Nem quem guarda dinheiro está no controle: pesquisa da Serasa revela os 4 perfis financeiros dos brasileiros
Por Giovanna Figueredo — Seu Dinheiro

Para boa parte das pessoas, guardar dinheiro e investir são sinônimos de um controle bem-feito das finanças pessoais e uma boa educação financeira. Porém, uma pesquisa divulgada pela Serasa Experian nesta terça-feira (29) mostra que essa percepção pode ser uma falácia.
O levantamento identificou quatro perfis de trabalhadores no país, a partir da forma como lidam com o dinheiro, o planejamento financeiro e as dificuldades das contas no dia a dia.
Os grupos foram classificados como:
- Vivem o agora;
- Apertados;
- Organizando o futuro; e
- Consolidados.
A sensação de controle pode ser enganosa
Segundo a pesquisa, 52% dos trabalhadores afirmam guardar dinheiro regularmente. Mas os percentuais são bem discrepantes entre cada perfil, com uma diferença de 72 pontos percentuais entre os extremos dos “apertados” e os “consolidados”.
De acordo com o estudo, o grupo “vivem o agora” é formado, em geral, por trabalhadores em uma fase mais inicial da carreira e com foco maior em experiências e necessidades de curto prazo.
Esse perfil é justamente o que demonstra uma das maiores sensações de controle sobre a própria vida financeira. Em uma escala de 0 a 10, a percepção média de controle é de 7,23. Além disso, 31% deles guardam dinheiro regularmente, mostram os dados.
Porém, na prática, esses profissionais não têm uma vida financeira tão controlada.
Cerca de 55% dos integrantes desse perfil estão inadimplentes e 66% ficaram negativados nos últimos 12 meses – mais do que o grupo de “apertados”, que tem a menor autopercepção de controle financeiro, com nota de 5,53.
Muitos também dizem precisar de fontes extras de renda para conseguir fechar as contas no fim do mês.
“Essas pessoas pensam algo como ‘tenho receita, tenho recursos e quero atender demandas de curto prazo’”, explica Délber Lage, diretor de soluções de RH da Serasa Experian. O problema, segundo o executivo, é que essa percepção pode pressionar as finanças no futuro.
Já o grupo dos “apertados” reúne pessoas com uma realidade financeira mais difícil.
Em muitos casos, de acordo com Lage, são trabalhadores que já possuem filhos e têm uma responsabilidade maior dentro do orçamento familiar. Não é à toa que somente 13% conseguem guardar dinheiro pensando no futuro.
A inadimplência alcança 62% desse público, com 55% negativados nos últimos 12 meses. Nos últimos cinco anos, 97% dizem ter enfrentado algum problema financeiro.
Segundo o executivo, esse é o grupo que convive com os maiores níveis de estresse financeiro.
Os perfis mais organizados
Do outro lado estão os trabalhadores do grupo “organizando o futuro”. Eles já conseguem manter um controle maior das contas, um planejamento financeiro mais estruturado e olhar para objetivos de longo prazo.
A inadimplência neste caso é de 18%, enquanto 55% afirmam guardar dinheiro. Segundo Lage, são pessoas que conseguem direcionar parte da renda para investimentos e criação de uma reserva financeira, por exemplo.
Outro grupo é o de “consolidados”, formado por profissionais que têm muito menos pressão sobre a vida financeira e contas já bem estruturadas.
Os dados da pesquisa mostram que, entre eles, 85% poupam regularmente e só 7% estão inadimplentes.
O estresse financeiro também é menor, defende o diretor de soluções de RH da datatech. Lage mostra que, enquanto quase todos os “apertados” afirmam ter enfrentado problemas financeiros nos últimos cinco anos, entre os “consolidados” esse percentual cai para 28%.
O executivo defende que a saúde financeira não depende somente da renda ou da capacidade de guardar dinheiro. Para ele, há outros fatores como planejamento, composição familiar, uso de fontes de crédito e organização das despesas.
Vida financeira não necessariamente é proporcional à renda
Um dos pontos defendidos pela pesquisa é que não necessariamente os grupos com maior organização financeira são os que têm maior renda.
Entre os trabalhadores “apertados”, 43% têm renda entre dois e quatro salários-mínimos (R$ 3.242 a R$ 6.484). No grupo “organizando o futuro”, o percentual é de 47%.
Os “apertados” têm maior nível de endividamento, estresse e dificuldade para fechar as contas, enquanto do outro lado estão os outros com mais capacidade de controle financeiro.
Porém, existem alguns fatores que ajudam a explicar essa discrepância, segundo a pesquisa, como o número de pessoas na família, educação financeira e hábitos de consumo.
Como cada grupo usa o crédito
Outra diferença entre os quatros perfis é o uso de crédito. Para 91% dos “apertados”, o parcelamento é a única forma de conseguir fazer compras. O percentual é parecido com as pessoas do grupo “organizando o futuro”.
Porém, como explica Lage, há uma diferença no uso desse parcelamento.
Para as famílias com maior aperto financeiro, os parcelamentos são usados para cobrir despesas emergenciais e aliviar pressões imediatas do orçamento. Porém, isso pode criar um ciclo difícil de romper: 52% dizem que os empréstimos estão entre os gastos que impedem de sobrar dinheiro no final do mês.
Já para os perfis mais organizados, o executivo da Serasa afirma que o crédito é usado de forma mais consciente, sem que haja uma pressão no orçamento do mês.
“Crédito não é ruim. É preciso avaliar como ele está sendo usado e qual o impacto dessa dívida nos gastos mensais da família”, explica Lage.
Qual é o impacto sobre os empregadores?
A pesquisa foi realizada com 1.008 funcionários de empresas públicas e privadas. No entanto, a Serasa não divulga quanto cada perfil representa da amostra total.
Segundo Lage, o objetivo dos dados é mostrar para empregadores que não é possível oferecer um único pacote de benefícios para os funcionários. É preciso, segundo ele, mapear as diferentes necessidades dentro de uma mesma empresa.
Por exemplo, para alguns, a organização das dívidas é a prioridade, enquanto para outros, a prioridade já é o acesso a investimentos para o longo prazo.
O executivo cita, inclusive, o peso que a vida financeira tem na saúde mental dos brasileiros. Para ele, a responsabilidade da companhia sobre as finanças dos empregados deve estar no radar, principalmente em meio à atualização da NR-1.
“Boa parte das pessoas que estão sob estresse emocional tem o componente financeiro como um dos motivos. Isso tem impacto no ambiente de trabalho também”, defende.
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Fonte: Seu Dinheiro