Neurociência e educação: promessas e problemas. A neurociência é a luz da humanidade? (parte 2)
Por Cidade das Letras: literatura e educação — Brasil de Fato
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A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga, doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.
por Cleiton Donizete Corrêa Tereza
A questão dos conhecimentos das neurociências aplicados à educação despertou meu interesse especialmente durante uma experiência vivenciada em 2018, quando coordenei um setor responsável pela formação continuada dos educadores públicos de uma secretaria municipal de Educação. Naquele momento, a equipe identificou dificuldades de compreensão dos professores da rede de ensino a respeito dos níveis de desenvolvimento dos estudantes e seus comportamentos.
Para intervir positivamente na situação, que gerava estranhamentos e conflitos nas unidades escolares, em diálogo com a equipe de uma instituição parceira, que ofertava atendimento especializado para pessoas com deficiência, elaboramos um curso voltado para cognição e aprendizagem, em quatro módulos, totalizando doze horas, que foi realizado por cinquenta e dois profissionais.
Durante o correr do ano, ficaram ainda mais perceptíveis as dificuldades de compreensão e relacionamento entre parte dos educadores e educandos, sobretudo do Ensino Fundamental II.
Novamente, entre outras atividades, projetos e cursos, que envolviam formações direcionadas por áreas, projetos de educação ambiental e artísticos, iniciativas para gestões democráticas, melhoria da qualidade das relações interpessoais, palestras e encontros sobre questões étnico-raciais, foram construídas ações específicas pelo setor que eu coordenava abordando os conhecimentos das neurociências sobre desenvolvimento na puberdade e na adolescência.
Primeiro, a título de apresentação, foi realizada uma palestra para cerca de quatrocentos profissionais, tratando do cérebro do adolescente e seus desafios. Depois, houve um desdobramento com a realização do curso sobre como pensa o adolescente, envolvendo a maturação cerebral e o aprender, para cinquenta educadores.
Acompanhei essas iniciativas desde os primeiros diálogos – estimulados pela secretária municipal de Educação à época, uma entusiasta das neurociências no campo educacional – até a realização dos encontros formativos, interação e orientação aos cursistas e avaliações posteriores.
As ações foram bem avaliadas por todos os envolvidos, tanto que, ainda hoje, a profissional, com especialização em neuropsicologia, demonstrando capacidade e desenvoltura à frente dos cursos, segue requisitada pelas escolas como palestrante e leciona sobre essas temáticas em nível superior.
Durante a realização dos cursos, especialmente sobre os adolescentes, ficava explícito que os educadores, entusiasmados com as informações sobre o desenvolvimento e funcionamento do cérebro, compreendendo suas partes, as sinapses, os estímulos e suas consequências, ficavam encantados e muitas vezes diziam: “ah… então é por isso!”.
De tal modo que, embora, desde a concepção à execução, tenham existido cuidados para que as abordagens biológicas quanto ao corpo, notadamente o órgão em estudo, o cérebro, não se desconectassem de aspectos sociais, econômicos, históricos – e foram feitas intervenções durante os encontros formativos nesse sentido –, a tendência seguia uma assimilação direta entre as funções (ou disfunções cerebrais) e a atitude ou os comportamentos das pessoas, especialmente os adolescentes, mas não só.
Por vezes, diante dos conteúdos apresentados, havia reações e participações orais que indicavam associações dos educadores em busca de explicações para suas próprias sensações e atitudes. Isso não é exatamente um problema, a princípio. Pelo contrário, é necessário e desejável que uma ação educativa que, assim sendo, envolve intencionalidades, crie condições para a autorreflexão. Contudo, o movimento era de buscar respostas breves, singulares, individuais para situações e problemas complexos.
Em outras palavras, a inclinação era de caminhar para uma racionalidade neoliberal, marcada pelo pragmatismo instrumental impositivo, isolando comportamentos e indivíduos, em busca de correspondência imediata. As fórmulas, os treinamentos, as aplicações, as receitas, os condicionamentos, os diagnósticos, enfim, toda cultura comportamental do receituário neoliberal instrumental era propensa a se sobrepor e limitar horizontes que envolvem outros aspectos e outras ciências e saberes.
