Nobel de Medicina 2026: o que é a optogenética, técnica premiada que pode ajudar a tratar a cegueira
Por Isabella Scaramucci — Seu Dinheiro

Imagine a ciência avançar tanto a ponto de descobrir como ativar ou desativar células específicas do cérebro humano. Parecia impensável há algumas décadas, mas foi justamente o que o Nobel de Medicina de 2026 premiou nesta segunda-feira (5).
Desenvolvida pelos pesquisadores Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel, a técnica recebeu o nome de optogenética. Por meio da luz, ela permite controlar neurônios específicos, funcionando como uma espécie de interruptor biológico.
O método teve origem na alga Chlamydomonas, que levou à descoberta de proteínas capazes de responder à luz. Hoje, a optogenética revoluciona os estudos sobre o cérebro e já começa a mostrar potencial no tratamento da cegueira e de outras doenças.
Além do reconhecimento, os pesquisadores da Alemanha e dos Estados Unidos também dividirão igualitariamente um prêmio de 12 milhões de coroas suecas, o equivalente a cerca de US$ 1,2 milhão.
Optogenética: como funciona a técnica que rendeu um Nobel
A optogenética permite ativar neurônios específicos, ajudando cientistas a identificar o papel de determinadas células nervosas em um cérebro vivo com uma precisão inédita.
De forma simplificada, os cientistas inserem nas células genes que as tornam sensíveis à luz. Assim, quando são iluminadas por um comprimento de onda específico, elas podem ser ativadas ou desativadas quase instantaneamente.
Isso permite mapear circuitos neurais com precisão e compreender como diferentes grupos de neurônios participam da formação de memórias, emoções, movimentos e decisões.
Como a optogenética trataria doenças?
Uma das aplicações mais promissoras da optogenética está na oftalmologia.
A técnica vem sendo testada para restaurar parcialmente a visão de pessoas com retinite pigmentosa, doença hereditária que compromete progressivamente a capacidade da retina de captar a luz e pode levar à cegueira.
A estratégia consiste em tornar sensíveis à luz células da retina que permaneceram funcionais após a doença. Quando estimuladas, elas passam a enviar sinais ao cérebro, recuperando parte da função perdida pelos fotorreceptores.
Segundo a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska, essa abordagem já está sendo testada em pacientes que perderam a visão devido à retinite pigmentosa. Porém, os resultados ainda são limitados e a técnica continua em desenvolvimento.
A optogenética também pode ajudar a melhorar os implantes cocleares usados no tratamento da surdez. A expectativa é que a estimulação por luz seja mais precisa do que a elétrica, aprimorando a qualidade da audição.
Como se descobriu a optogenética?
A base da optogenética está nas chamadas canalrodopsinas, proteínas sensíveis à luz encontradas na alga Chlamydomonas.
No início dos anos 1990, o pesquisador Peter Hegemann observou que a alga reagia à luz com uma rapidez extrema, e passou a investigar como isso acontecia. Ele levantou a hipótese de que algo seria capaz de captar a luz e desencadear uma resposta elétrica na célula.
Anos depois, Georg Nagel ajudou a identificar a canalrodopsina-2, proteína que reage diretamente à luz e permite ativar a atividade das células. Isso mostrou que a luz poderia ser usada para controlar processos biológicos.
Em 2005, Karl Deisseroth demonstrou que essa proteína também poderia ser utilizada para controlar neurônios em animais. E esse foi o começo do desenvolvimento da optogenética.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.
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Fonte: Seu Dinheiro