Nordeste temido e destemido
Por Cibele Barbosa — Brasil de Fato
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Historiadora, doutora, professora e pesquisadora sobre colonialismo na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).
No dia seguinte ao resultado do 1º turno das eleições presidenciais, uma lamentável enxurrada de posts tomou conta das redes sociais com um virulento discurso anti-Nordeste. Vistos de relance, tais posts seriam derivados de um descontentamento de partes dos eleitores de direita com o fato de a região concentrar os votos que levaram o presidente Lula ao 2º turno. Não foi a primeira vez. Em 2022, os votos dos “nordestinos” despertaram o ranger de dentes em muitos eleitores contrários a Lula. Os discursos se repetiram, sempre com maior virulência e violência nas palavras.
Foi viral o vídeo de Rodrigo Constantino chamando a Bahia — a Bahia de todos dos Santos, em que corre viva a nossa história — de “câncer” do Brasil. Outras ofensas se seguiram na mesma fala. A ideia: desqualificar as pessoas que votaram no candidato de esquerda. O discurso se revela mais que uma ofensa indignada: ela se apresenta como lixo — uso o termo “lixo” não de forma superficial, mas “lixo” pelo que representa: restos apodrecidos de algo. Esse lixo proferido pelo influencer direitista é um misto amorfo de ideias apodrecidas.
Em geral, os termos usados para desqualificar “nordestinos” são ideias e comportamentos que deveriam estar no lixo da nossa história, tais como racismo e o pensamento escravista, que infelizmente são retirados do lixo e jogados na nossa cara em posts e vídeos. Ao desqualificar o baiano como “preguiçoso” e indolente, ele atualiza um imaginário arcaico, dos primeiros anos da República, provenientes do chamado “racismo científico” que buscavam generalizar, enquadrar e tipificar pessoas. Em outras palavras, atribuíam a pessoas negras o rótulo de “inviáveis” frente ao progresso.
E não eram só os falsos determinismos biológicos que desqualificavam a região: os determinismos climáticos também. Esse pensamento, que vem do século 18, trazia a falsa ideia de que regiões mais quentes, tropicais, também seriam fatores que atrapalhariam o progresso. Imaginários serviram de “justificativa” para explicar as desigualdades. Para esses antepassados racistas, os problemas da região não eram decorrentes do passado escravista, a falta de investimentos públicos, a falta de distribuição de terras ou a falta de investimento em educação e saúde. Nada disso. Eles culpabilizavam a raça e o clima. Puro suco de racismo.
Essa ideia violenta já estava no lixo da história, mas o que observamos é exatamente a recuperação da cartilha racista. Ora, desqualificar a Bahia é desqualificar seu povo, em sua maioria formado por pessoas negras. Na verdade, são muitas camadas de racismo presente nesse discurso.
O Nordeste é um termo tão usado. E a região, com suas pessoas e características, algo tão naturalizado, que as pessoas esquecem que ele é uma “invenção”, como bem definiu o historiador Durval Muniz. Nos jornais do início do século 20, por vezes se adotava esse nome não para se referir a uma região, mas a uma localização no mapa. Nordeste, porção leste. Em geral se dizia Norte. Por exemplo, ao dizer que um estado era do “Norte”, tanto poderia ser Pernambuco quanto o Amazonas.
O livro “Nordeste”, publicação organizada por um jovem jornalista Gilberto Freyre, buscou colar algumas caraterísticas culturais a esse nome. Artes, culinária e outros aspectos foram elaborando um desenho simbólico dessa porção do Brasil. Nos anos 1940, quando, já no governo Vargas, estabeleceu-se a divisão do Brasil em regiões, sendo o Nordeste composto por 5 estados.
Nesse tempo, os milhares de “nordestinos” de regiões do interior que migravam para cidades do Sudeste foram largamente estereotipados e alvo de múltiplos preconceitos. Em um Brasil que definiu seus padrões de beleza e cultura baseados no modelo da branquitude, sobre pessoas negras e indígenas desabavam adjetivos desqualificantes e racismo como entretenimento: associavam-nos ao feio, indolente, atrasado, ignorante. A falsa associação de estados mais frios e mais “brancos” como ambientes do “progresso” ganhavam corpo nas falas racistas. Nada mais colonizado do que imaginar que sermos uma cópia malfeita de outro país nos qualifica em algo.
Enquanto isso, populações migrantes criaram seus elos de pertencimento em um mundo que as fragmentava. É o tempo em que o forró de Luiz Gonzaga ganha força nas vitrolas e nas rádios, as feiras como a de São Cristóvão (no Rio) tornavam-se espaços de identificação. Aos poucos, o rótulo de “nordestino” passou a ganhar força e positividade. Orgulho de ser nordestino passou a ser uma reação e uma resposta ao preconceito. Intelectuais passaram a ver nesse espaço/cenário/ideia as origens do Brasil brasileiro: espaço de confluências de povos e culturas formadoras do Brasil.
Assim, esse contradiscurso passou a qualificar o Nordeste como espaço produtor de cultura e religiosidade; não faltaram na literatura nacional os que chamaram a atenção para esse Nordeste fervilhante: João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e tantos outros. O Nordeste das agruras do Sertão ou das abundâncias dos rios e praias condensou anseios e sentimentos de pertença: na literatura, na música, na gastronomia, na dança, no patrimônio histórico, nas lutas políticas.
Mas esse Nordeste imaginado e solidificado, como “realidade/invenção” que se projeta, manteve-se também como alvo de discursos xenófobos e racistas. Espaço de revoltas e sublevações, de lutas no campo e na cidade, de xotes e baião, de frevos e axés, esse Nordeste tão diverso e amalgamado, tão complexo e multifacetado, desperta, pelo histórico das lutas políticas, rancores de um Brasil cindido. Mas permanecerá, todavia, unido enquanto povo destemido.
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Fonte: Brasil de Fato