Não só é possível, como é imprescindível vencer
Por Mauri Cruz — Brasil de Fato
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Advogado socioambiental (PUC/RS), especialista em direitos humanos (UFRGS/ESMPU), professor de pós-graduação nas disciplinas de planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade urbana, contratos, licitações, parcerias e gestão de organizações da sociedade civil. Diretor Executivo do Instituto de Direitos Humanos – IDhES, consultor, sócio e diretor da Usideias – Usina, Ideias e Projetos Ltda pela qual atua nos temas de pesquisa, planejamento, gestão, comunicação e avaliação de programas e projetos há mais de 20 anos.
Terminado o primeiro turno, abateu-se uma enorme perplexidade sobre a base de apoio do Presidente Lula. Não foi para menos: apesar de praticamente todas as pesquisas apontarem empate técnico e, como comentei em artigo anterior, haver um ponto cego no eleitorado que impossibilitava prever para que lado iria se deslocar, a militância mobilizada e o discurso do próprio Lula animavam a ideia da vitória já no primeiro turno. Mas, como sabemos, o resultado foi bem diferente do esperado — em especial nas disputas estaduais. O PL elegeu cinco governadores no Sul e no Sudeste; o PT elegeu três, todos no Nordeste, e ainda há disputa no Distrito Federal e no Rio Grande do Norte. Nas disputas para o Senado Federal, a maioria dos candidatos e candidatas do campo progressista foi derrotada. O PL elegeu 19 senadores, passando a 28 das 81 cadeiras — 34,6% do total. Na Câmara Federal, ampliou para 121 deputados, 23,6% do total, uma das maiores bancadas de um único partido desde a redemocratização, em 1985.
A avaliação deste resultado só pode ter uma conclusão: o projeto democrático sofreu uma grande derrota. E, não fosse a extraordinária capacidade do companheiro Lula de conquistar almas e corações em todas as classes e segmentos sociais, o bolsonarismo teria voltado à presidência no primeiro turno. Pelo saldo eleitoral, é preciso reconhecer que o campo progressista, sem o Lula, não chega a 25% do eleitorado brasileiro. Eles ganharam. É uma conclusão necessária. A correlação de forças foi alterada de forma significativa e por um longo tempo. O bolsonarismo não é um acidente de percurso nem uma aventura das elites brasileiras. Ele se consolidou como um projeto político que mobiliza e organiza uma parcela da sociedade brasileira que concorda com suas ideias. Uma parcela que não aceita um Brasil para todos. E, desde 2018, ela tem na família Bolsonaro a oportunidade de um projeto de Brasil sem a maioria dos brasileiros — um projeto de poder alinhado aos interesses do imperialismo norte-americano, decadente e, por isso, perigoso. Uma força a ser reconhecida. O pior erro é ridicularizá-la, menosprezá-la ou subestimá-la.
E quais seriam os motivos para o bolsonarismo ter crescido de forma tão consistente? Primeiro, porque eles têm tido maior capacidade de canalizar a insatisfação das juventudes com as crises do capitalismo. Apesar de representarem aqueles que se beneficiam dessas crises, têm conseguido se apresentar como alternativa a elas com um discurso crítico e antissistêmico. Por outro lado, o campo progressista abandonou a crítica ao sistema e incorporou um discurso de defesa do atual arranjo político-institucional com inclusão social. Uma dicotomia. E, na hora do voto, a força real dessas duas narrativas é bem distinta. Soma-se a esse contexto a revolução promovida pelas redes sociais sob controle das big techs, em sua maioria norte-americanas. Esse combo reúne individualismo, neoliberalismo e crise social. Cada indivíduo conectado o tempo todo por redes e plataformas estruturadas e mediadas pelas big techs e seus impublicáveis interesses. Nesse espaço se é, ao mesmo tempo, trabalhador, consumidor, usuário, cidadão, amigo, mãe, filha — ou seja, todas as dimensões da vida cabem num equipamento de fácil acesso. Só para se ter uma ideia: no primeiro turno, por orientação da Meta – dona do Instagram, do Facebook e do WhatsApp – as postagens da direita eram enviadas para 100% dos usuários desses aplicativos no Brasil. Já as postagens dos demais segmentos eram restringidas por meio da manipulação dos algoritmos. Além desse poder real, há ainda questões como linguagem, estética e fake news — um universo de questões que a extrema direita opera de forma eficiente e eficaz. Nessa guerra eles dominam o território virtual.
