“Nós estamos à beira de um desastre”, alerta Paulo Nogueira Batista Jr.
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O economista Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que a eleição presidencial de 2026 coloca em disputa a própria capacidade do Brasil de continuar decidindo de forma autônoma seus rumos políticos, econômicos e diplomáticos. Para o ex-diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vice-presidente do Banco dos BRICS, uma vitória do bolsonarismo significaria abrir caminho para uma relação de dependência direta em relação aos Estados Unidos.
Em entrevista à TV 247, Nogueira Batista sustentou que o cenário atual é mais grave do que o enfrentado pelo país nas eleições de 2018 e 2022 porque ocorre em um contexto internacional marcado pelo fortalecimento da política externa de Donald Trump e pelo alinhamento de governos latino-americanos a Washington.
“Nós estamos à beira de um desastre, flertando com um desastre, nós como nação, como sociedade”, afirmou.
O economista apontou como principal sinal desse risco a aproximação política do candidato Flávio Bolsonaro com o governo norte-americano. Segundo ele, compromissos públicos de cooperação com Washington ultrapassaram os limites normais das relações diplomáticas entre os governos.
Nogueira Batista mencionou uma carta atribuída ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na qual o integrante do governo Trump agradeceria uma manifestação de Flávio Bolsonaro sobre a criação de um grupo de transição entre uma eventual futura administração brasileira e o governo dos Estados Unidos.
“Nunca entre um governo nacional eleito e um governo estrangeiro. Eu nunca vi uma oferta tão sem vergonha da parte de um candidato à Presidência”, disse.
Para o economista, a questão central não está apenas na política externa que poderia ser adotada por um eventual governo Bolsonaro, mas na transferência de poder decisório para fora do país. Ele classificou esse alinhamento como uma ameaça ao princípio da soberania nacional.
“Se eleito, será o quê? Vassalo dos Estados Unidos. Um aliado carnal. Você tem aí um grupo político brasileiro que não tem identidade nacional”, afirmou.
Na avaliação de Nogueira Batista, a possibilidade de subordinação externa deve ocupar o centro do debate eleitoral. Ele argumentou que a disputa não pode ser apresentada apenas como uma comparação entre programas de governo, porque envolve concepções distintas sobre a posição do Brasil no sistema internacional.
O economista afirmou que uma eventual volta do bolsonarismo ao Palácio do Planalto ocorreria em um ambiente geopolítico diferente daquele existente durante o primeiro governo Jair Bolsonaro. Com Trump novamente no comando dos Estados Unidos e governos de direita ampliando sua presença na América Latina, a pressão sobre o Brasil seria maior.
“Por causa do entorno internacional, por causa do que alguns têm chamado de hiper imperialismo dos Estados Unidos, nós estamos à beira de um desastre”, disse.
Ele citou ainda a posição de setores bolsonaristas em relação aos BRICS como exemplo das consequências que uma mudança de governo poderia produzir. Segundo Nogueira Batista, a eventual saída do Brasil do bloco teria efeitos que ultrapassariam as fronteiras nacionais, atingindo a articulação construída por países do Sul Global e o equilíbrio político internacional.
O Brasil é um dos fundadores dos BRICS e participou também da criação do Novo Banco de Desenvolvimento, instituição financeira vinculada ao grupo. Para o economista, abandonar essa estrutura representaria uma mudança de orientação da política externa brasileira e aproximaria o país do caminho seguido pela Argentina sob governos alinhados a Washington.
“Vejam a dimensão do que essa eleição representa também em termos de equilíbrio mundial. O Brasil é fundador dos BRICS, fundador do Banco de Desenvolvimento dos BRICS, e se retiraria do grupo”, afirmou.
Nogueira Batista também relacionou soberania externa e controle sobre recursos estratégicos. Ao recordar a privatização da Eletrobras durante o governo Jair Bolsonaro, disse que decisões sobre energia, infraestrutura e patrimônio público precisam ser compreendidas dentro do debate sobre autonomia nacional.
Segundo ele, a venda do controle da empresa criou uma estrutura na qual o Estado permanece com uma participação relevante no capital, mas possui poder de voto limitado. Para o economista, situações desse tipo mostram como a perda de instrumentos econômicos internos pode reduzir a capacidade de ação de futuros governos.
“Nós estamos lidando com exemplos concretos que precisam ser lembrados. As pessoas têm que saber que patrimônio público foi vendido em condições que limitam a capacidade do Estado”, afirmou.
O economista argumentou ainda que soberania não é uma condição permanente e pode ser progressivamente enfraquecida. Ele citou países submetidos a guerras, intervenções estrangeiras e processos de desestruturação estatal para sustentar que instituições nacionais, território e capacidade de decisão não devem ser tratados como conquistas irreversíveis.
“É muito importante as pessoas não desprezarem o que nós temos: unidade territorial, unidade nacional, instituições que, precárias que sejam, são nacionais, e o direito de escolher o nosso destino”, afirmou.
Para Nogueira Batista, essa dimensão deveria aparecer com mais intensidade na campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele avaliou que, diante do estreitamento mostrado pelas pesquisas eleitorais, a estratégia baseada principalmente na apresentação de realizações do governo e propostas para um novo mandato já não seria suficiente.
“Não pode fingir que é líder. Tem que ir para cima, tem que falar com firmeza e alertar o brasileiro sobre o risco. Não é vencer ou perder: é viver ou não viver como nação”, declarou.
Ele defendeu que Lula apresente ao eleitorado as diferenças entre os dois projetos também no campo da política internacional e denuncie compromissos assumidos pelo bolsonarismo com governos estrangeiros.
“O presidente precisa transmitir isso na sua campanha. Precisa pegar essa carta do Marco Rubio e explicar à opinião pública. Isso não tem precedente”, afirmou.
Nogueira Batista ressaltou que sua defesa do voto em Lula não decorre de identificação partidária. Disse manter críticas ao PT e ao atual governo, mas afirmou que essas divergências se tornam secundárias diante do que considera uma ameaça à autonomia brasileira.
“Eu não sou lulista, não sou petista. Sou crítico do Lula e do PT. Mas uma coisa é criticar um governo que faz parte do jogo político normal. Outra coisa é se defrontar com um governo que representa a destruição da essência nacional”, disse.
Na avaliação do economista, o caráter excepcional da disputa impõe também uma responsabilidade aos eleitores que mantêm críticas ao governo Lula ou consideram anular o voto.
“Mesmo aqueles que não morrem de amores pelo Lula precisam pensar bem. O que querem? Jogar o Brasil no abismo do bolsonarismo subordinado ao trumpismo?”, questionou.
Ao final, Nogueira Batista afirmou que o resultado da eleição terá consequências que poderão ultrapassar um mandato presidencial e definir a posição internacional do Brasil durante décadas.
“É uma emergência. Essa gente jovem vai ser prejudicada durante a vida inteira se nós tomarmos o rumo do abismo. Isso vai ter consequências que vão nos acompanhar durante décadas”, concluiu.
Fonte: Brasil 247