religião. Nenhum governante pode falar em nome da fé de todos.

Vale recordar que, na Assembleia Nacional Constituinte de 1946, a bancada do Partido Comunista do Brasil (PCB), que contava com nomes como Luís Carlos Prestes, João Amazonas, Carlos Marighella e Jorge Amado, teve atuação direta para que o Estado protegesse legalmente o direito de escolha e a prática religiosa de todos os cidadãos brasileiros. A defesa da liberdade de culto sempre foi uma bandeira dos que defendem a democracia.

A extrema direita tem recorrido a símbolos religiosos para mobilizar eleitores e apresentar adversários como inimigos da fé. É essa instrumentalização que precisa ser enfrentada. Defender o respeito a Nossa Senhora Aparecida não exige atribuir a Flávio Bolsonaro um projeto que não foi demonstrado. Exige recusar que a devoção popular seja transformada em arma eleitoral e afirmar, com a mesma firmeza, a liberdade de crença de todo o povo brasileiro.

Fonte: Brasil 247

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