Outro elemento que se soma ao contexto é a mudança da estratégia do imperialismo norte-americano em relação à América Latina. Desde 2025, o Governo Trump tem aplicado a chamada “Doutrina Donroe” — uma fusão da Doutrina Monroe com as iniciais do seu nome. Essa doutrina não tem qualquer pudor em assumir que pretende intervir nos países latino-americanos que não se submeterem aos seus interesses, seja por meio de sanções ou mesmo militarmente. E, por mais absurdo que possa parecer, o bolsonarismo se apresenta como instrumento político para viabilizar essa intervenção.
E esse contexto desfavorável se repete neste segundo turno.
Apesar disso, acredito na reeleição do Presidente Lula. Minha convicção não é fé cega: parte do histórico de desempenho dos candidatos nas eleições presidenciais em segundo turno. Ao analisar esse desempenho, com exceção das eleições de 2006 — quando José Serra diminuiu a votação em relação ao primeiro turno —, em todas as outras o segundo colocado ampliou sua votação, reduzindo a diferença de forma significativa. Vejamos, por exemplo, 2022: no primeiro turno, Bolsonaro, como presidente, fez 43,2%, enquanto Lula chegou a 48,43% — uma diferença de 5,23 pontos percentuais. No segundo turno, a diferença final foi de apenas 0,99% a favor de Lula. Bolsonaro, que saiu em desvantagem de 5,23%, cresceu 13,66% em relação a si mesmo, enquanto Lula cresceu apenas 3,43%. Em 2018, Bolsonaro abriu, no primeiro turno, uma diferença de 16,75% sobre Haddad. No segundo turno, Haddad reduziu essa diferença para 10,26%. Bolsonaro cresceu 19,77% em relação a si mesmo, enquanto Haddad cresceu 53,24% em relação ao seu desempenho inicial. No quadro abaixo estão os dados de todas as eleições em dois turnos, e é possível concluir que o segundo colocado, via de regra, cresce muito mais do que o primeiro. Os motivos são vários e não os aprofundaremos aqui. Mas o que interessa é que Lula tem plenas condições de vencer o segundo turno destas eleições, visto que a diferença é de menos de 1,87% — diga-se de passagem, a menor diferença no primeiro turno entre todas as disputas desde 1989.
Somam-se a essa análise as vitórias conquistadas no primeiro turno. O Nordeste se consolida como território de resistência e laboratório de novos aprendizados para o campo democrático. E, em todas as demais regiões, há uma resistência organizada, resiliente e com capacidade de luta. E, há outros sinais de mudança no campo progressista. Enquanto nomes históricos da esquerda não conquistaram novos mandatos, surgem novas caras e lideranças. É muito significativa a eleição para o Congresso Nacional de Marília Campos (PT/MG), Marília Arraes (PDT/PE), Luizianne Lins (Rede/CE), Samanda de Lula (PT/RN), Ana Elisa (PT/MG), Maria Marighella (PT/BA), Ana Julia (PT/SC), Natália Boulos (PSOL/SP) e Olívia Santana (PCdoB/BA), só para citar algumas nesta longa lista que se soma às valorosas companheiras reeleitas. Uma renovação que sinaliza esperança. Em sua maioria mulheres, com votações expressivas e reconhecimento nacional. Aliás, as mulheres — em especial as negras — ampliaram em quase 40% sua presença nas bancadas federais e estaduais, e foi eleita uma grande bancada LGBTQIAPN+, a maior da história.
