Mulher sobrevive a duas doses letais e Tennessee suspende execuções
Por Laís Gouveia — Brasil 247
247 – As autoridades do Tennessee suspenderam as execuções previstas no estado após Christa Gail Pike permanecer viva mesmo depois de receber duas doses de pentobarbital durante uma tentativa de execução por injeção letal na quarta-feira (30). A condenada, que seria a primeira mulher executada no estado em mais de 200 anos, foi retirada da penitenciária de ambulância e levada para atendimento médico.
Segundo a Associated Press, Pike, de 50 anos, continuou respirando e chegou a ser ouvida roncando depois da aplicação das substâncias previstas pelo protocolo de execução. Seus advogados afirmaram que não haviam recebido informações sobre o estado de saúde dela após a transferência para uma unidade médica.
O governador do Tennessee, Bill Lee, determinou a abertura de uma investigação independente sobre o episódio e interrompeu as demais execuções previstas no estado até o fim de 2026. O caso foi considerado excepcional por especialistas em pena de morte, já que tentativas anteriores malsucedidas nos Estados Unidos geralmente ocorreram antes da administração completa das drogas letais.
Robin M. Maher, diretora-executiva do Death Penalty Information Center, classificou o episódio como “algo único e sem paralelo”. Segundo ela, existem registros de condenados que sobreviveram a dificuldades para obter acesso intravenoso, mas não de alguém que permanecesse vivo após receber as substâncias destinadas à execução.
Pike deveria ter sido executada pela manhã, mas um tribunal de apelações suspendeu temporariamente o procedimento cerca de uma hora antes do horário marcado. Posteriormente, a Suprema Corte dos Estados Unidos autorizou a retomada da execução.
A condenada havia sido sentenciada à morte pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, cometido em 1995. Pike tinha 18 anos na época. O caso ocorreu em Knoxville, onde as duas frequentavam uma instituição de treinamento profissional.
Durante a tentativa de execução, jornalistas acompanharam o procedimento em uma sala destinada às testemunhas. As cortinas da câmara foram abertas às 19h27 e mostraram Pike presa a uma maca.
Em determinado momento, ela levantou a cabeça e perguntou aos funcionários se o braço deveria estar se sentindo daquela maneira. Às 20h26, testemunhas foram informadas de que uma segunda dose de pentobarbital havia sido administrada.
Mesmo depois disso, Pike continuou viva. Jornalistas relataram ter ouvido a condenada roncando atrás das cortinas até o desligamento do microfone, às 20h53, quando as testemunhas foram retiradas do local.
O Departamento de Correções do Tennessee afirmou posteriormente que seguiu integralmente o protocolo legal de execução aprovado pelo gabinete do procurador-geral estadual. O órgão informou ainda que Pike havia sido transferida para uma unidade médica externa.
Os advogados da condenada criticaram o procedimento e disseram que os riscos apontados anteriormente pela defesa acabaram se concretizando.
“Não sentimos satisfação em estar certos, mas as preocupações levantadas pela senhora Pike se mostraram verdadeiras: acesso venoso difícil, veias rompidas, pentobarbital degradado, ausência de atendimento médico de emergência quando as coisas inevitavelmente dão errado, tudo isso sob um protocolo que continua envolto em sigilo.”
A defesa também apresentou pedidos emergenciais à Suprema Corte dos Estados Unidos, ao Tribunal de Apelações do Sexto Circuito e a um tribunal distrital para impedir a continuidade do procedimento. Os advogados alegaram que Pike estava sendo submetida a uma “agonia desnecessária” e defenderam a adoção imediata de medidas médicas para preservar sua vida.
“A falha em fornecer esse atendimento constitui indiferença deliberada diante de necessidades médicas legítimas e graves”, afirmaram os advogados em uma das petições.
O episódio representa a segunda tentativa frustrada de execução no Tennessee em 2026. Em maio, a execução de Tony Carruthers foi cancelada depois que a equipe responsável passou mais de uma hora tentando, sem sucesso, estabelecer acesso intravenoso para administrar o pentobarbital.
Pike havia pedido clemência ao governador Bill Lee antes da execução, mas o pedido foi rejeitado em 28 de setembro. Seus advogados sustentavam que uma pena de prisão perpétua seria mais adequada, enquanto familiares da vítima defendiam o cumprimento da sentença de morte.
Se tivesse sido concluída, a execução faria de Pike a primeira mulher morta pelo Estado do Tennessee em mais de dois séculos e a primeira pessoa executada no estado, na era moderna da pena de morte, por um crime cometido aos 18 anos.
Fonte: Brasil 247