Todavia, isso não estava tão claro para mim naquele momento, os incômodos foram melhor compreendidos a partir da posterior leitura de Laval e Vergne no livro “Educação democrática: a revolução iminente”, lançada no Brasil em 2023. Compartilho um trecho, um pouquinho longo, mas que vale muito a pena, das páginas de 80 à 82:
“A psicologização e a medicalização tornam-se modos ‘normais’ de lidar com as ‘dificuldades escolares’. (…) Essa individualização dos ‘problemas’ fomenta medos sociais e remédios demagógicos, ao mesmo tempo que reforça a interpretação neoliberal da missão da escola como ‘inserção social e profissional’ e ‘formação para empregabilidade’. A instituição escolar torna-se então a via expressa para as empresas privadas e os serviços de emprego segundo um continuum institucional marcado pelo disciplinamento das camadas mais precarizadas da população”.
Os autores continuam: “É exatamente isso que os governos conservadores se recusam a fazer, reduzindo os problemas de aprendizagem a uma abordagem psicologizante, a qual encontra um novo impulso com a aplicação das neurociências à educação.”
A realidade observada, submetida à literatura crítica, indica a incorporação do reducionismo individualista neoliberal entre os profissionais da educação que participaram das formações. Essa mentalidade, é necessário considerar, está presente na gênese de diversas instituições, inclusas no espectro empresarial que recebem fomentos públicos, inclusive por meio de dedução de impostos, como uma espécie de suplementação de políticas públicas.
Não é raro que instituições desse tipo tenham vínculos com partidos e políticos de direita, igrejas, lojas maçônicas e outras Organizações da Sociedade Civil (OSCs) – antes nomeadas Organizações Não Governamentais (ONGs) – de caráter assistencialista e fisiológico. Assim, mesmo diante das orientações pedagógicas para a elaboração e realização das formações continuadas, almejando superar discursos e assimilações que fortalecem a individualização dos problemas (e das almejadas soluções), o pragmatismo instrumental tende a ser flagrante.
Acrescento ainda que, no artigo “Mente, cérebro e educação: um campo transdisciplinar”, a pesquisadora portuguesa Joana Rodrigues Rato, apresenta alguns dos “neuromitos” mais recorrentes, como “inteligências múltiplas”, “ensino dirigido aos estilos de aprendizagem” e “lado esquerdo contra o lado direito do cérebro”, e afirma também que intervenções transdisciplinares envolvendo psicologia, neurociências e educação precisam atentar para uma série de fatores como “clima motivacional”, “estilos de ensino”, “interação professor-aluno” e também “características dos alunos”.
Porém, apesar da autora dizer de alguns cuidados nessa transposição dos estudos das neurociências para a educação, os pontos para os quais alerta não são suficientes.
É preciso, para um trabalho educativo consistente, evidenciar centralmente os aspectos socioeconômicos dos estudantes, de suas famílias e da região em que se encontram, observando também sua classe social, condições de acesso aos direitos básicos (moradia, segurança, alimentação, educação, cultura, cuidados, saúde) e as relações políticas, isto é, de poder, que envolvem outras variantes, como raça-etnia e gênero.
Do contrário, a patologização, a medicalização e a imposição da flexibilidade (do cérebro e da vida) às determinações neoliberais autoritárias, promotoras de injustiças e sofrimentos, podem ser discursivamente atenuadas e pragmaticamente reforçadas.
Cleiton Donizete Corrêa Tereza é professor Doutor do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) e do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEdu) da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor de História nas redes municipal de Poços de Caldas e estadual de Minas Gerais por quase duas décadas. Lidera o Grupo de estudos e pesquisa sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC). Tem atuado em órgãos e movimentos sociais em defesa da educação pública, democrática e de qualidade.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal
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Fonte: Brasil de Fato