O que suscita um ponto para reflexão. Essas pautas ainda têm sido tratadas como “meramente” identitárias — ou seja, há setores que entendem que elas não teriam potencial para enfrentar o capitalismo. Essa concepção me parece ignorar sua força antissistêmica. A classe trabalhadora sempre foi majoritariamente feminina e negra. E não estamos falando apenas dos trabalhadores celetistas, mas de quem trabalha, mesmo sendo mal remunerada ou nem mesmo remunerada. Em relação aos temas de identidade de gênero, também há um recorte de classe a ser reconhecido. Nas classes média e alta, há tolerância e vários caminhos de emancipação e empoderamento. Já nas periferias, além do preconceito e da exclusão no seio das próprias famílias, não há rotas de fuga — só a segregação e a violência social. E, como diz a deputada estadual eleita pelo PT da Bahia, Vilma Reis, é preciso mudar a fotografia do poder, não só na institucionalidade, mas internamente, nos espaços de poder dos partidos, das organizações e dos movimentos sociais.
Somam-se a essas conquistas, as mobilizações espontâneas e gigantescas que estão ocorrendo neste segundo turno em todo o país, demonstrando que as juventudes estão em luta. É uma nova militância, com enorme capacidade de intervenção nas ruas e nas redes. De forma organizada e articulada, tem capacidade de alterar a disputa política, garantindo a reeleição do Presidente Lula e, mesmo numa eventual derrota, representa a retomada da capacidade de resistência do campo progressista.
Falando na hipótese da derrota, como venho refletindo em meus últimos artigos, as eleições, mesmo dentro dos marcos da democracia burguesa, cumprem papel fundamental na disputa pela alteração da correlação de forças na sociedade e, por isso, na educação política do povo brasileiro. Embora inseridas na lógica capitalista, elas não criam condições para a superação do próprio sistema, mas propiciam condições de debate sobre experiências críticas aos seus paradigmas. Essa condição existe em qualquer cenário. Aliás, muitas vezes é mais eficaz enfrentar o neoliberalismo com sua cara fascista do que o neoliberalismo travestido de democrata. Lembremos que foi durante o (des)governo de Jair Bolsonaro que recuperamos nossa capacidade de articulação, unidade, mobilização, enfrentamento e formação de novas lideranças políticas. Lideranças essas que hoje representam renovação.
Como disse no início deste artigo, a vitória é possível e imprescindível para reequilibrar o tabuleiro político. Mas não podemos ficar falando conosco mesmo. É preciso dialogar com o máximo de pessoas. Diálogo é conversa. Escuta. Buscar entender por que a pessoa pensa como pensa. O povo não é o nosso inimigo, mesmo aquele eleitor do bolsonarismo. É preciso dialogar, entender que a dor do outro faz sentido e que nos importa. Não partir para uma relação de confronto, mas de empatia. Questionar os posicionamentos com perguntas, e não com contra afirmativas. Esse tipo de abordagem funciona melhor em nossas comunidades, onde conhecemos as pessoas, temos credibilidade e, principalmente, onde continuaremos a nos encontrar, seja qual for o desfecho eleitoral. Nesse diálogo nosso objetivo não é apenas o voto, mas a compreensão da disputa que a humanidade está travando entre um futuro de paz, justiça e igualdade contra a barbárie do capitalismo com sua face mais cruel. É preciso acreditar na democracia como valor estratégico. O socialismo pelo qual lutamos é um socialismo democrático, em que a maioria das pessoas participa por vontade própria, não por imposição. Acredito ser essa a utopia que deve orientar os diálogos, colocando a questão de classe e o horizonte de futuro como elemento central. Dessa forma, seja qual for o resultado, estamos acumulando para as disputas que virão. Boa luta.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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Fonte: Brasil de Fato