Por Emir Sader — Brasil 247

Atribui-se a Jorge Videla, ex-ditador da Argentina, a frase: “Nem vivos, nem mortos: desaparecidos”. Daí surgiu a expressão, que passou a se referir a 35 mil pessoas, vítimas da ditadura militar argentina: desaparecidos.

Eu mesmo passei a viver essa expressão, quando minha companheira brasileira, Maria Regina Marcondes Pinto, em 10 de abril de 1976, foi sequestrada, na rua Pueyrredón, e foi incluída na longa lista de desaparecidos durante a ditadura argentina, de que Videla foi a primeira expressão.

Eu estava viajando, em Cuba, no Hotel Havana Livre, quando, de repente, apareceu o próprio Fidel no meu quarto, com uma garrafa do rum Havana Clube, para me dar a triste notícia.

Passei a viver os piores tempos da minha vida. Perder aquela que era a companheira mais importante da minha vida, sem saber exatamente o que se passou, o que ela deve ter vivido nas mãos daqueles monstruosos assassinos. Fidel me convenceu de que provavelmente ela nunca reapareceria. Duramente tive que assimilar a ideia de que ela passaria a estar incluída na enorme lista de desaparecidos na Argentina.

Ela foi sequestrada junto com Edgardo Enríquez, irmão do principal dirigente do MIR chileno, Miguel Enríquez, organização a que pertencíamos.

Recentemente, recebi, com um misto de sentimentos controvertidos, a decisão da USP (Universidade de São Paulo), onde ela estudou e onde eu a conheci, como seu professor, de lhe atribuir um diploma póstumo.

Um reconhecimento que eu não sabia que existia e que me parece uma distinção justa, que se atribui aos que não puderam concluir seus cursos, vítimas das ditaduras militares.

Houve uma cerimônia no Departamento de História da USP, em que eu recebi uma placa e o diploma póstumo da Maria Regina.

Uma bela iniciativa, entregue a outros ex-estudantes da USP, que poderia ser reproduzida em outras universidades latino-americanas, vítimas das ditaduras militares que viveram nossos países.

Fonte: Brasil 247

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